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Trancas, chaveiros...

Terminou assim.

As chaves giram pra esquerda, ela disse. Duas voltas e um estalo de galho seco quebrando se escuta. Aquelas fechaduras antigas, invertidas, o movimento inversamente proporcional ao esforço despendido no intuito do destrancamento. Gira prum lado, abre pro outro. O quarto ainda recendendo a incensos e culpa. Sândalo? Lavanda? O que quer que fosse, dissipou-se. Um altar de Nossa Senhora, o olhar grave da santa, o credo. Assim que pisou no capacho do lado de fora, junto da poeira que subiu veio outra sensação, outro cheiro. Lá embaixo, o ar novo da rua: liberdade. E aquela sensação de um pedaço deixado para trás. Memórias são como o cascalho fino da rua, entranham-se nos sulcos dos sapatos, são levadas pra dentro de outras casas, outras vidas. Isso aprendeu no girar invertido.

Começou assim.

Praça Tiradentes, calçada oposta ao bar-restaurante “Deu La Deu”, ali, na avenida Passos. Quase sete da noite. Ela flutuava a um palmo da calçada. Rosto franzido, top justo, a pele variando de café a canela. Barriga redonda, marcada, enrugada, sofrida: duas cesárias e, o sulco fundo do cós apertado da saia, torturando, deixando sobrar folgado os excessos. Na pele as manchas recentes de outros dias, outros casos. O cabelo carapinha molhado desenrolando-se em molas desiguais do topo até o meio das orelhas. Um filete branco escorrendo junto com o suor, contribuindo com as nódoas antigas. Assim a avistou, assim a eternizou. Mandou o motorista, Jaime, parar. Jaime parou. Ela, de lá, se estremeceu nos saltos gastos, conferindo assim, metodicamente, o passo, o lábio e a bunda. Nos vidros espelhados do carro chapa branca, seu corpo refletido. “Figurão” – pensou. Ou ele acha que ela pensou, afinal, quem não pensaria? O vidro foi baixando devagarzinho, cena de cinema; a dama, mais pra vagabunda.

Arriscou, galante, incerto do que fazer: “Olá”. Assim, seco, mas cortês, estilo profissional respeitado. A surpresa ficou por conta da resposta, cheia de musicalidade, ratificando a suspeita e o motivo de sua parada.

- Se acaso me quiseres, bebê, vou logo avisando, sou dessas mulheres “qualquer coisa assim”, por uma coisa à toa, uma noitada boa ou um toque de cetim...

Ele interrompeu, achando ter dado ela, além de charme, um gancho.

- Bethânia?
- Não, bobo. Jussara. Mas me chamam de Juju.
- Ah, não... digo... essa música... é da Bethânia, não é? – desiludido, caindo do décimo andar.
- Ah. Ha, ha... sei não, filhote. Esse versinho falo desde sempre, minha assinatura, sabe? Mas não é coisa minha não, aprendi com Marlene, aposentada já. Agora é meu né?
- É... quer dizer... acho.

E manda Jaime encostar. Jaime encostou. O papo descambando praquele lado, o dos finalmente, onde, geralmente se decide o destino do universo. Ao menos o deles dois. Maldita é a hora que batizam de feliz. Uns drinques a mais, a conversa não agrada, uma certa insegurança que aflora, a auto-afirmação confirmada, e aí... a gente se envereda por lados, saídas, escapamentos nos entroncamentos e bifurcações da vida. Haja serenidade.

- Entra, filha.

Ela entrou. Na tática de caça, nos primeiros movimentos de aproximação, corava como um colegial diante da namoradinha. No fundo, fantasiava isso. As moças, como gostava de as chamar, tinham esse dom de ter tudo para o não o ter. Uma beleza anulada, camuflada na vulgaridade e no excesso de maquiagem, na vida fácil. O grande sentido então, era descobrir para que lado se gira a roleta, que mistérios solucionáveis se escondem sob os encantos das cintas-ligas, das calcinhas mínimas de renda.

Riu dela. Pra descontrair. Ela comprou. Embora toda sua malandragem e vivência exalassem fortes num cheiro acre, misto de suor, creme de cabelo e perfume barato – ela riu. Porque as putas riem. Sorrir não. Sorrir é uma coisa mais pura. E longe de ser o que ele queria. Era na falta de atrativos que elas o fisgavam. E tinham sim, para não o ter, mas disso quem entende?

Ordenou a Jaime que seguisse, como nos filmes: “Toca pro Hotel, Jaime”. O “hotel” dela, claro. Tencionava dizer o propósito, o motivo de sua abordagem, sua parada, os jogos, os gestos, mas refreou seus desejos. Antes: nada. O acaso, ao contrário do que pensam muitos, existe. Sua força é presente, um elemento bem vindo.

Ela no banheiro. A porta velha, descascada, arranhada, carcomida. O cheiro do patchouli fortíssimo, de embrulhar estômago. O relógio de corda, àquela hora da noite abalava as finas paredes de alvenaria do cômodo. Andou de um lado a outro, como se quisesse medir o tamanho do quarto, o tamanho do fato. Perdeu as contas de quantas vezes perdeu tempo em quartos deteriorados, à procura nunca soube bem de quê. Tempo esse corrido, gasto, marcado por relógios gritando em noites idênticas. Tempo precioso na escala de prioridades vitais. Dar de correr mundo atrás do que, quem sabe, não pode ser achado, evidentemente, deve ser uma imensa asneira. Gostou do espelho velho pendurado. Daqueles de moldura laranja, tamanho quase 3 x 4, 5 x 8, pensou.

Ela recém-saída. O banho refrescante, banho de praxe pra ela, pra ele: necessário. O intuito da chuveirada é relaxar o cliente que, muito pouco à vontade entre os detalhes da cortina encardida ou o estado dos lençóis, ou com tantas opções no bar modesto, termina bebendo ou se lamentando. Os dois casos simultâneos são bem freqüentes. Encurralado e sem maiores alternativas, ele se senta na ponta da poltrona de tecido puído, bem ao canto. Passa de toalha enrolada, rainha na noite. Desfila lasciva, se esforçando para ser sensual àquela altura das madrugadas idas e vindouras nesta invenção maldita que é o tempo. Checa o assento da poltrona, tudo bem. Tosse por duas vezes, de forma forçada. Olha para o teto, coça a nuca. Pensa em acender um cigarro, desiste. Aí ela senta ao seu lado.

- Relaxa.

A bunda ainda molhada, o sexo mais mal enxuto do que úmido de fato, o incenso no fim. Joga as coxas cansadas, porém ainda com uma certa firmeza, pra cima dele que, como se não esperasse isso, se encolhe da carícia. Lembranças formigando na consciência, mil ferroadas de agulhas, como se, antes da culpa em si, viesse assim sorrateira essa sensação de vazio a ser preenchido. Um homem lacuna. Meio-médio ligeiro, por volta dos quase cinqüenta, certo do que deve ser feito, de suas buscas, dos seus descontentamentos. Um cara centrado. É o que se repete dia após dia. Basta descer a cortina pesada encerrando o ato para cair por terra seu otimismo. Vão-se os dedos ficam os anéis. Ou qualquer coisa assim. Pois o fato é que sempre foi racional e, com isso em mente, deixa o copo de lado, estrategicamente na ponta da cabeceira da cama. Tudo planejado pra que caia ao ranger o estrado velho, com o vai e vem da primeira estocada. Sente prazer nesses detalhes.

Taxímetro da moça girando, bandeira dois, de modo que o restante da meia hora paga antecipada – “Pra não ter problema, tá, meu amor?” – é gasto, valendo o valor, aos trancos e barrancos com beijos sujos e enfumaçados. Patchouli em excesso no ar, saliva em excesso escorrendo pelos cantos da boca, o membro flácido lutando e perdendo de antemão. É a mancha de espinha intragável, é a feridinha nas costas, é o ambiente. Centrado. Focaliza, respira fundo e consegue, apesar de tudo.

Ela em direção ao banheiro. Ele de pé, fumando debruçado no peitoril da janela. A fumaça subindo de encontro à luz da lâmpada vermelha de sessenta watts. Misturando-se leve, bruxuleante como a chama de uma vela. As contas pra pagar, o presente da filha, o último ano, quem sabe se aposentar, já não tão mais jovem, cabeça fora de lugar, vagando longe, pra dentro de outras cabeças, consciências externas, porém ligadas à sua, uma rede de pensamentos interligados dissipando ali, lá, em todo lugar, sob aquela lâmpada vermelha e a fumaça que alcança longe... Irrompe ela:

- Foi bom pra você?

Nem respondeu. Catou o paletó, vestiu a camisa, a medalha de Nossa Senhora fervendo no peito, as meias ainda no pé, virou-se e saiu de lá o mais rápido possível. Ainda a ouviu corrigir...

- Nãããão... Pra esquerda, meu bem, pra esquerda.

Toca, Jaime.
Douglas Evangelista
Enviado por Douglas Evangelista em 12/06/2006
Código do texto: T173873
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Sobre o autor
Douglas Evangelista
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 36 anos
32 textos (1072 leituras)
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Douglas Evangelista