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A PROPÓSITO DE QUARTOS ESFUMAÇADOS

Não: não morreremos disto.

Tira de mim este olho que reprova, tem pena, tem superioridade.

Morreremos de ódio. De desgosto, de falta. Morreremos de doenças modernas ou antigas, cardiovasculares ou infecciosas. Morreremos de violência ou acidentes trágicos. Mas não disto. Preciso lembrar, porque me existe algo de culpa face aos meus moralismos mais antigos. Não é uma incoerência esse novo estado das coisas, mas uma coerência em outros moldes: esta é a vida, que fazemos então?

Não, não adoeceremos disto. Já estamos doentes, vês? Já estamos mortos.

Meu bem, não. Quer saber? Meu olho é que te dilacera com pena e compreensão, como se você fosse uma criança tola que ainda não descobriu o mundo sujo. Sei mais que você: não adoecerei disto, já viemos adoecidos a um mundo doente: entende é mais além.
Amor, algo de mim que é força só atua: viver, agora, amar, gostar, ser mais qualquer coisa de total, feliz. Tem mais fundo nesta aproximação com si, com os outros, abraçando árvores no caminho e profetizando praias e cachoeiras e coisas atreladas ao mais terra.

Quê isso? Que é isso que determina esta categoria: tranqüilidade. Você não tem.
Talvez morreremos nisto, admito. Na busca de desconfigurar o velho e sempre novo tédio implicado à sociedade burguesa: é dívida com o mundo? É não mudá-lo? É não curá-lo como quem busca compensar a si? Não morreremos da busca, entretanto. Morremos antes, já mais jovens, quando nos voltamos a este movimento que é estar parado a contemplar.

É preciso escrever canções para celebrar a destruição: essa de nós. Eu tenho mais de mim que você tem de você.  A destruição de nós é nos boicotes, na sacanagem, vem da gente, não do mundo. Quero cantar pra mim que não valho nada e não sou ninguém e sei disso.  Ao menos o consolo: o alívio que encontraremos nisso.

Longe do mais isso sobre o qual não queremos falar.

Vamos celebrar, então, a loucura: somos radicais, liberais, comunistas, doidos, sonhadores, insanos, utópicos, hippies, contra o sistema, paranóicos, radicais, violentos.  Tudo um: não nos renderemos ao não lutar. Lutamos a luta mais dentro: não sucedemos em adaptá-la. Não encontramos tanta sorte em apaziguar feridas: somos sensíveis, embora vocês não percebam. Existe razão aqui, existe verdade neste exercício a que nomeiam trágico, criminoso, imaturo, errado. Mas tão belo, é quase romântico. Somos loucos e doentes: ao menos em comum termos renunciado à sabedoria ao simplesmente saber não existir.
Anna P
Enviado por Anna P em 28/06/2006
Código do texto: T183543
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Sobre a autora
Anna P
Curitiba - Paraná - Brasil
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