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O Cérebro


O CÉREBRO



A família chegava pouco a pouco. Também os amigos iam aparecendo enquanto as horas passavam . É impressionante como as pessoas reagem ao tempo .  Uns acreditam que devem chegar antes do horário marcado para mostrar solidariedade, ajudando nos afazeres domésticos, outros preferem esperar do lado de fora o badalar do relógio, para entrar no horário exato, demonstrando a importância que dão ao tempo. Um outro grupo chega sempre atrasado, pois pertence aos que gostam de ser esperados.
Eu era da família e, como as demais crianças, já estava lá na casa há  dois dias, preparando  o acontecimento.
Na cidadezinha não se falava de outra coisa. Aquele jantar de confraternização não tinha antecedentes na história do lugarejo. Era o maior evento de todos os tempos e as personalidades deveriam estar presentes. Só naquele lugarejo, algumas pessoas  poderiam ser autoridades. Ali,  o dentista recebia status de cientista,  o juiz e  o padre, que vinham  de outra cidade, também eram autoridades, o gerente da única e deficitária agência bancária era uma espécie de contador do reinado.
Mas, a verdade é que entre os que chegavam antes, aqueles que se apresentavam no horário e os atrasados, todos já estavam ali, prontinhos para receber uma família de tailandeses que tinha acabado de emigrar do seu país e escolhera exatamente a nossa cidadezinha para morar.






O padre, homem de boa fala, foi escolhido para dar as boas vindas à família.
 Duas horas depois, ele encerrou o discurso, realçando ufanísticamente as qualidades pátrias, que permitiam ao país receber os enjeitados do mundo inteiro. Os tailandeses não entenderam uma única palavra mas, como os demais presentes faziam questão de mostrar suas lágrimas, choravam também, já que não há nada mais fácil, universal e conveniente do que chorar em grupo.
Encerradas as boas vindas, o jantar começou a ser servido. O espanto foi geral. As boas maneiras nos mandavam comer. O estômago nos mandava recusar. Para homenagear a rica família da Tailândia e a  respectiva fortuna, que escolheu os trópicos para morar, foi servido um prato típico do país oriental: Cérebro de macaco...Servido na cabeça do próprio...E abençoado pelo padre. Mas o coitado do macaco era nosso, brasileiríssimo, amazônico.
Eu fiquei com nojo. Mais do que nojo, fiquei irritado. Aquele cardápio era como rasgar a Bandeira Nacional. Eu tinha certeza que as nossas autoridades ali presentes iam impedir a serventia do prato infamante. Mas a família tailandesa trazia muita riqueza.
O padre, percebendo o meu incômodo infanto-juvenil, filosofou  no meu ouvido -"O bolso é a  verdadeira magnésia bisurada do estômago" - . Eu não entendi a frase, mas percebi que não havia salvação para a macacada verde-amarela.
Todos comiam, temperando o mal estar do cardápio com a esperança da fortuna, que vinha do oriente. Afinal o que tinha ali?  Apenas alguns macacos que não iriam fazer falta para ninguém.






Peguei um cérebro, mas antes de temperá-lo, ele falou comigo:       -"Não seja ingênuo meu jovem".  Assustado, eu o empurrei de volta para a mesa . "Será que ainda está vivo ?".
O macaco me respondeu: -"Agora eu só vivo de lembrança, mas isso ninguém pode me tirar". Confesso que eu fiquei com diarréia, mesmo sem ter comido o macaco.
- Como assim, vive de lembrança? - Eu arrisquei, certificando-me  de que ninguém estava olhando para o meu diálogo com o cérebro.
- Hoje é uma espécie de batismo que a cidade faz para a família que chega. Mas isso já aconteceu outras vezes, falou o cérebro.
- Então me conta. Se a gente ficar sabendo da história, as coisas ruins  nunca mais acontecem.

Naquele momento, o macaco deu uma gargalhada. Eu olhei para todo mundo. Mas como só eu escutava, continuei a conversa.

- Eu era sabido, falou o cérebro, mas tinha um monte de índio que morava lá comigo que era tudo uns burro.
- Mas índio é burro mesmo, não vai na escola.
- É, índio é burro, macaco ficou burro e  homem está ficando burro. Só burro não fica burro, pois já é. Ainda vou ver um burro pulando de galho em galho, como os macacos quando eram inteligentes.








O cérebro fez uma longa pausa, como se estivesse puxando a recordação e aí continuou a contar o lembrado:

- Eu vejo como se fosse hoje, agorinha mesmo. Igual a esse jantar. Na conta dos teus, mais de quatro séculos para trás. Ali, no clarão da floresta, tudo estava preparadinho.
- Mas o que estava preparadinho, macaco? Angustiei eu.
- Uma espécie de jantar, como esse aqui.
- Tinha tailandês lá?
- Não. Mas tinha padre, macaco e índio...E como aqui, muito dinheiro.
- Era um jantar de confraternização?
- Era. E é por isso que o índio é burro. Eu gritava com o índio : "Vem cá índio idiota, sobe aqui na árvore, foge dessa gente. Manda flecha neles".

Aquele índio burro parecia não entender e sempre me desobedecia:

- Padre gente boa. Trás espelho bonito, colar e ensina religião de gente boa, ele falava no seu indiomacaquês.
- Não vai lá índio idiota. Você vai acabar no caldeirão do inferno.
- Caldeirão coisa de índio ruim. Come branco, ele me respondeu.
- Não entra nessa, índio filho de uma puta! Foge lazarento! Não deixa seu povo escutar a ladainha. Sobe aqui no alto da árvore e fica escondido.
- Índio só conhece bondade. Padre trás coisa bonita, dá aguardente pra índio ficar feliz. Índio vai lá falar com padre. Vai unir tudo os povo.




- Foge, seu cabeça de burro!
- Índio vai  lá. Depois vem te buscar. Vai ficar tudo muito lindo, índio, padre, macaco, tudo gente igual.
- Foge, índio lazarento!
- Índio bom, índio corajoso, índio vai.

Nesse momento, eu olhei para o cérebro. Parecia que ele retornava do passado. Ele olhou atentamente para mim e falou:

- O burro do índio foi e nunca mais voltou. Comigo foi a mesma coisa. Quatrocentos anos depois. Foram me dando comida, eu fui chegando, carinhos, afagos e...virei cardápio para tailandes...Para oficializar a cerimônia, o  padre de sempre. Não tenha náuseas meu amigo, comer cérebros é um ato religioso. Tenha apenas cuidado, ainda comem o seu...Em nome de Deus.


José Carlos Sibila
Enviado por José Carlos Sibila em 06/06/2006
Código do texto: T170481

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Sobre o autor
José Carlos Sibila
São Paulo - São Paulo - Brasil, 68 anos
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