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Fim de Verão

Eu já estava a pelo menos uns dois meses andando sem rumo. Nem sei quantos bairros do Rio de Janeiro eu havia percorrido àquela altura. Dormindo na rua, debaixo de marquises, comendo salgados e refrescos que algumas pessoas me pagavam (eu não queria gastar aquele dinheiro) e com a ligeira sensação de que alguma coisa estava muito errada naquilo tudo.
Essa impressão começou no terceiro dia daquela loucura. Tudo o que eu conseguia lembrar era que eu acordara dois dias atrás, com o sol queimando meu rosto e a areia da praia de Copacabana provocando coceiras por todo o meu corpo. Mais nada! O que eu estava fazendo ali? De onde viera? Qual era o meu nome? Vazio... minha memória estava totalmente em branco. Levantei, e comecei a andar lentamente pelas ruas, sem conseguir formar nenhum raciocínio completo. Dois dias depois eu já começava a pensar melhor. Os questionamentos começavam a surgir. E foi então que, passando pela frente de uma porta espelhada eu me vi pela primeira vez.
Aquilo era impossível! Como eu poderia ser um mendigo, se estava vestido com aquelas roupas? Aquele sapato era muito confortável e parecia caro! Coloquei a mão no bolso. Definitivamente, eu não era um mendigo!
Mas então, como? Como eu perdera a memória? Como aquele dinheiro todo fora parar no bolso da minha calça? Como eu havia dormido na areia da praia, como um vagabundo qualquer? Como, e por quê?
Sentei atônito, num banco de uma praça qualquer. Eu tentava pensar, mas cada vez que eu fazia um pouco mais de esforço nesse sentido minha cabeça começava a doer insuportavelmente. Fiquei olhando o movimento dos automóveis na via. Era meio dia e o calor estava insuportável, o que fazia minha dor de cabeça aumentar ainda mais. Mas então um ônibus parou no ponto à minha frente. Estava pintado de uma cor azul tão refrescante, tão relaxante que minha dor de cabeça passou enquanto eu o observava. Ele começou a se mover e eu resolvi seguí-lo. É claro que ele corria bem mais rápido do que eu, mas acompanhava o seu percurso até perdê-lo de vista (normalmente em uma esquina) e quando chegava até o ponto em que o tinha visto, ficava parado até passar outro ônibus da mesma linha, para eu continuar seguindo.
Demorei um dia inteiro para chegar ao ponto final dele. O momento mais perigoso dessa caminhada foi quando tive passar por dentro de um túnel que não tinha acesso para pedestres, mas eu não podia desistir. Naquele momento, seguir aquele ônibus era a única causa de eu estar vivo. Fiquei sentado perto do ponto final, esperando algum dos ônibus seguir para a garagem. Quando vi que um deles estava saindo, implorei ao motorista que me desse uma carona. Acho que a minha aparência (já estava sem fazer a barba a uns três dias, e sem tomar banho, idem) comoveram o condutor, que me deixou subir com a condição de que eu saltasse um ponto antes de ele chegar. Saltei no ponto combinado e fui seguindo o ônibus a pé.
Chegar na frente daquela garagem de ônibus foi uma das sensações mais maravilhosas que eu me lembrava de ter experimentado nessa vida! O muro estava todo pintado com as cores dos ônibus e eu senti uma paz tão consistente, um alívio tão profundo que meus olhos se encheram de lágrimas. Encostei na marquise de uma casa abandonada que ficava do outro lado da rua e fiquei contemplando aquele muro até cair no sono. Permaneci naquele mesmo lugar por quinze dias.
Durante esse tempo alguns funcionários da garagem já me conheciam. Eu contei que não sabia nada sobre o meu passado e que gostava de ficar ali, olhando para o muro. Um deles caiu na gargalhada quando eu contei como havia ido parar ali, mas logo os outros o repreenderam, dizendo que aquilo não tinha graça nenhuma. Eles estavam morrendo de pena de mim, mas eu não conseguia entender o motivo disso, já que me sentia totalmente feliz, olhando para aquelas cores celestiais. O meu mundo estava completo e quando eu dizia isso para eles, eles pareciam sentir ainda mais pena! Traziam pão e café de manhã e à noite. Na hora do almoço, traziam uma quentinha e um copo de refresco pra mim. Conseguiram até um lugar para eu tomar banho, todos os dias.
Infelizmente, depois dos quinze dias as minhas dores de cabeça voltaram. O verão tinha terminado e os dias estavam úmidos e chuvosos. O azul daquele muro agora me dava uma sensação de afogamento e de perdição. Levantei e fui embora, sem me despedir dos meus amigos(eles com certeza estaria usando camisa azul e seria insuportável chegar perto deles). Pensei em deixar meu nome escrito na parede onde eu estivera hospedado, para eles lembrarem de mim, mas como eu não tinha nome, fiz apenas um buraco e fui embora.
Não demorou muito para que eu encontrasse outro motivo para viver.
Eu estava caminhando a duas horas quando começou um temporal. Corri para baixo de uma árvore para tentar me abrigar. Alguma coisa me fez olhar para cima e eu vi que o galho mais forte apontava para uma rua estreita.
Resolvi seguir nessa direção e lá estava outra árvore, seu galho principal apontando para outra direção. A essa altura eu já estava ensopado, mas nada mais me importava, a não ser seguir os galhos das árvores. Eles pareciam tão seguros e fortes em suas resoluções que me transmitiam uma confiança irresistível! Fui seguindo alegremente, dançando debaixo dos pingos que caíam sobre mim. Depois de três dias chegei ao Horto. Eu estava em êxtase! Todas aquelas árvores firmes e seguras me mostrando o caminho! Eu queria estar no meio delas, cercado por toda aquela sabedoria e estabilidade que me encantavam!
Entrei na mata e fiquei andando em círculos por quarto dias. As árvores me aconselhavam! Cada uma era especialista em uma área e por isso me encaminhavam de umas para as outras, para que meu tratamento fosse completo. Eu comi algumas frutas e insetos e bebi água da chuva. Até que fui encaminhado para a mais sábia das árvores. Todos os seus galhos apontavam para a mesma direção: o leste. Senti que havia alcançando o auge de todos os meus anseios e necessidades. Me aproximei o máximo que pude do tronco e finquei meus pés na lama, como se fossem raízes.
A comunhão com essa árvore majestosa durou apenas uma noite. As primeiras horas do dia seguinte foram chuvosas e o vento acabou derrubando o galho mais alto e mais forte da Grande Árvore e por pouco não me acertou!
Senti que meu mundo vinha abaixo, junto com aquele galho. O barulho da queda despertou alguma coisa dentro de mim. Um sentimento de tristeza e de solidão que vem me acompanhando até hoje. Pela primeira vez eu senti que faltava alguma coisa. Alguma coisa que não estava naquela floresta, nem nos desenhos dos ônibus e nem em nada do que eu tinha visto durante aquela minha jornada. Alguma coisa que era o real motivo da minha existência, e que eu tinha desesperadamente que encontrar.
Pela primeira vez tive consciência de que eu estava sujo - e aquilo me incomodou. Havia uma cachoeira no meio da mata. Tomei um banho, lavei minhas roupas. O dinheiro ainda estava lá, embrulhadinho num saco plástico. Olhar para ele me dava um mau pressentimento. Parecia que ele despertava a memória emocional do estado em que eu me encontrava quando o adquiri. Tive vontade de jogá-lo no riacho que corria até sumir de vista. Tive vontade de rasgá-lo e, não sei porquê, tive vontade de xingá-lo. Mas algum instinto desconhecido me fez guardá-lo.
O sol do inverno estava fraco. Eu fiquei algumas horas nu, esperando que minha roupa secasse. Pendurei-as em um galho de árvore e também tive vontade de abandoná-las. Por alguns momentos cheguei mesmo a odiar aqueles pedaços de roupa bem cortada, que pareciam uma cela móvel. Naqueles momentos em que fiquei nu, no meio da floresta, experimentei uma sensação de liberdade tão sublime, que não pude deixar de sentir um certo pânico ao pensar em me vestir outra vez. Meu corpo parecia reconhecer nessa sensação de nudez um prazer impagável. Mas o vento frio de inverno me fez querer voltar a "prisão" outra vez. E de repente me vi pensando em como a vida era esquisita: nos impelia a todo momento de abrir mão do prazer e da liberdade em troca de um conforto e de uma segurança discutíveis. Eu, na verdade, não me lembrava de nenhuma outra situação que me fizesse sentir assim, mas de alguma forma eu sabia que já havia passado por muitas.
A roupa secou, eu me vesti, e dentro daquela armadura, senti que estava preparado para voltar ao mundo. Na verdade, percebi que estava realmente ansioso por isso.
Saí correndo da floresta e continuei correndo pelas ruas até perder o fôlego. Eu tinha pressa de encontrar! Aquela agonia dolorida no meu peito, me lembrando a cada segundo que eu estava vivendo à toa, aquela sensação de afogamento, de vazio, de solidão... aquilo era urgente!
Mas onde? O quê?
Os dias seguintes foram de uma tristeza sombria e de um desespero inacabável. Havia uma interrogação, um absurdo, um revolta em tudo o que e eu tentava fazer. Por quê? Pra quê? Eram as perguntas que não queriam calar. "Pra quê estou andando assim? Pra quê estou respirando? Por quê? Deve existir algum motivo." Mas quando eu procurava uma distração, uma resposta, um alívio só encontrava a certeza interna de que não era nada daquilo o que eu queria.
As árvores agora pareciam debochar das minhas dúvidas, das minhas necessidades, da minha dor. Elas não podiam me compreender. Eram auto-suficientes, com suas raízes profundas, seus galhos altos, sua força e estabilidade. Não sentiam fome, frio, e não sentiam o vazio que estava me devorando por dentro.
Foi quando percebi que não poderia mais viver assim. A liberdade havia acabado. A alegria que eu sentia em encontrar prazer nas coisas simples havia sumido. Estava faltando alguma coisa! Resolvi voltar ao lugar onde tudo aquilo havia começado: a praia. Se ela não me desse a solução, as profundezas do mar poderiam ao menos calar a minha dor, para sempre.
Eu agora tinha pressa em chegar. O caminho parecia muito mais longo do que da primeira vez que o percorri. Demoraram alguns dias para que eu encontrasse a praia novamente.
Estava noite. O brilho pálido da lua parecia intensificar o frio que cortava os meus ossos, a minha carne, o meu coração. Sentei na areia e me entreguei aos pensamentos, como um mártir que se entrega a dolorosos sacrifícios, sabendo que essa é a última saída, a única solução.
Algumas coisas foram ficando claras: eu já conhecia anteriormente o que estava procurando. Eu só precisava lembrar... eu também sabia, de alguma forma, que lembrar do meu passado não seria agradável, muitas coisas ruins haviam acontecido (sensação de afogamento, abandono, prisão). Se eu escolhesse esquecer tudo pra sempre poderia tentar me acostumar àquela agonia (que certamente não acabaria) e continuar a viver livre e despreocupado (talvez voltar para a floresta).
Considerei por um tempo essa opção. Se lembrar de tudo parecia tão insuportável, talvez fosse mesmo melhor continuar esquecendo, continuar esquecido. Peguei o embrulho de dinheiro e observei. A mesma sensação de pânico, de estar encurralado, de estar preso a um ciclo infinito. Medo. Confusão. Dor. Era melhor não lembrar!
Guardei o dinheiro novamente. Deitei na areia e fiquei olhando para o céu. Estrelado, iluminado, infinito. Quis sentir novamente aquela liberdade. Quis sair seguindo todas as estrelas do céu, mas não podia. A agonia não deixava. Era grande demais! Eu não poderia viver dessa forma.
Levantei e comecei a caminhar pela areia. Eu tinha que lembrar! De qualquer jeito! Custasse o que custasse!
Andei por alguns metros e então, de repente, senti meu coração disparar! Estava ali, na minha frente, e no momento que encontrei tive a certeza de que era exatamente o que eu vinha procurando todo esse tempo. A única coisa que me faltava - e me bastava - para ser feliz.
Ela estava parada. Nos seus olhos uma expressão de quem parecia não acreditar. Nos aproximamos mais. Ela estava chorando e, para grande surpresa minha, percebi que eu estava chorando também.
FIM
Heidi Costa
Enviado por Heidi Costa em 21/06/2006
Código do texto: T179722
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Sobre a autora
Heidi Costa
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 33 anos
9 textos (178 leituras)
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Heidi Costa