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TICO, QUASE PELÉ

     Tico era um menino esperto. Morava perto da minha casa quando criança em uma vila de casas juntinhas e iguais. Antigamente se destinavam a empregados de uma fábrica de macarrão. Menino bom de bola, esperto e sempre sorridente passava seus dias entre a escola pública pela manhã e as peladas durante as tardes. Também ajudava sua mãe fazendo alguma coisa dos trabalhos domésticos. Mas a maior parte do tempo passava no campinho no qual se reunia a criançada da rua para memoráveis peladas diárias. Tico se sobressaía entre os guris pois possuía um refinado tratamento com a bola de futebol. Tratava-a com carinho e delicadeza, mesmo porque a bola de couro, um tanto surrada de tantos embates,era sua. De tal maneira que as pelejas só começavam quando ele chegava. Vinha só com a bola nos dias de treinos e com um saco de farinha cheio de camisas e meias do time que Dona  Maria, sua mãe, tratava de lavar e passar depois de todas as partidas que Real Futebol Clube se apresentava nos desafios dos times das ruas vizinhas ou mesmo de algum outro bairro.Até do centro da cidade já haviam recebido convites para torneios de fim de semana . Muitos valiam até taças aos vencedores. Tico tinha uma verdadeira paixão por futebol. Mais do que ele apenas seu Chico seu pai adorava tanto o modo de jogar de seu filho que o tratava como um verdadeiro herói. Sim, Tico era o herói de  seu Chico embora este tivesse mais nove filhos sendo destes seis mulheres. Tico adorava seu pai e ouvia encantado as estórias das partidas que este havia disputado como soldado do exército no tempo do “tiro de guerra”. Até convite para treinar no Primavera, clube da primeira divisão, havia recebido. Infelizmente,a necessidade de sustentar sua mãe viúva e muitos irmãos menores não lhe permitiram seguir carreira. Acabou se tornando motorista de caminhão e viajava pelo país entregando mercadorias  e contando aos outros colegas o quanto era bom de bola seu querido Tico. Terminado o treino Tico colocava sua bola embaixo do braço e antes de ir para casa passava no açougue da esquina para pegar um pedaço de pelanca de carne com bastante gordura , ficava sentado no degrau da porta da cozinha em casa esfregando sebo na bola .Dizia que era para não ressecar o couro.Feito isto tomava seu banho jantava aquela gostosa sopa de feijão com ovo inteiro e couve mais um pãozinho que sua mãe preparava e ia deitar, sem antes fazer os deveres da escola. Sonhava. Tico sonhava com as oportunidades perdidas na última partida.”– Eu devia ter entrado mais, a bola era para bater de esquerda, meu pai sempre me diz para travar de direita e bater de esquerda. Foi pra isso que ele me treinou desde pequeno para chutar com os dois pés. E naquela hora eu tinha que penetrar mais na área, tinha espaço, meu pai não gostou, espaço é para ser ocupado e explorado. É que nem posseiro, se tiver desocupado ocupe e tire proveito, dizia. Se clarear chute. Felizmente consegui aquele drible, bati de bico mesmo, mas valeu. Ganhamos. Preciso me ligar, um chapéu no zagueiro ia ser bonito. Ainda vou tentar.”
     Finalmente chegaram as férias escolares. Toda a garotada em alvoroço.O campeonato organizado pelo seu Chico com o patrocínio do Dono da Transportadora em que trabalhava estava preste a começar. Já tinha tabela organizada e doze times iam participar. Viria time até do outro lado da cidade, gente rica, filhinhos de papai. Valia faixa, medalha para o artilheiro, melhor goleiro e até uma taça enorme que seria disputada todos os anos.Assim como é na copa do mundo.
     O Real Futebol Clube ia muito bem no campeonato. Tico já era considerado o melhor do campeonato. Seu Chico orgulhoso não cansava de pagar cervejas para os amigos a cada partida, exaltando sempre as qualidades do filho. Todos concordavam, Tico teria de treinar em algum clube grande,  realmente seu talento era um dom.’ Eu que preparei o moleque desde pequeno. Ensinei a chutar com os dois pés, a cabecear , a se colocar na área e tudo o mais. Esse moleque é demais se vangloriava o orgulhoso pai.’
     O domingo chegou e com ele a partida final: Real contra o Social Clube. Era um time da zona mais rica da cidade. Clube de pessoas de dinheiro.. Seu Chico andava preocupado com a  arbitragem e exigiu que se convocasse um árbitro lá de Rio Negro, uma cidade próxima, pois tinha fama de honesto nos jogos que apitava. Não cobrou nada veio só pela cerveja e a linguiçada no fim do jogo.
     Infelizmente Seu Chico a pedido de seu patrão precisou fazer uma viajem inesperada, para uma entrega urgente. Ao chegar em casa chamou Tico e explicou que não se preocupasse pois iria  viajar mas retornaria a tempo de assistir a partida, nem que para isto viajasse a noite toda. Olha meu filho trouxe um presente para você. Tico quase não acreditou ao ver uma chuteira novinha reluzente, de marca, como nunca tinha visto na vida.
Pelo que você fez até agora no campeonato está a merecer . Esta chuteira vai fazer muitos gols . Tico quase desmaiou de felicidade, chorou muito e soluçando abraçou fortemente seu pai. Afinal ele sempre dividia um par de chuteiras com seu irmão mais velho. E quando jogavam juntos  usava um pé e Zezinho o outro. No outro pé ele colocava o tênis da escola..Agora ele tinha um par só para ele.e novinha. Se o Zé precisa-se ele emprestaria de vez em quando, coitado.
     Seu Chico nunca faltou a nenhum jogo do qual Tico participasse. Para o menino os gritos de seu pai e a certeza de que tinha sempre o incentivo dele a beira do campo o fortalecia e enchia de confiança. Tomara que ele chegue a tempo desta vez. Quando ele fazia uma boa jogada procurava na platéia o boné azul e branco que seu Chico não tirava da cabeça e via o sorriso aberto e as mãos enormes aplaudindo. Também apoiava quando ele errava um passe ou chutava para fora. Boa Tico, na próxima nós acertamos, dizia. Ele
jogava junto.
     Tico estava ansioso, o jogo final já estava por começar e nada de Boné do seu Chico aparecer. Acho que ele quer fazer surpresa, pensou.
   O jogo corria nervoso. Segundo tempo empate em um a um. Tico havia dado o passe para o gol do Real . O juiz prejudicava abertamente os meninos do Real. Parece que se interessou mais com o vinho  e um churrasco no clube social. Tico corria .driblava, centrava e nada de gol.. Segundo tempo e Seu Chico não aparecia. Tico volta e meia o procurava na assistência. Nem precisava pois seus gritos ele os ouviria com certeza se lá ele estivesse.
Em vez disso viu suas seis irmãs a beira do campo acenando desesperadamente. Na primeira oportunidade que o jogo lhe permitiu se achegou a elas. Percebeu que choravam -Tico o caminhão tombou, papai morreu “”.
 O goleiro gritou; Tico é tua ta sozinho. Tico matou a bola no peito, viu espaço para correr e explorar, entrou na área o zagueiro grandão vinha sobre ele, conseguiu aplicar um chapéu, pegou do outro lado, e de esquerda emendou um chute que estufou a rede . O gol do seu Chico.
Todos comemoravam. Tico saiu de campo tirou as chuteiras colocou o seu velho e surrados chinelos de dedo , entregou  chuteira novinha para  o Zé e saiu pela avenida cheia de carros e  indiferença. Mergulhou no cotidiano da cidade e por alguns anos ninguém soube dele.
     Certo dia na fila de entrada para um espetáculo de teatro escutei uma voz conhecida. – ‘Baleiro, Balas’. Reconheci aquele rapaz esguio com um tabuleiro pendurado ao pescoço. ---Bala doutor, amendoim?  Puxei imediatamente do bolso do meu sobretudo o boné azul e branco que prometi a sua mãe entregar a ele se um dia o encontrasse.Coloquei-o na cabeça e quando de mim ele se aproximou eu disse apenas: amendoim, do salgado. Ele me olhou fixamente por alguns segundos entre surpreso e emocionado.Eu lhe passei o boné e balbuciei – Espaço vazio é para se avançar e ocupar, Tico.
Ele tirou o tabuleiro do pescoço  colocou-o sobre o colo de um mendigo sentado no meio-fio e partiu. Sumiu na escuridão.
   Estou contando esta estória porque ontem depois de alguns anos participei de uma festa de formatura de Medicina e durante a solenidade muito me chamou atenção a figura imponente do reitor da universidade. Depois de todos os discursos e entrega de diplomas, por ocasião dos festejos finais, comuns em todas as formaturas, quando todos os formandos se confraternizam, percebi o Magnífico Reitor despojar-se da indumentária formal e emocionado colocar na cabeça um boné azul e branco. Para mim o parágrafo final desta narrativa. Tico realmente era um goleador.

Humberto Bley Menezes
Enviado por Humberto Bley Menezes em 27/06/2006
Reeditado em 29/06/2006
Código do texto: T183248
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Humberto Bley Menezes
Curitiba - Paraná - Brasil
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