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Lá do sertão

O único filho de cinco anos adoeceu às 5 horas da tarde de sábado. Morava em uma cidade no interior do Ceará. Era época de cheia do rio, estava muito frio, por isto resolveu tratá-lo em casa, acreditava que poderia fazer baixar a febre. Vendo porém que o filho não melhorava durante toda a noite de sábado, chorava e crescia sua preocupação que foi percebida pelo menino que lhe dizia como para consolá-la "Não chore não maiinha, que eu já estou melhor!" Mas a criança continuava mal na manhã seguinte quando ela e o marido a levaram ao hospital mais ou menos a 4 km de distância. O pequeno foi hospitalizado e ninguém lhe dava notícias. Em um momento, o marido, já nervoso com a falta de informações sobre a criança, agarrou um médico pelo colarinho encostando-o à parede e lhe disse: "Quero notícias sobre o meu filho e quero agora!" Vieram outros médicos tentando acalmá-lo e então um lhe chamou ao canto e perguntou: "Qual o seu tipo de sangue?" O pai respondeu e o médico retrucou: "Este não serve! E o da sua mulher?" O homem respondeu e o médico indagou: "Mas como ela está? Tem algum problema? Toma alguma medicação?" Não doutor, ela está apenas menstruada. "Ah então ela não poderá doar sangue nem tomar calmante!" E foi-se embora. A mãe, já atormentada, implorou  à amiga, uma enfermeira do hospital: "Por favor, por tudo que é mais sagrado, como está meu filho?". A enfermeira, com lágrimas nos olhos, disse: "Estão chamando vocês dois no segundo andar. Por favor, vão para lá “. Enquanto a mãe se encaminhava para o elevador, a enfermeira chamou baixinho o pai e lhe disse: ”Seu filho não é mais vivo”.A mãe ouviu as palavras terríveis e voltou gritando: “O que você disse?" A enfermeira tentou reparar, mas não adiantava mais. A verdade estava dita. A mãe se dirigiu ao marido: “O que vai ser de nós?”.
Sem dinheiro para contratar um carro para retirar o corpo do hospital, lembrou-se do primo que morava na cidade. Chegando lá, quase arrebentaram o portão de tanto chamar. O primo fora dormir tarde porque levara uns amigos para tocar num baile até de madrugada. Quando conseguiram acordá-lo contaram-lhe seu drama e pediram que ele ajudasse, com seu carro, a retirar o corpo do hospital. "Tudo bem - disse o primo - mas só tem um problema: meu carro não tem gás e hoje é domingo, não vende em lugar nenhum. Está tudo fechado”.A mãe foi bater de porta em porta pedindo o combustível. Encontrou uma senhora, contou-lhe o ocorrido e viu a boa mulher retirar o botijão que estava ligado ao fogão e lhe entregou dizendo: "Tome, você não me deve nada, pode levar!". Semanas após o enterro, a mãe continuava em estado de choque, não comia, não dormia e os médicos resolveram dar-lhe calmantes e anticoncepcionais. As drogas estavam fazendo com que ficasse viciada e totalmente fora de controle. Havia noites em que era encontrada inconsciente junto à cova onde o filho fora enterrado. Familiares então, aconselharam ao marido que se mudasse para um lugar distante, onde as lembranças seriam amenizadas. Ele lembrou-se de um parente que morava em uma cidade do litoral do Rio de Janeiro. Através de contatos, arranjou um emprego e levou a mulher. Chegando lá, a mulher, tendo uma assistência médica através do emprego do marido, começou a se tratar com uma psicóloga. A doutora suspendeu todos os medicamentos e a mãe novamente engravidou. Trabalhava como doméstica e no terceiro mês de gravidez tomou um tombo no serviço. Não deu importância ao fato. Havia dias em que estava trabalhando e derepente parava tudo. Sua mente divagava. Foi numa destas vezes em que, usando a enceradeira, deixou que ela trabalhasse sozinha e ficou olhando o vazio. A patroa, percebendo que o barulho do aparelho estava diferente, veio ver o que estava acontecendo. Foi quando viu faísca pelo fiação. Desligou imediatamente e abraçando a empregada, pediu que ela se sentasse e esta irrompeu em lágrimas. No dia seguinte chegou ao serviço sentindo fortes dores na barriga. A dona de casa pediu que não fosse trabalhar e procurasse um médico. Quando foi ao hospital, não deixou que o médico lhe examinasse porque o abdome estava muito inchado e dolorido. O médico então pediu que ela fosse até o centro da cidade, distante 42 km de onde estavam, para fazer uma ultra-sonografia. Lá, o ultrasonografista com o resultado em mãos, perguntou-lhe se havia algum parente com ela ou algum modo de se comunicar com o marido. Ela disse que não e perguntou-lhe o que estava acontecendo, porquê precisava de alguém acompanhando-a. Ele disse que ela deveria fazer uma curetagem porque sofrera um aborto e o feto estava morto há três dias. Lembrou-se que tivera sangramentos, mas como sua gravidez anterior também fora assim, não se importou. Voltou para o hospital. O seu médico não estava, tinha ido para o consultório particular no centro da cidade, próximo de onde ela viera. Perguntaram-lhe há quanto tempo tinha se alimentado e quando ela respondeu que apenas tinha tomado café com leite e um pãozinho pela manhã, disseram que ela deveria esperar até as 5 da tarde sem comer nada. Voltou para casa e esperou o marido. Quando ele chegou, encontrou a esposa com o rosto totalmente inchado, foram novamente ao hospital. Disseram ao marido que a mulher estava totalmente podre por dentro e o feto em decomposição estava infeccionando seu corpo. Ela só acordou quando estava novamente em casa depois da curetagem. Passaram-se dois anos e como ela não conseguia mais engravidar, fez tratamentos para fertilidade. Engravidou. Nesta terceira gravidez, tomou mais cuidados e apesar da gravidez de risco, conseguiu ter uma menina. Mas, oito meses depois, estava grávida novamente e com sete meses de gravidez voltou ao Ceará numa viagem de três dias. Passando mal, chegou lá e foi direto para o hospital. Tiveram que fazer uma cesariana de emergência e nasceram dois gêmeos, ainda com vida. Os dois foram para o balão de oxigênio. Enquanto estava no hospital, uma enfermeira veio lhe contar sobre um rapaz que sofreu um acidente. Sua moto havia se chocado com um cavalo. “Ele foi colocado 'morto' no carro", disse-lhe a profissional. Perguntando para aquela mulher como era o homem acidentado, a mãe, ao ouvir a descrição, imediatamente soube que se tratava de seu marido. Queria vê-lo imediatamente. Vieram os parentes e disseram que ele não poderia ser visto ainda, mas estava vivo. Ela não acreditava, pois a enfermeira disse que pegaram-no sem vida no local do acidente. "E já que não me deixaram vê-lo deve ser porque ele está morto!", dizia a mãe. Os médicos chamaram os parentes e relataram que precisavam escolher qual dos três deveria morrer porque só havia oxigênio e Unidade de Tratamento Intensivo para dois. Decidiram que seria melhor deixar o pai e um dos filhos sobreviver. E assim termina esta história que veio lá do sertão e tão real neste Brasil de misérias.
Sam
Enviado por Sam em 19/05/2005
Reeditado em 20/05/2005
Código do texto: T18102
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Sam
Angra dos Reis - Rio de Janeiro - Brasil
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