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Deu grilo


                    Deu Grilo

Autor: José Carlos Sibila Barbosa.

Finalmente o dia havia chegado. Foram mais de quatro lustros de espera. Sonhamos com isso cada ano. E nos feriados prolongados passávamos por ali para planejar . Foi uma eternidade, mas de agora em diante tudo que nós queríamos era brecar o tempo. Agora não, ele não podia mais voar.  Caso os dias ficassem muito espertos, iríamos torcer para  que o vento soprasse as nuvens para trás, como nos filmes, quando são passados do fim para o começo.
Estávamos ali. O caminhão entrou  e meia dúzia de homens trabalhando como formigas iam colocando os móveis no lugar. Eu e meu marido participávamos do trabalho. Peças mais frágeis, vidros, lembranças, coisas pessoais se acomodando nas gavetas, roupas nos armários, um cuidado aqui, um capricho acolá e nós dois sem parar o dia inteiro. Finalmente os homens-formiga foram embora, mas ainda havia muito por fazer. Decidimos que não pararíamos até tudo estivesse nos devidos lugares.
As badaladas do velho relógio, companheiro de três décadas, nos avisaram que já era meia noite e nos alertaram que ele estava fora de lugar, esquecido no chão. Atendemos a sua reclamação e o penduramos ao lado do oratório,  sua companhia por tantos anos. Pronto tudo no lugar. Estávamos exaustos, mas felizes. Um banho e iríamos dormir no paraíso. Uma casa aconchegante, na pequena cidade onde as águas são de prata.








Caímos na cama. Foi o tempo de se acomodar sob a coberta e uma voz fina e metálica nos assustou:

-Vão chegando assim, mexem em tudo e agora querem dormir!
-Quem está aí? Perguntei apavorada e me protegendo junto ao corpo de Anselmo.
- Não precisa se assustar não. Quem tem que Ter medo somos nós.
- Quem é? Onde está? Como entrou? - Perguntou Anselmo, procurando o intruso por todos os lados.
- Aqui, na janela. Por onde mais eu poderia ter entrado se vocês fecharam tudo, colocaram tijolo e cimento por tudo quanto é lado?
- Olha, é um grilo.
- Um elefante é não havia de ser. Com o espaço que vocês deixaram aqui, só podia caber um grilo. Mas eu sou um grilo irritado.
- Mas eu nunca vi um grilo irritado.
- Também temos direito. Ou pensa que só temos que ficar pulando para divertir vocês? Parece que não sabem, mas os animais também comem, têm sede, filhos para criar e precisam de um lugar para morar. Os animais se acostumam com os lugares onde vivem. Não sei se vocês sabem disso!
- Sabemos, é claro que sabemos. E nós viemos morar aqui para viver perto de vocês, na natureza, nós amamos os passarinhos...
- Na gaiola com certeza - Interrompeu o grilo nervoso -







- Mas porque você está tão bravo - perguntou Anselmo - tentando lhe acariciar com o indicador.
- Sai...Tira esse dedo de mim. Estou nervoso e não é com um afago que você vai me convencer não.
- Já sei. A Dona Grila foi embora!
- Foi. Não teve outro jeito.
- Ela te abandonou?
- Não. Eu vou também. Temos compromissos juntos, filhos ainda novinhos.
-Mas se vocês vão junto qual é o problema?
-É que o nosso lugar é aqui. Não era para a gente ir embora.
-Então porque não ficam?
-Por que agora tem uma casa no lugar da nossa casa.
- Tem?
- E é a de vocês.
- A nossa casa destruiu a sua casa?
- Só a minha não. Muitos outros foram prejudicados.
- Anselmo...Nós fizemos isso?
- Não sei... Pelo visto fizemos.
-Fizeram - Esbravejou o grilo - Vocês dizem "Tudo que queremos é viver na natureza, junto aos bichos, ao lado das árvores, dos riachos"- Pura conversa, vocês chegam e vão destruindo tudo. Logo no início meteram um trator aí para aplainar o terreno.
- Mas só tiramos o mato - Eu falei, tentando convencer o pobre grilo que a nossa intenção era a melhor possível.
- Nós moramos no mato. O mato é a nossa casa.







- Mas nós tínhamos que arrumar o terreno para construir.
  - Poderiam Ter feito antes uma assembléia para discutirmos o assunto - Corrigiu-me o grilo com ar de superioridade - Após a assembléia iríamos estabelecer um REI.
- REI ?- Perguntei, meio curiosa - Daqueles com coroa e tudo?
- Não. REI, REI, Relatório de Impacto Ambiental. Não conhecem não? Hoje qualquer empresa, para se instalar num local, tem que estabelecer um REI. A comunidade é ouvida, o assunto é debatido. Não pode ir chegando assim e mudando tudo.

Aquela lição do grilo nos fez perder o sono. Anselmo resolveu consertar as coisas:

-Bom, desculpa, mas podemos ajudar a família grilo em alguma coisa?
- Podem não. Devem. E não é só à família Grilo
que vocês devem.
- Não?
- A Cabra mudou para o vizinho, a galinha parou de botar, os pássaros perderam seus ninhos. Muitos insetos perderam seus parentes. Vocês sabiam que algumas mariposas põem seus ovos sobre uma folha qualquer? E aquilo que vocês derrubaram e que chamaram de "mato" tinha dezenas de ovos de mariposa?
- Não tinha pensado nisso - Eu respondi um tanto envergonhada.
- A vida de muitos insetos - continuou o grilo em tom um tanto professoral - pode ser contada em quatro palavras: Ovo, larva, pupa e adulta. Quando passaram o trator aqui, acabaram com as quatro.




- Mas  nós não sabíamos...
-Deviam saber - interrompeu-me o grilo um tanto nervoso - O gafanhoto ainda conseguiu escapar porque ele tem um par de antenas. Entre os olhos compostos, ele possui três olhos simples e uma maneira de descobrir o que está acontecendo em seu redor que os outros insetos não tem. Porisso ele se livrou da invasão, mas os outros não.
-Falando assim Seu Grilo, você nos faz parecer uns monstros.
- E para nós, realmente são. Muitos tiveram que partir correndo. Lá se foi a Agulha Maldita, a Borboleta Monarca, a Casaca-De-Tigre, a borboleta Ponto-De-Interrogação, a Mariposa-Esfinge-De-Tomate. E a pobre colônia de abelhas, com a rainha, os machos e as operárias fêmeas? A fabricação do mel estava na etapa final, é um processo muito complicado: a procura da florada, coleta do néctar das flores, construção do favo e o seu enchimento com o mel feito do néctar e a cobertura das células a fim de depositar o mel. Nem mesmo as formigas-guerreiras conseguiram enfrentar vocês. Os pássaros debandaram. Alguns deixaram seus ninhos e outros até os ovos. O Pisco-De-Peito-Ruivo bateu asas. Depois dele o Beija-Flor-Do-Papo-Vermelho, o Sanhaço, o Pica-Pau, o Cuco-De-Bico, o Canário-De-Bigode. Quem pula ou voa ainda se virou, mas e a pobre minhoca que mau consegue sair de baixo da terra.
- Bom - eu falei, tentando arrumar as coisas - uns mais longe outros mais perto, cada um vai se arrumar de alguma forma.








-Não vai ser fácil não. Existe na biosfera um espaço físico, um lugar no  qual cada espécie de ser vivo está adaptada. Esse lugar é o Hábitat, costumeiramente chamado de endereço da espécie. É  no Hábitat que cada um tem as condições para viver. Não dá para ir mudando assim sem mais nem menos.
-Olha aqui Seu Grilo - Anselmo interveio já meio irritado - Nós não fizemos por mal. Mas agora o que está feito não tem jeito. Essa é a nossa casa e não tem grilo nenhum que vai nos incomodar.
-Grilo não tem não. Mas tem pior.
-Como pior? - Emendei eu também já um pouco cansada-.
-Pragas! - Exclamou o grilo.
-Pragas? Como assim pragas?- Falou Anselmo com um tom cada vez mais irritado.
-Com a expulsão dos animais aqui do seu hábitat, vocês vão ficar com as pragas e sem os predadores naturais elas serão cada vez mais numerosas. Vai Ter praga para tudo quanto é gosto. São insetos daninhos. O nome comum que lhes é dado é "Praga de Insetos. Eles prejudicam os seres humanos das mais diferentes maneiras. Muitos são inimigos simplesmente por comerem  os alimentos, outros impedem que as plantam produzam o alimento necessário. Existem pragas das colheitas, praga dos pomares, das hortas, insetos que devoram alimentos armazenados, alguns danificam as construções que vocês constróem, ou mesmo as roupas que usam.
- Tudo isso nós vamos ter aqui? - Falei com um pouco de medo-.
- E muito pior.
-Ainda pior? O que pode haver de pior?







- As pragas de insetos que transmitem doenças ( Falou o grilo , fazendo suspense): Malária, febre-amarela... A temível mosca caseira não é apenas um aborrecimento. Ela é um perigo, pois transmite a tuberculose e os germes da febre tifóide.
-Está bem- Eu falei já derrotada- Você venceu. Nós pedimos desculpa pelo desmatamento.
- Só desculpa? - Questionou o grilo irreverente-.
-Que mais podemos fazer?
- O estrago está feito, mas todos os bichos que sairam daqui com certeza querem voltar.
-Mas aí nos temos que sair, desmanchar nossa casa.
- Não necessariamente - Professou o grilo- Podemos estudar um jeito de vivermos  em paz, todos os bichos, inclusive vocês humanos.
- Você acha isso possível?- Perguntei esperançosa.
-Vamos dar um crédito a vocês dois. Todos nós voltaremos aos poucos e vocês vão reparando tudo que destruíram. Quando forem fazer alguma coisa, perguntem antes se não vão prejudicar a vida e o hábitat de outros seres vivos.
-Trato feito - Falou Anselmo-.
-Fechado - acrescentei eu imediatamente.
- Muito bom - Falou o grilo -  Tão logo amanheça vamos começar uma nova vida. Uma época em que todos possamos viver juntos Mas agora, se me derem licença, gostaria de um lugar aí na cama para descansar um pouco. Desde que vocês chegaram eu não consigo dormir um bom sono.


José Carlos Sibila
Enviado por José Carlos Sibila em 06/06/2006
Código do texto: T170479

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Sobre o autor
José Carlos Sibila
São Paulo - São Paulo - Brasil, 68 anos
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