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Quando o sonho é apenas um alento

Quando o sonho é apenas um alento

Um final de tarde, como tantos outros, está Creusa janelando com seu olhar perdido, seu rosto pálido e encarquilhado pela idade e pelos anos de “guerra”. A janela colonial, herança da dominação portuguesa, emoldura a cena que se repete. Antes, era Maria das Dores. Foi batizada Creusa ao se tornar mulher-da-vida.
A casa em que Creusa mora está tão decadente quanto o resto da Zona do Meretrício. Paredes rachadas, os caixilhos das portas e janelas corroídos pelo tempo, pelos cupins e punilhas, não conseguem, nem de longe, revelar o frenético movimento e o esplendor de décadas atrás, quando abrigava os festins licenciosos da elite perdulária. Muitas meretrizes que por ali haviam passado tomaram rumos diferentes. Outras morreram pelo maltrato da vida boêmia. Creusa está ali, resiste. Agora, ao entardecer, banho tomado e exalando patchuli, lá está ela, provavelmente remoendo seu passado ou, quem sabe, tentando, através de uma nesga de esperança, vislumbrar o rebotalho de um sonho muito distante. Talvez esteja esperando um cliente, um marinheiro privado da sexualidade depois de tantos dias no mar. Ou, quem sabe, um bêbado do lumpemproletariado que lhe pagasse alguns borós em troca de parcos momentos de carinho e volúpia.
Freqüentemente, Creusa lembrava-se do dia em que perdeu a virgindade, virtude que, sobremodo naqueles tempos, arbitrava a decência de uma mulher. Aquela cena, de tão traumatizante, sempre lhe vinha à cabeça e lhe causava arrepios. Foi num início de tarde, quando o calor e o mormaço faziam pachorrentos os moradores da fazenda “Pau-de-Sebo”, às margens do  Rio Xingu, afluente do caudaloso Amazonas. Creusa, na época Maria das Dores, filha mais nova do vaqueiro Domingos, brincava entre as árvores, próximo ao curral. Era a hora sagrada da sesta. Das Dores, como a chamavam, ainda não havia completado treze anos, mas possuía corpo de mulher. Peitos rijos e pontiagudos revelavam-se sob a blusa de tafetá que lhe havia sido trazida de Belém por dona Capitolina, mulher de seu Salim, proprietário da fazenda. Este, bem conservado, não aparentava os sessenta e oito anos que carregava no costado. Era tão forte que os moradores daqueles tratos diziam-no capaz de transportar um piano nas costas. Queixava-se do jejum a que dona Capitolina o obrigava. Certa vez, teria confidenciado ao amigo, doutor Etelvino Braga, juiz daquela Comarca:
-- Ah, meu caro ! Depois que Capitolina virou beata, substituiu o sexo carnal pelo sexo devoto.
Naquele início de tarde, na fazenda “Pau-de-Sebo”, a brincadeira de Das Dores foi interrompida pelos estrépitos produzidos por patas de cavalo. Reconheceu o cavaleiro que se aproximava: era seu Salim, o patrão de seu pai. Seu Salim apeou do belo alazão e sem que ela tivesse tempo de reagir, cingiu-a pela cintura, atirou-a ao chão como fazia com seus novilhos. Enquanto com a mão esquerda mantinha Das Dores sob um amplexo vigoroso, com a direita foi despindo-a. Ela debateu-se, porém não foi capaz de deter o propósito e a prepotência do tosco fazendeiro. Pouco depois, Das Dores, chorando e com o sangue escorrendo pelas coxas, ouviu o som das patas do cavalo que se afastava.
A impunidade fazia seu Salim continuar incólume em suas proezas. Sempre que havia uma oportunidade, apeava-se de seu belo alazão para cavalgar as desavisadas e vulneráveis donzelas.
Os repetidos assédios de seu Salim e o receio de que seus pais descobrissem o que acontecera levaram Das Dores a aceitar o convite de dona Capitolina para ir morar em Belém. Ajudaria nos trabalhos domésticos e, no tempo que sobrasse, aprenderia a ler e escrever.
No casarão dos Salim, em Belém, em vez da tranqüilidade esperada, Das Dores encontrou exaustivo trabalho e mais desilusão. Acordava cedo, tomava café preto com pão que era servido aos criados, varria a casa e, em seguida, descia para a área onde ficavam os tanques e as tinas. Ali, lavava roupa o dia todo, parando apenas para o almoço. De noite, ajudava a servir o jantar. Foi num desses jantares que Ramiro, filho mais velho de seu Salim, descobriu os atributos físicos de Das Dores. Impressionado, Ramiro pouco dava atenção às palavras do pai, em visita a Belém. Naquela noite, seu Salim descrevia, com minúcia e entusiasmo, a expulsão de posseiros que haviam se estabelecido à margem esquerda do Igarapé da Cobra, em área de sua propriedade. Dizia seu Salim, gesticulando:
--  Eles resistiram, até que contratei alguns cabras que foram lá e atearam fogo nas palhoças daqueles vagabundos. Assustados, Raimundo, Firmino, José, Bento e toda a cambada deram com o pé no mundo. Juraram voltar, mas não acredito que façam isso, hahaha...
Ramiro, que fingia estar atento às explicações do pai, tinha seus olhos concentrados em Das Dores, no seu jeito sensual, na sua beleza morena e nos seus peitos rijos e pontiagudos que se revelavam sob a blusa.
Terminado o jantar, Das Dores, como de costume, desceu ao porão onde ficava seu quarto. Na rede puída, o cansaço e o sono roubaram-lhe, mais uma vez, a possibilidade de qualquer reflexão acerca da vida.
Ramiro tomou a bênção dos pais e saiu para as suas habituais sessões literário-etílico-musicais. Compartilhava seus estudos acadêmicos com a boemia e com a militância partidária. Filiado ao Partido Comunista, era um crítico inexorável do capitalismo e de suas mazelas, incluídas a miséria, o desemprego e a prostituição. Mas nas noites de orgia, nos braços das prostitutas, Ramiro, num vitupério aos seus próprios preceitos, usufruía as benesses do grande capital.
Depois da patuscada daquela noite, já de madrugada, Ramiro abriu o portão de ferro do velho casarão. Ainda no pátio, lembrou-se do jantar. Lembrou-se de Das Dores, do seu jeito sensual, da sua beleza morena e dos seus peitos rijos e pontiagudos. O álcool havia acentuado sua libido. Assim, em vez de ir deitar-se, desceu a escada que dava acesso ao porão. Empurrou devagarzinho a porta do quarto de Das Dores. Esta, nua, dormia a sono solto. Uma lamparina de querosene pendurada na parede emitia pequeno facho de luz que se estendia sobre seu corpo, gerando um extraordinário efeito visual. O calor era grande. Ramiro suava e sua respiração se intensificou diante da imagem que lembrava aquelas dos livros de História da Arte, de que tanto gostava.
– É uma deusa! – Balbuciou.
Ramiro aproximou-se de Das Dores e tocou em seu braço. Ela se mexeu. Não se contendo, deslizou as mãos até os seios de sua “deusa”. Diante ao afago mais atrevido, ela despertou assustada. Pensou em gritar, no entanto, Ramiro pôs a mão em sua boca e fê-la desistir da idéia. Ficaram alguns momentos trocando olhares. Diferentemente dos métodos usados por seu pai, Ramiro afagou os cabelos de Das Dores, murmurou palavras melosas, fungou seu pescoço e encheu-a de beijos. A resistência de Das Dores deu lugar a suspiros. Seus corpos entrelaçaram-se e seus ofegos tornaram-se uníssonos. Orgasmos e mais orgasmos, até que adormeceram. Seis horas da manhã, Das Dores despertou Ramiro. No casarão, todos ainda dormiam, exceção de dona Gertrudes, cozinheira, que já fazia zoada com suas panelas.
Noites iguais a essa se repetiram por vários meses, até que o crescimento do ventre e os constantes enjôos de Das Dores levaram dona Capitolina a desconfiar. Chamou Das Dores para uma conversa e foi logo dizendo:
-- Menina, tu não tá prenhe? Tu tá com cara de mulher pejada! Conta logo o que aconteceu!  Quem foi o danado que te embuchou? Tu és uma sem-vergonha! Achas que foi pra isso que eu te trouxe pra Belém? Pra quem abriste as pernas, fala logo!
Entre soluços, Das Dores falou de sua paixão por Ramiro e de seus encontros no quarto do porão. Indignada, dona Capitolina esbravejou:
-- E agora? Tu és uma desavergonhada! Estás pensando em pegar meu filho, né? Vou te mandar fazer um aborto. Vou falar com dona Zefa, ela costuma fazer esse serviço.  E, continuando:
-- Gertrudes! Vai até lá na Igreja e pede pra dona Pia me mandar um pouco de água benta! Vou benzer esta desgraçada!
A idéia de lhe tirarem o filho angustiava Das Dores. O padre Gumercindo, que celebrou várias missas na fazenda Pau-de-Sebo disse, em um de seus sermões, que fazer aborto era pecado, era o mesmo que matar. Das Dores não queria ser cúmplice desse crime. Nessa ocasião, veio-lhe à cabeça, o que sua avó Diquita costumava dizer:
-- Beleza em mulher pobre é o mesmo que desgraça. Te cuida, menina!
Não encontrando outra saída, decidiu fugir. Leonor, empregada de dona Pia, havia-lhe falado de uma tal de Maria Alcova, que costumava contratar serviços de meninas engravidadas e expulsas de suas casas pelos pais.
Desse modo, Das Dores foi parar na Zona do Meretrício, no endereço sugerido por Leonor. A cafetina estava dormindo e Das Dores teve de esperar. Começo de noite, do corredor surge uma mulher de residual beleza: era Maria Alcova. Dirigiu-se a Das Dores e, após algumas explicações, o trato estava feito. Das Dores permaneceria na “pensão” até o parto, assumindo algumas tarefas menores e mais adequadas ao seu estado. A seguir, Maria Alcova lhe disse:
-- Quando te livrares desse bucho, serás uma de nossas garotas e atenderás uma clientela muito especial. Aqui só vêm seringalistas, fazendeiros, doutores, delegados, juízes, oficiais de alta patente, funcionários públicos importantes, enfim, a nata da sociedade local. Ganharás dinheiro e mimos, se, naturalmente, fizeres bem o teu serviço”.
-- Mas este teu nome! Das Dores não é nome de puta que se preze. A partir de hoje, serás Creusa! Gostou?”.
 E, assim, começou a nova vida de Das Dores, quer dizer, de Creusa. Esperando clientes, esperando os mimos de que lhe falou Maria Alcova. Mas essa não era a vida com a qual Creusa havia sonhado. Nas suas fantasias, vinha a imagem de um homem muito especial que a tiraria daquele lugar de perdição, vinha a imagem de uma casinha arrumada e de filhos correndo a sua volta. Chamaria o Dominguinhos, aquele que ela havia parido no quarto da pensão, para morar com ela.
Muitos anos se passaram e Creusa a esperar clientes, a esperar mimos. As fantasias continuaram fantasias; o rosto, mais encarquilhado pela implacabilidade da natureza e pelos anos de “guerra”. As paredes da casa mais rachadas, os caixilhos das portas e janelas mais corroídos pelo tempo, pelos cupins e punilhas. Maria Alcova havia se mudado. Foi viver com um fazendeiro na Ilha do Marajó. Noêmia era a nova proprietária da pensão.
Assim foi, até que, num final de tarde, ao passar em frente à pensão, eu não vi Creusa janelando. Seu olhar perdido, seu rosto pálido não estavam ali. Havia uma moldura sem tela. Em vez da exalação de patchuli, um cheiro acre de plasma.
Uma viatura da Polícia e uma caminhonete do Instituto Médico Legal estacionaram em frente à pensão. Várias pessoas acotovelavam-se para ver o que estava acontecendo. Dois homens carregaram um corpo ensangüentado e o estenderam sobre uma padiola. Três investigadores   estavam levando um indivíduo algemado para a viatura policial. O detido aparentava mais de trinta anos e sua camisa estava com manchas de sangue. Da vitrola, que ficava no canto da sala, vinha voz de Maysa Matarazzo cantando “O meu mundo caiu...”
O corpo de Creusa estava sendo conduzido para a caminhonete do Instituto Médico Legal. Cresceu o número de curiosos. O trânsito congestionado provocou um buzinaço. Num luxuoso automóvel, quase em frente da pensão, um passageiro perguntou ao motorista:
-- Leandro, por que esses carros não andam?
-- Parece que mataram uma mulher, uma puta daquela pensão, doutor Ramiro?
-- E por que mataram uma puta eu vou chegar atrasado na reunião? O que tenho a ver com isso? Aperta na buzina, aperta na buzina...
Alvesfilho
Enviado por Alvesfilho em 14/06/2006
Código do texto: T175157
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Alvesfilho
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