Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Perfumes e escrúpulos

- Não posso continuar assim!
As pessoas olharam, e Cláudia se deu conta do pensamento em voz alta. Baixou os olhos, a vergonha de então misturada à antiga - justamente a que deu vez ao desabafo - e ao remorso de iludir a si mesma.
Conhecera Álvaro há dois anos; há um dia menos que isso tornaram-se amantes. E agora ela queria definições: que tudo fosse aos ares, ao diabo! Por acaso ela mesma não sofria desde que soubera do desastre? "Sou casado, amor." E mais: "Eu sei, eu sei, não devia ter casado tão cedo, ela nem era a mulher certa para mim! Então conheci você... Mas tem o Alvinho, ele vai sofrer tanto! Desculpe, amor, devia ter contado tudo antes..."
Claudia ficara em choque:
- O que foi que eu fiz, meu Deus, prá merecer tal castigo? Eu sempre tive muito cuidado, nunca quis nem amizade com meus colegas casados, e então, isso! Minha mãe, minha avó, até uma prima que ficou louca, sofreram por causa de 'outras', e agora eu, 'a outra'...  E tem o Alvinho, meu Cristo Jesus! É demais, eu desisto, eu morro!
Ele calado, cabisbaixo, num contraponto inútil e necessário; Cláudia levantando-se da cama, o suspiro fundo... Amava-o tanto! A sugestão de Álvaro caiu como uma espécie de benção:
- Olhe, podemos dar um tempo... Para o Alvinho se acostumar, entende? Faça isso por mim, amor! Por nós?
Desde então, vinham se encontrando periodicamente, em locais pouco movimentados ou na casa dela. Dando um tempo. Nas vezes em que ela pressionara, Álvaro tinha o argumento:  era cedo, Alvinho ainda não estava pronto, sofreria muito. Cláudia recuara, sem entender bem o porquê do próprio medo: podia perdê-lo, mas não o possuia realmente...
Pois então: para ela, o tempo de espera havia acabado; era chegado o Tempo de Decidir. Tinha inclusive comprado o uisque preferido dele, e fizera o assado de panela que ele adorava. Não custava nada dar uma ajuda ao destino. Então, a depilação cuidadosa, o corpo hidratado e macio, aquele perfume (uma fortuna!). E Ela. E Álvaro:
- Perdoe, amor. Você nem imagina como me dói, mas tem o Alvinho... Mas eu entendo você, e respeito sua posição.
E não telefonou mais, tampouco encontrou-a por acaso pelos lugares cúmplices. Durante um período, Cláudia passou de mão em mão, de boca em boca, como que em abstinência de sentir. Um dia acordou com fome de chocolate, cheirou as cores do mar, e comprometeu-se novamente consigo mesma.

Muito tempo depois, numa festa, avistou Álvaro ao lado de uma loura bonita, elegante e simpática - nem de longe um arquétipo! A coincidência: no vestíbulo do banheiro, as duas borrifando-se com o mesmo perfume, um lançamento recente. Daí trocaram impressões sobre moda e maquiagem, os elogios recíprocos. Cláudia despiu-se de qualquer inveja.
- O que você usa nos cabelos para manter o brilho? Por que é louro natural, não é?
- Engraçado, todo mundo pergunta se é pintado, mas é efeito de xampu de camomila, só. Não tenho frescura, sabe? Nem tempo de ficar cuidando...
- Acho que filho ocupa demais, mesmo.
- Não sei, ainda não tenho filhos. Meu marido diz que é cedo, que me quer só para ele por mais um tempo. Não é um encanto?
A aliança de Cláudia com Cláudia rompeu-se. Atualmente tem procurado namorado na Rede - mal sobra tempo para cozinhar! - mas ainda não mudou de perfume.

Morada Nova-CE, abril/maio de 2004
Gina Girão
Enviado por Gina Girão em 12/06/2006
Reeditado em 22/07/2011
Código do texto: T174370
Classificação de conteúdo: seguro

Copyright © 2006. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Gina Girão
Morada Nova - Ceará - Brasil, 50 anos
417 textos (25014 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 11/12/16 10:03)
Gina Girão