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O Parto

                        O PARTO

Frio. Muito frio fazia naquela noite de terça-feira. O capote longo e o cachecol perdiam a batalha contra o clima. Atravessei rapidamente a rua, mais para entrar  em algum lugar protegido do vento do que pela pressa. A rua estava vazia. Apenas um  reluzente Ford 29 passava ao longe. Pedestre nenhum, somente eu com minha mala de vendedor de produtos importados.
Entrei num velho prédio em estilo Vitoriano, construído pelos Ingleses, no final do século, para servir de estação ferroviária. Uma bela construção, que além de ser ponto de partida e chegada da Maria-Fumaça, que ia e vinha do interior e de outros estados, servia também de ponto de encontro para boêmios e até mesmo para apresentação de uma pequena banda, que sempre animava os fins de semana dos namorados.
Mas naquela terça-feira não. Não havia ninguém. Nem mesmo o bar do Seu Nicolino, onde se saboreava um delicioso pão italiano, que ele mesmo fazia, estava aberto. O relógio,  que se encarregava de contar as horas para toda a região central, já corria célere, para entrar no dia seguinte.
O meu trem ia partir em 15 minutos, exatamente à Meia Noite. Eu sempre viajava naquele horário, pois conseguia dormir durante a viagem e chegava logo de manhã em Auruema, cidadezinha, quase um vilarejo, de uns mil habitantes. Lá eu vendia meus produtos. Naquele horário sempre havia poucos passageiros, dava até para esticar as pernas para o outro lado do banco. Às vezes encontrava um bom papo e o tempo passava mais depressa.
Mas naquela terça-feira não. Não havia ninguém no vagão.


 Acomodei minha mala e me sentei ao fundo do compartimento, de maneira que eu conseguisse ver toda a sua extensão à minha frente. Vazio assim eu nunca tinha visto. Tive vontade de sair correndo. O relógio da estação preparou-se  para as  badaladas, como faz todas as noites Mas naquela terça-feira não. Não ouvi o relógio tocar naquela noite. Achei que ele já tinha tocado e eu não tinha escutado. O trem já estava para partir. Tentei me concentrar em algum assunto para expulsar aquele medo que acompanha a solidão. O último apito que anuncia a partida também não ouvi. Não naquela terça-feira. Fiz um travesseiro com o cobertor que a companhia oferece aos passageiros, recostei minha cabeça e fechei os olhos, mas fui despertado por alguém que acabara de entrar, na última hora. Fiquei aliviado. Ao menos uma companhia sempre é bom ter. Já fiz muitas amizades nessas viagens.
O novo passageiro ainda estava se acomodando quando o trem partiu.
Fiquei atento, observando-o e esperando que ele me olhasse para os cumprimentos de praxe. As pessoas se tornam mais solidárias quando viajam. Mas não aquele passageiro. Sentou na fileira da frente, do lado oposto ao que eu estava, sem me cumprimentar e ficou calado. Homem estranho aquele, vestido em seu capote preto. Estiquei o pescoço para vê-lo melhor, mas as longas barbas pretas escondiam sua fisionomia.
O trem cortava o vento gelado e eu me preparava para descansar novamente a minha cabeça no cobertor, quando ouvi a sua voz jovial e distinta:
— SOU MÉDICO, SE É ISSO QUE O SENHOR  QUER SABER.
Eu tremi, eu nada havia perguntado e ele parecia adivinhar o meu pensamento. Avancei novamente o corpo e arrisquei meio sem jeito:
— EU SOU VENDEDOR. DESCULPE SE PARECI UM POUCO ATREVIDO. MEU NOME É ANSELMO. EU VIAJO SEMPRE A ESsA HORA.
— NÃO HÁ HORA MELHOR DO QUE ESsA, respondeu ele.
— É, É MAIS TRANQÜILO.
— MEIA NOITE, respondeu-me, deixando sem saber o que ele queria dizer.
— O SENHOR VIAJA SEMPRE ?
— SEMPRE. À MEIA NOITE.
— PARA AURUEMA? Arrisquei com medo de estar sendo indiscreto.
— SEMPRE PARA LÁ.
— SE ME PERMITE, O SENHOR VAI LÁ POR CAUSA DE ALGUM DOENTE?
— UMA CRIANÇA.
— COITADA. CRIANÇA AINDA E JÁ COM ALGUM PROBLEMA. TENHO MUITA PENA DE CRIANÇA DOENTE. QUANTOS ANOS ELA TEM?
Ele fez uma longa pausa antes de responder, respirou fundo. Foi a primeira vez que eu percebi a respiração dele. Entre a minha pergunta e a resposta dele, parece que o trem viajou muitos quilômetros:
— AINDA NÃO TEM. AGORA SE ME PERMITE EU GOSTARIA DE DESCANSAR UM POUCO.
— DESCULPE, EU NÃO QUIS INCOMODÁ-LO.
Recostei novamente a cabeça no cobertor e fiquei observando longo tempo aquele homem. Ele não se mexeu um único milímetro, além do vai e vem sonolento da Maria-Fumaça.
Eu sentia um misto de medo, curiosidade e admiração. Era um homem fino. Mas o sono e o balançar vagaroso do trem me venceram e eu acabei dormindo o resto da viagem. Como de hábito, fui acordado pelo funcionário da estação da pequena cidade. Procurei o outro passageiro e não o vi. Perguntei preocupado ao funcionário:
— SENHOR FRANCISCO. FAZ TEMPO QUE O OUTRO PASSAGEIRO SAIU?
— NÃO VI MAIS NINGUÉM NÃO SEU ANSELMO.
— O SENHOR NÃO VIU UM HOMEM DE CAPA E CHAPÉU? ERA UM MÉDICO.
— AQUI NÃO.
— MAS ELE VIAJOU COMIGO. UM HOMEM DIFERENTE. É IMPOSSÍVEL QUE O SENHOR NÃO TENHA REPARADO.
— ENTÃO SÓ PODEM SER TRÊS COISAS. OU ELE SAIU ANTES QUE EU CHEGASSE AO VAGÃO, OU PULOU ANTES DO TREM CHEGAR AQUI. MUITA GENTE FAZ ISSO QUANDO O TREM JÁ ESTÁ BEM DEVAGAR.
                       _ ELE LÁ PARECESSE UM HOMEM QUE PULA DE TREM?
                       _ ENTÃO FOI A TERCEIRA RAZÃO. O SENHOR DORMIU E SONHOU  UM POUCO. ACONTECE COM MUITA GENTE. A VIAGEM É MUITO LONGA E SOLITÁRIA. TEM GENTE QUE ATÉ VÊ O QUE NÃO VIU.
— Ô SEU FRANCISCO, O SENHOR ME CONHECE, SABE QUE EU NÃO SOU DISSO.
Peguei a minha mala e começamos a caminhar para fora da estação. Me despedi do funcionário e andei até a pensão onde eu sempre  ficava. Tomei um banho e saí para visitar meus fregueses. Em cada lugar o assunto era um só: "O parto de Dona Beloca" , uma jovem herdeira de família rica da região e que havia ficado viuva logo após o início da gravidez. O único médico da cidade achava que a criança estava morta. No final do dia, ao voltar para a pensão, comentei o fato com Dona Filomena, que era a proprietária:
— A CIDADE ESTÁ TRISTE DONA FILOMENA.
— E COM RAZÃO SEU ANSELMO. A DONA BELOCA É MUITO QUERIDA.
— O PARTO NÃO TEM JEITO MESMO?
— DOUTOR ZECA, O ÚNICO MÉDICO QUE SOBROU NA CIDADE, NÃO ACREDITA.
—DONA FILOMENA, POR ACASO NÃO TEM UM MÉDICO, QUE CHEGOU HOJE CEDO, HOSPEDADO AQUI NA PENSÃO? UM HOMEM DISTINTO. FÁCIL DE SE NOTAR?
— PRA CÁ NÃO ESTÁ VINDO MAIS NINGUÉM SEU ANSELMO. MUITO MENOS MÉDICO. DEPOIS DA MORTE DO MARIDO DA DONA BELOCA, SÓ SOBROU O DOUTOR ZECA.
— O MARIDO DELA ERA MÉDICO?
— ERA!  HOMEM BOM AQUELE. DE POUCA CONVERSA, TÃO BOM QUE NÃO TEM OUTRO IGUAL. EU ACHO QUE SE ELA PERDER O FILHO ,É DE TRISTEZA. FICOU VIÚVA LOGO DEPOIS DA GRAVIDEZ. DE LÁ PARA CÁ QUASE NÃO SE  VÊ A DONA BELOCA. DIZEM QUE FICOU ATÉ MEIO LOUCA COM A MORTE DO MARIDO. SÓ SAI DE QUARTA-FEIRA, PARA IR NA ESTAÇÃO.
— FAZER O QUE NA ESTAÇÃO?
— LOUCURA, NÃO É SEU ANSELMO.? FICA  FALANDO QUE  O MARIDO FEZ UMA LONGA VIAGEM E QUE UM DIA, NUMA QUARTA-FEIRA, ELE VAI CHEGAR DE TREM. COITADA. A CIDADE ESTÁ TÃO TRISTE QUE HOJE NEM O APITO DO TREM NINGUÉM ESCUTOU. O SENHOR ESCUTOU O APITO? DEVE TER ESCUTADO, NÃO É ? O SENHOR ESTAVA NO TREM.
— NÃO, EU ACHO QUE EU ESTAVA DORMINDO. MAS EU NÃO VI A DONA BELOCA POR LÁ.
— ESQUISITO, HOJE, POR ACASO, ELA DISSE QUE  IA ESPERAR O MARIDO EM CASA. POBRE COITADA. UMA MULHER TÃO BONITA... MAS EU NÃO QUERO ABORRECER O SENHOR COM ESSE PAPO DE CIDADE PEQUENA. É MELHOR O SENHOR JANTAR ANTES QUE ESCUREÇA E IR DORMIR. BOA NOITE, SEU ANSELMO.
Naquela noite não consegui dormir muito bem, mas o cansaço me dominou e finalmente peguei no sono. Acordei na manhã seguinte com uma falação no bar da pensão. Desci para ver o que era e todos comentavam o nascimento do filho de Dona Beloca e fui avisado por Dona Filomena, que a Dona Beloca queria comprar uns perfumes franceses, que eu sempre vendia na cidade. Mais do que depressa, a pretexto de vender perfumes, dirigi-me para sua residência, onde fui prontamente atendido e levado até os aposentos de Dona Beloca. Cumprimentei-a com indisfarsável curiosidade:
—BOM DIA, DONA BELOCA, JÁ FIQUEI SABENDO QUE O SEU FILHO NASCEU FORTE E SAUDÁVEL E QUERO LHE PRESENTEAR PESSOALMENTE COM UM PERFUME FRANCÊS, RECÉM-CHEGADO DE PARIS.
— A CIDADE NÃO ACREDITA, SEU ANSELMO, E ATÉ ME CHAMAM DE LOUCA. TODOS PENSAM QUE ELE MORREU, MAS EU TINHA CERTEZA QUE O MEU MARIDO Voltaria PARA FAZER  O PARTO E VER NOSSO FILHO. ELE ME PROMETEU. EU FIQUEI SABENDO QUE O SENHOR VEIO NO MESMO TREM NÃO FOI?
Eu fiquei meio confuso, parece que demorei horas para responder:
— VIEMOS JUNTOS E ATÉ CONVERSAMOS UM POUCO. ELE ESTÁ NO OUTRO QUARTO COM O FILHO?
—NÃO, NÃO. ELE É MUITO OCUPADO E TEVE QUE PARTIR. MAS ELE VOLTA. ELE PEGA O TREM NUMA TERÇA-FEIRA, AQUELE QUE PARTE DA CAPITAL À MEIA NOITE, E ENTÃO ELE VOLTA PARA MIM.
Meio cnfuso, eu já estava me preparando para sair, quando o Doutor Zeca entra, vindo do quarto da criança:
—A CRIANÇA ESTÁ ÓTIMA. ACHO QUE FOI O MELHOR PARTO QUE EU JÁ FIZ.
— É VERDADE, acrescentou Dona Beloca, ATÉ PARECE MILAGRE.
— PARABÉNS DOUTOR E FELICIDADES PARA A SENHORA E PARA A CRIANÇA. AGORA, SE ME PERMITEM, EU PRECISO PEGAR O MEU TREM.
— SEU ANSELMO, chamou-me a Dona Beloca.
— O MEU MARIDO MANDOU LEMBRANÇAS PARA O SENHOR E DISSE QUE UM DIA VOCÊS SE ENCONTRAM POR AÍ.


José Carlos Sibila
Enviado por José Carlos Sibila em 07/06/2006
Código do texto: T170897

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Sobre o autor
José Carlos Sibila
São Paulo - São Paulo - Brasil, 68 anos
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