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Agonia

Levantou-se da cama em plena madrugada. Não conseguia dormir. O barulho das sirenes, dos carros e das pessoas na rua o incomodavam e não deixavam-no ter o sono dos justos. Por mais que quisesse dormir. Por mais que seu corpo fraquejasse pela exaustão, sua mente não o deixava fechar os olhos e dormir. Por horas tentou. Horas e horas. Mas não conseguia. Pensamentos e memórias bombardeavam-lhe a mente segundo após segundo. Tinha que se livrar daquilo de alguma forma. Então, seguiu para a sua mesa num canto de seu quarto. A luz dos letreiros das boates e bares ao redor de seu apartamento adentravam pela janela fazendo com que o homem ali ficasse na mais perfeita penumbra. Seu cabelo desarrumado e sua respiração trêmula davam-lhe um aspecto mais sombrio. Quem o visse naquele estado poderia imaginar que ele enlouquecera de vez. Puxou uma caneta de seu estojo e uma folha de sulfite de sua pasta. Fixou os olhos na folha a sua frente como um predador prestes a atacar sua presa. Pensava, pensava e pensava. Mas nada conseguia escrever. Nenhum barulho de sirene, carro ou pessoa existia mais para ele. Apenas a voz de sua própria mente. Respirou fundo, enchendo os pulmões de ar e logo em seguida soltou o ar devagar. Tinha que estar calmo para escrever. Tinha que estar calmo para botar seus pensamentos em ordem para que depois transforma-los em palavras, em escrita. Mesmo que ninguém fosse ler aquilo, escreveria. Levou a caneta ao papel e arriscou algumas poucas palavras, mas sem sucesso, logo sentia algo apertar o seu coração. Não, não era aquilo que ele queria. Sentia uma profunda agonia apertar-lhe o peito sem piedade alguma. E num momento de frustração amassou a folha e a jogou em um canto do quarto. E a dor em seu peito não ia embora. Sentia aquilo consumir cada célula sua. Aquela agonia... não conseguia fazer nada, absolutamente nada. Com as mãos trêmulas puxou mais uma folha e novamente voltou a fixar o olhar nela.Não conseguia pensar em nada, absolutamente nada para escrever. Nenhuma palavra sequer conseguia sair de sua mente. Não havia nada para se escrito. Mas ele queria escrever. Queria aquietar a sua mente. Queria fazê-la calar. Mas não conseguia.

Sua agônia foi crescendo e crescendo em seu peito até que num momento de raiva, jogou a caneta contra a parede a sua frente e gritou de raiva. Sua cabeça agora estava apoiada por suas mãos que, por sua vez, agarravam-lhe o cabelo com tamanha raiva que parecia que queria arrancá-los de seu coro cabeludo. Sentia aquela dor, mesmo que pouca. Queria que aquela agonia desaparecesse de seu peito. Aquela vontade de se livrar daqueles pensamentos. Por que? Por que não conseguia ser normal?! Por que tinha que estar preso ali, para sempre, junto à suas memórias e a punições que lhe deram desde que nascera. Queria ser alguém. Queria mostrar ao mundo quem ele era. Mas seu brilho sempre fora ofuscado por outras pessoas. Nunca teria nada em sua vida. Nunca...

Chorando, voltou-se para trás. Via deitada em sua cama uma bela mulher. Estava totalmente nua, com os seios expostos e a cintura coberta por um fino lençol. Era uma prostituta qualquer, porém, a única que quisera ficar ao seu lado. Uma troca justa. Não sabia se ela estava ali por pena ou porque realmente gostava de estar com ele. Ela, ali deitada, obervava-o chorar, frustrado por não conseguir livrar-se de seus pensamentos. Por não conseguir fazer algo. Num gemido ela o chamou de volta para a cama. Ele hesitou. As lagrimas escorriam por seu rosto e o seu olhar - já opaco - parecia dizer desesperadamente: "Me ajude... me ajude!". A bela mulher, de cabelos negros e cacheados, de pele morena, lábios carnudos e olhos de mel parecia entender perfeitamente o que ele sentia. Levantou-se da cama, fazendo com que o lençol que a cubria caísse no chão deixando a mostra suas belas curvas. Seguiu até ele com passos leves e calmos, abraçando-o e puxando-o consigo para a cama. O homem não ofereceu resistência. Deixou-se levar pela mulher que o deitou na cama, abraçou-o e, deitando a cabeça sobre seu tórax repetia várias e várias vezes, bem baixo: "Ja passou". Aos poucos... toda a frustração, toda a raiva que sentia por não conseguir fazer algo se esvaia em sono. Aos poucos ia dormindo, aos poucos ia se entregando à vontade daquela mulher que lhe agradava tanto. Talvez toda aquela agonia, todos aqueles pensamentos não passassem de uma simples conseqüência de um grande mal chamado Solidão.

Todas suas lagrimas. Todas suas palavras. Todo o seu desespero iam embora. Buscou a sua fuga, buscou o seu refúgio: os sonhos. E por ali permaneceria até que o sol raísse e o seu despertador tocasse.
Razgriz
Enviado por Razgriz em 28/06/2006
Código do texto: T184025
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Sobre o autor
Razgriz
Sumaré - São Paulo - Brasil, 30 anos
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