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O Amigo do Zé das Moças

      O AMIGO DO ZÉ DAS MOÇAS


Eu não podia dizer que era o meu amigo Zé das Moças quem eu estava vendo ali. Mas que era ele, ah isso lá era. Mas que eu podia dizer que era ele, ah isso lá eu não podia.
Fiquei na dúvida. Se eu digo que era, a cidade inteira vai  dizer que eu estou ficando louco, porque eu não posso ter visto quem não pode ser visto. Se eu digo que não era, quem vai achar que eu estou ficando louco sou eu mesmo, pois eu tenho certeza que eu vi quem não pode ser visto.
O fantasma, que quando  vivo era conhecido por Zé das Moças e era tido como o biruta do lugarejo, conversou comigo e até me falou do seu maior amigo, um canivete que um dia ele  ganhou da mulher mais bela do mundo. E o seu mundo era apenas aquele lugar onde nasceu, cresceu endoidou e morreu.
 Nem um único pé para fora dos limites do local  o Zé das Moças jamais andou.
O que esse defunto biruta me falou, vou deixar para ele mesmo contar, pois se eu mesmo conto, vão dizer que o biruta sou eu. Na verdade o que eu queria saber do morto que não posso dizer que vi, mas não posso negar ter visto, eu fui logo perguntando:
- Ô Zé, porque  em vida você nunca largou o seu canivete amigo?
A resposta me causou mais espanto que a visão do morto, pois que era pura poesia. Poesia que ele não tinha na palavra da vida, mas tinha na vida de morto:
-Este é o meu amigo mais útil - Falou-me o fantasma, abrindo as muitas lâminas do seu amigo canivete - Com ele eu divido minhas angústias , vivo momentos de paz... É o companheiro da minha solidão...Um amigo útil... Na verdade a minha primeira intenção foi de explorar esse meu amigão. Então  era ele quem dava as primeiras lambidas na laranja azeda a beira do caminho...Frente ao aço duro da tampa da cerveja gelada, era ele que se esforçava no trabalho de liberar o loiro líquido da minha paixão...E se a cana se anuncia bruta, seu Chico, são os seus dentes e não os meus que mais do que depressa a executa...Ah! E se mais valia esse canivete não tem, ainda lhe sobra aquela que vale mais vintém, pois quando eu vejo a bela donzela, é ele que desinibe a minha timidez ao oferecer à cortejada os serviços afiados da tesoura de unhas...Ah! Como era útil esse meu grande amigo... Ele continua funcionando e bem, mas agora não é mais um amigo útil. É apenas  amigo.

Dito isso o Zé das Moças desapareceu. Não o vi mais. Nem ele, nem o seu canivete...Mas, se contar esse estranho encontro não posso,  e negar que vi seria uma mentira, vou pelo menos imitar o Zé e comprar também um canivete e contarei tudo para ele, chupando laranja azeda à beira do caminho,  tomando uma geladinha ou mordendo uma cana. Quem sabe assim eu também encontre a minha donzela para contar minhas estórias.


José Carlos Sibila
Enviado por José Carlos Sibila em 07/06/2006
Código do texto: T170900

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Sobre o autor
José Carlos Sibila
São Paulo - São Paulo - Brasil, 68 anos
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