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Ano Novo

Ligou o som, deixando num volume baixo. A música a relaxava, deixava-a em transe. Deixava que a música a levasse para outros lugares longe de sua mente, que esvaziasse todo o mal que habitava sua mente e sua alma. Deixava com que aquele ritmo adentrasse seu corpo e o guiasse para uma paz. Pegou uma garrafa de vinho, já aberto, que dispunha em cima de sua mesa e então passou a caminhar pela sala de seu apartamento. Seus pés descalços entravam em contato com o tapete felpudo e logo em seguida com o piso gelado de sua sala. Gostava de sentir aquilo. Gostava de caminhar descalça, pois só assim saberia o que é real... somente assim poderia sentir que estava viva. Sentia-se livre daquela forma. Seu corpo era coberto apenas por uma camisola de seda branca que, um pouco transparente, podia-se ver seu corpo quase que nu por baixo daquele fino pano. Deslizou a mão pela fechadura da porta que ligava a sala à varanda e destrancou-a. Com um só puxão fez a porta abrir e uma rajada forte de vento adentrar com tudo o seu apartamento. Seus cabelos, negros e levemente ondulados, que antes descansavam ordenados em cima de seus ombros, esvoaçaram de modo a cair, pouco tempo depois, desordenadamente sobre sua face e seus ombros. Permaneceu parada por leves segundos, sentindo uma fria brisa tocar-lhe os lábios tão delicadamente quanto ninguém jamais o fizera. Sorriu e voltou a andar.

Agora conseguia ouvir o barulho da civilização a qual pertencia. Carros, pessoas, cachorros latindo. Todo aquele caos da cidade grande. Levantou seu olhar aos céus onde passou a observar todas as estrelas. Achava um verdadeiro espetáculo aquele grande manto negro que se desenrolava pelo infinito do horizonte. Gostava de pensar que cada estrela do Céu pertencia a uma pessoa da Terra. Quando pequena, num momento de solidão, procurou no céu por sua estrela e após tanto procurar avistou uma afastada das demais, no entanto, a mais brilhante daquela noite e a essa estrela passou a confidenciar todos os seus desejos e sentimentos. E agora, ela fazia o mesmo: procurava por sua estrela. Caminhou até o parapeito da varanda sem tirar seus lindos olhos cor-de-mel do negro céu. Reencostou-se no parapeito para descansar o corpo e ao seu lado colocou a garrafa de vinho. Procurou, procurou sua estrela até achá-la. Estava no mesmo lugar, afastada das demais, mas ainda brilhante, forte e viva. E aquela estrela seria sua única companheira durante toda a noite. Daquele momento em diante, esquecera do mundo a sua volta e concentrou-se apenas na estrela, lá no alto.

Pensava se toda sua vida poderia ser diferente. Como tudo seria se estivesse morando com os seus pais. Se estivesse casada com algum antigo namorado seu. Naquele momento sua mente se dividia em três: passado, presente e futuro.

Lembrava de quando era pequena, na casa de seus pais. Corria toda serelepe pelos cantos da casa. Gritando, cantando, brincando. Mas sempre feliz. Com um sorriso sempre estampado no rosto. Seus pais sempre tentando livrá-la de suas artimanhas. Lembrava tambpem das histórias que a sua avó costumava contar e das coisas que aprendia com ela. Cada história era algo que aprendia. Recordava-se de quando saia para brincar com os seus primos no quintal de sua casa. Como arrumavam confusões na escola e na rua. Das brincadeiras que ela fazia, dos garotos que ela se apaixonou durante sua adolescencia. Ahhhhh... como sentia saudades de sua familia. Sentia um vazio desde que se mudara para a cidade grande. Como se um pedaço de sua alma estivesse sido arrancada de forma bruta.

Então veio ao presente. Via a si mesmo sozinha. Com seus familiares longes, alguns mortos até. Sentimentos que a remoiam por dentro e ela mal sabia de onde surgiram. Sentimentos que ela nunca imaginou sentir. Havia épocas em que sentava em sua cama e chorava. Não havia ninguém ali para consola-la. Somente ela. Sempre deu a volta por cima e retornava gloriosa. Mas ainda estava ali, longe de todos. No presente tentava encontrar apenas em que época sua vida havia tido essa reviravolta. O porquê de tudo aquilo ter acontecido. Daqueles sentimentos terem crescido dentro dela. Mas não encontrava. Não encontrava resposta alguma. Apenas o vazio.

Para o seu futuro pensamento algum veio a sua mente. Não queria saber de seu futuro. Deixava isso nas mãos do presente. Ergueria a cabeça e tentaria mudar toda a situação. Faria como a sua estrela no alto do Céu. Mesmo sozinha, continuaria brilhando. Queimaria seus desejos e sentimentos até que tudo se extinguisse. Até que se tornasse una com o mundo e a perfeição. Não seria como as demais estrelas: continuaria brilhando.

O fogo se acendeu no céu, chamando a atenção dela. Seu rosto, já molhado pelas lágrimas que escorreram sem que ela percebesse, se iluminou todo. O estouro a tirou do transe em que sua mente impunha. A garrafa caira ao seu lado sem ao menos que ela percebesse. Ja era meia noite. Mais um ano se iniciara.

Com um sorriso nos lábios, apoiou os cotovelos no parapeito, sua cabeça nas mãos e, sussurrando para si mesma disse, com uma voz doce: "Feliz ano novo..."

Razgriz
Enviado por Razgriz em 28/06/2006
Código do texto: T184027
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Sobre o autor
Razgriz
Sumaré - São Paulo - Brasil, 30 anos
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