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Amar é tão bom




- Mamãe!, amar é bom? -
Mais uma das perguntas de Luiza. Essa idade onde as crianças começam a perguntar de tudo, nos colocando na parede para que a gente responda objetivamente para não gerar novas perguntas. Os olhos de Luiza expressam um brilho de preocupação, e sei que ela espera de mim a resposta mais convincente. Olhei para o Jorge. Como todos os sábados à tarde, estava sentado de pijamas frente á TV esperando algum jogo de futebol começar. Não precisava ser um jogo especial. Qualquer jogo de futebol servia. Eu amei muito o Jorge.  Foi uma paixão quase imediata. Jovem, bonito, carreira promissora. Cheio de sonhos. Tão educado e gentil que me fazia, por vezes, rir de tanto cuidado que tinha comigo. Na festa de noivado ele havia preparado um poema e o recitou para mim, na frente de todos. Que vergonha eu passei. É. Me senti envergonhada ouvindo as palavras de rimas fracas que ele dizia em tom apaixonado sem um pingo de timidez frente à todos os convidados.  A noite de núpcias não havia sido um sonho, como eu esperava. Ele havia bebido tanto, talvez de alegria, talvez por medo. Não sei. Acabou dormindo sem tirar os sapatos. O primeiro ano de casamento foi muito bom. Viajamos muito, conhecemos lugares paradisíacos e nos amávamos como dois recém-namorados. Até que engravidei e tive alguns problemas. Engordei muito. Me sentia disforme e Jorge já não me procurava como antes. Ele cuidava de mim, como sempre, mas me parecia que fazia mais por obrigação do que por vontade. Na verdade, não sei bem quando começamos a nos distanciar. Falar já não era tão importante e assim fazíamos de conta que, nada havia acontecido de importante para que precisássemos trocar palavras.  Por vezes fui dormir tarde da noite, esperando o Jorge adormecer para não ter de inventar alguma desculpa para não ter relações com ele. Não sei se ele, alguma vez, me traiu. Tem uma secretária muito bonita. É solteira. Sem compromissos. Não sei. Não gosto de pensar nessa possibilidade. Eu nunca o trai. Quer dizer. Sem contar os atores das novelas que de vez em quando levo para cama para sonhar. Nunca olhei para outro homem real. Talvez por respeito ao Jorge. Talvez porque sou mãe. Também não sei dizer. E agora vem a pequena Luiza perguntar se amar é bom. Pego-a no colo – está pesada e crescendo a cada dia -.

- Sim, filhota. Amar é muito bom, porque, mesmo que o tempo passe, a gente não consegue deixar de querer bem, de se preocupar com a outra pessoa, mesmo que às vezes pareça que não, a gente sabe que o amor está lá, para sempre.  Amar é bom demais.

Olho para o Jorge. E ele está olhando para mim. Havia ouvido tudo. É. O tempo passou, mas dentro daqueles olhos eu vejo o mesmo brilho do jovem por quem me apaixonei.

Luiza pula do meu colo, para no meio do caminho entre eu e ele. Olha para nós com o sorriso mais lindo deste mundo, e sai correndo para o quintal.

Sorrio para o Jorge que retribui com alguma lágrima presa aos olhos.
Viro-me para os meus afazeres e Jorge volta a trocar o canal da Tv procurando algum jogo de futebol.
Paula Cury
Enviado por Paula Cury em 17/06/2006
Código do texto: T177022

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Sobre a autora
Paula Cury
São Paulo - São Paulo - Brasil, 47 anos
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Paula Cury