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Do amor e da maledicência

Pois foi rapaz, foi exatamente assim como te conto. Foi que foi, juro por tudo. Você não sabe? O pessoal todo sabe desse caso. Depois não vai dizer que falo da vida alheia, que não me dou o respeito, vai? Então te conto então. Foi tanto que Rosa teve até de se mudar. Agüentou não, pesou demais; carapuça vestida assim, como luva, justinha sem tirar nem botar folga, não tem ninguém que agüente não, rapaz. Mas ela também parecia que pedia, não é mesmo? Você se lembra? Não? Ah é, tu é chegado pra esses lados faz pouco, veio de lá da Terra de cotas, de lá de onde mandaram o resto do lote sobrado.

Rapaz, então, os dois até que se amavam, isso não há de se negar. Entretanto, o amor, esse comichão que começa na nuca e desce pela virilha, é dos sentimentos o mais imprevisível. O orgulho? Esse até que é bem prévio, se dá dentro do peito, um zumbido forte, tipo abelha, ao ritmo da ofensa: quanto mais grave, a colônia maior, mais enfurecida - aparece dando sinal. E essa história se confunde, pois, justamente neste ponto, aquele que ainda não é bala nem calda, mais pra lá que pra cá, como alma penada solta no tempo. E tá cheia dele – o orgulho – ferido.

Como eu te dizia, amar os dois se amavam, e embora a chama ardesse alto (e todo mundo sabe o quão perigoso é brincadeira com fogo), e fosse mesmo até, em análise romântica, coisa bonita de se ver, é notório que periga sempre chamuscar o teto, fazer estrago. Pois foi de fato assim que o desastre se deu – em forma de flagra, uma labareda quente aprisionada, buscando ar na língua de fogo dos maldizentes.

Conto-lhe agora, agora, rapaz. Pois bem. Rosa, que era das mais bonitas e cobiçadas nas quermesses, negaceando toda família, inclusos no rol aí até Seu Espiridião seu pai, resolveu se engraçar justo pros lados de Mortadela, que era um camarada daqueles vida-mansa, sempre metido em meio a alpistes e trinca-ferros premiados.

Diz-se que foi através do canto do boiadeiro – ou do bom-dia Seu Chico? – que o tal conquistou Rosa. A razão, essa que faz falta desde sempre aos pombinhos, ausentou-se mais uma vez, numa de manter tradição. Esta mantida, a outra, a que foi quebrada, que desarranjou o arranjo feito por Espiridião, que nem sequer pensara em tal sandice – “Rosa e Mortadela?! Má quê!” – foi a do casamento conveniente; conivente: só a mãe.

Então. No infortúnio do destino, contra ferro e contra fogo, os dois se amigaram, se namoraram, se noivaram e se casaram. Repercussões? Claro que houve, rapaz. O velho derramou-se. Literalmente. Hoje em dia mal anda e mal fala, mas mantém a pose. A boca torta, seqüela segunda, dizem os doutores de lá de longe, pra lá da capital. Que a primeira foi o coração diminuído num aperto, ao saber da notícia. Velho couraça, vou te dizer, rapaz. Mas então, deixa eu te contar, que preciso me ir. Rosa, coitada, que vinha afobada na ânsia do último capítulo da novela, chegou cedo demais em casa. Parece até coisa que se lê por aí, mas o que lhe digo é a mais bendita verdade. Parece piada, é mesmo, parece piada; daquelas que não se entende o final, embora muitos, principalmente a família da vítima (já vais entender), tivessem previsto final semelhante a esse para o drama.

Num azar sem fim da parte dela e, talvez, sendo frio na análise, numa falta de zelo da parte dele, foi que em vez do galã das oito e a namoradinha se beijando, o que Rosa pôde constatar assim, a olho – e outras partes mais pudendas – nu, foi uma cena intragável, de revirar tripas.

Num plano americano, tela toda, o primeiro a se apresentar à câmera foi Bonifácio, rapagão forte, lavrador; o que tem de avariado da cuca, tem de bem servido lá embaixo, entende? As marcas de suor debaixo do braço e a baba ressecada no canto dos lábios em close exagerado. Emborcado de lado, posição elástica, atuava Mortadela, bocado nele, aos modos de tainha no anzol.

A estaca espetava o canto da boca, e a surpresa foi tal, que o último suspiro, o espasmo letal do peixe enganchado agarrando-se ao fio de ar, fez com que ele se trincasse todo, arregalando os olhos e trancando o cu. O pior, ele que está sempre por vir, veio com carga total: nessa trincada que o traste deu, cerrou os dentes, o que, por sua vez, fez com que Bonifácio, o bobo, esperto que se mostrava, jorrasse por todo canto, atingindo – vê se pode, rapaz? – o clímax e o cabelo de Rosa. Valei-me meu Santo Expedito! Ô humilhação!

Depois dessa ela se mudou, ia fazer o quê, me diga? O povo maldizente, que fique bem claro nada a ver comigo essa gente, diz que vivem os três felizes pras terras lá dos outros lotes. É... o amor é dos sentimentos o mais imprevisível, não é mesmo, rapaz? E eu já vou me indo. Até.
Douglas Evangelista
Enviado por Douglas Evangelista em 12/06/2006
Código do texto: T173878
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Sobre o autor
Douglas Evangelista
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 36 anos
32 textos (1072 leituras)
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Douglas Evangelista