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Camila

Estava lá em frente àquele enorme portão recostado indicando que aquele lugar não recebia muitas visitas...
E não conseguia acreditar no que aquela senhora havia lhe dito. Lembrou-se das últimas palavras dela:
_Já que acreditas tanto no que diz vá até lá e veja novamente você mesmo o túmulo dela no cemitério da cidade...
Como assim novamente?
Aquela senhora parecia estar me tratando com tanta intimidade?!? Parecia já me conhecer, ou...  Não estar falando comigo... Parecia dirigir-se a alguém dentro da casa, o senhor que abriu a porta pela primeira vez, talvez...
Isso tudo estava muito estranho...

Na noite anterior Sergio homem farrista que adorava ir ao seu baile como de costume fazer todos os sábados à noite e estava disposto a mais uma tentativa em conquistar alguém para colorir, reavivar seus dias tão solitários, vivia sim muito sozinho e procurava na noite encontrar aquela que pudesse amar e ser amado, estava cansado de tanto vazio e:
_Nossa que mulher linda!!!
Sergio deparou-se com Camila, uma jovem loira de corpo esbelto e rosto de porcelana, ficou louco, esta pequena jovem ele ainda não tinha visto pela vizinhança, mas parecia já conhece-la, aparentava vinte e poucos anos de pura tentação uma expressão angelical que o deixava ainda mais atordoado. Aproximou-se dela e a chamou pra dançar, em gestos graciosos ela aceitou, se divertiram a noite toda, conversaram, dançaram, riram e Sergio estava encantado e percebeu que ela não poderia ser só mais uma na multidão seu coração estava muito ansioso por este encontro e não poderia ter se enganado, ela era especial e ele conquistaria seu coração e a teria para sempre.
Camila também se sentiu muito atraída por Sergio um moreno alto de cabelos negros lisos e olhos verdes e astutos, expressões convincentes, e um cavalheirismo encantador, mas parecia que ela já sabia que o iria encontrar.
Foi uma noite perfeita para os dois, Sergio não havia sentido aquilo por ninguém até então, nem Camila.
Já exaustos e eufóricos com a companhia um do outro se dirigiram para a saída do baile de mãos dadas, ele nunca havia feito algo nem parecido, sempre saia sozinho, parecia nem ser percebido até encontrar Camila.
Foram surpreendidos por uma intensa chuva, Sergio todo solicito despiu-se de seu casaco e vestiu em Camila para que ela se molhasse o minimamente possível.
Caminhando, Camila resolveu encerrar a perfeita noite dos dois pedindo para que fosse acompanhada até sua casa.
Sergio meio contrariado, pois queria eternizar aquela noite, respeitou o pedido da linda jovem e foram para casa de dela.
Chegando ao portão sem resistir Sergio tentou um primeiro beijo, Camila esquivou-se de início ele tentou novamente passou a mão pelo seu rosto e disse o quanto ela era linda e o quanto estava fascinado pela sua pessoa, Camila sorriu um sorriso tímido e misterioso, e cedeu ao pedido daquele rapaz tão bonito que estava a sua frente, enconstaram-se os lábios e Sergio sentia seu corpo queimar, apesar dos lábios dela estarem gelados, com certeza pelo frio que fazia aquela madrugada, ele sentiu que precisava vê-la novamente.
Deixou seu casaco pra que ela pudesse entrar em sua casa com a mesma “proteção”, e com isso ganharia a desculpa de vir a sua casa no dia seguinte para “buscar o casaco”.
Camila aceitou a oferta e, abriu seu portão, e mandou um beijo entre as grades para Sergio, dizendo:
 _Boa noite Sergio Machado, despedindo-se assim dele.
Sergio voltou pra sua casa eufórico, já fazia mil planos com Camila pensou até em casamento, em filhos com ela, que loucura foi só uma noite como poderia ele estar tão enfeitiçado.
Chegando a sua casa, foi diretamente para seu quarto queria pensar em Camila lembrar cada detalhe daquela noite, cada gracioso gesto, cada lindo sorriso, cada palavra pronunciada com tanta delicadeza e perspicácia Sergio estava enfim apaixonado o cupido havia lhe acertado em cheio.
O sono foi lhe consumindo com dificuldade, queria dormir somente se fosse pra sonhar com ela, Camila que lindo nome.
E assim finalmente adormeceu.
Na manhã seguinte Sergio despertou e a primeira coisa que veio a sua mente foram os olhos de Camila, levantou-se apressado produziu-se para ir buscar seu casaco, é buscar o casaco.
No caminho ia pensando no que dizer, que palavras deveria usar, queria impressioná-la deixa-la sentindo por ele a mesma emoção que o estava contaminando.
Parou em frente ao seu portão, e lembrou do beijo que ela mandara entre as grades, e num ímpeto chamou seu nome: _ Camila!
Alguns segundos se passaram, mas pra ele pareciam uma eternidade não via a hora de olhar aquele rosto lindo novamente então: _Camila!
Um senhor já de idade saiu na porta e perguntou: _ Pois não?
_Olá estou procurando por Camila... Sem que terminasse a frase o senhor bateu a porta deixando Sergio sem entender absolutamente nada, simplesmente abismado do lado de fora, ficou alguns minutos inerte em frente ao portão olhando para a porta que tinha sido fechada com tanta, falta de educação, Sergio nunca havia passado por isso vinha de família de bons costumes e que nunca deixavam de ser educados, nunca.
Conseguiu escutar um diálogo que vinha de dentro da casa:
_Quem era?
_Ouvi alguém chamar por Camila.
_Hora Ronaldo você deve estar ficando louco.
_Devo estar Rosa, devo estar...
E num sentimento de revolta misturado com uma curiosidade insuportável de saber o porquê de aquela porta ter sido fechada daquele jeito resolveu chamar novamente:
_Camila!
Nada aconteceu, chamou novamente:
_Camila!
Sem entender que mistério era esse, afinal só queria rever a mulher mais encantadora que havia conhecido até hoje, chamou de novo:
_Camila!
Desta vez uma senhora apareceu semblante doce, e olhar perdido atendeu a porta:
_Olá senhora, boa tarde me desculpe incomodar, mas é que estou procurando por uma moça o nome dela é Camila ela está?
A senhora de olhar agora desconfiado faz um gesto que Sergio entende como, entre.
Ele abre o portão e adentra pela escada de poucos degraus que o levavam até a porta em que estava parada a senhora.
Chegando à porta pode ver um retrato de Camila pendurado na parede e disse:
_ É aquela moça que estou procurando, estive com ela ontem à noite, e a trouxe até aqui, deixei um casaco meu com ela e vim buscar. Ela está?
A senhora com um rosto severo olhando para dentro da casa indaga?
_Você só pode estar de brincadeira?
Sergio assustado pensou em cada palavra que havia dito com medo de ter cometido alguma indelicadeza, e responde:
_Não, claro que não, eu não teria nem motivo para tal.
E de forma alterada, quase descontrolada a senhora diz:
_Mas você realmente gosta de perturbar meu juízo o que você diz é algo sem propósito a Camila não mora mais aqui!
Sergio espantado com a resposta tão grosseira daquela senhora de semblante inicialmente tão doce, se pergunta o que deve ter acontecido, mas releva, ela deveria estar em um mau dia:
_Mas minha senhora, como não se a deixei aqui ontem?
_Você sabe muito bem que ela não esta mais entre nós e pare de atormentar.
Sergio não estava entendendo parecia que as palavras daquela senhora o atingiam como igual a um bombardeio.
_Como assim, estou dizendo pra senhora que passei a noite com ela ontem.
Dando as costas para porta entrando pra dentro da casa com uma voz chorosa à senhora diz:
_Pare com isto ela esta morta há sete anos e isso que diz é um absurdo, não tente criar esperanças, aceite, por favor, aceite.
Sergio sentiu a vista embaralhar e as pernas fraquejarem, e balbuciando:
_Me desculpe senhora, mas absurdo é o que a senhora me diz.
Recobrando o ar e novamente alterando a voz:
_ Já que acreditas tanto no que diz vá até lá e veja novamente você mesmo o túmulo dela no cemitério da cidade.
Sergio saiu dali mais que depressa, mas teve que parar um pouco para respirar, não conseguia acreditar aquilo tudo só poderia ser uma brincadeira, de muito mau gosto, mas tinha de ser uma brincadeira, então em um estalo resolveu ir até o cemitério verificar esta história, ficou receoso, mas tinha que ir até lá aquilo tudo estava enlouquecendo-o.
Quando chegou deu-se de frente a um enorme portão recostado indicando que aquele lugar não recebia muitas visitas, Sergio não conseguia acreditar, mas, estava na frente do cemitério. Respirou fundo, entrou olhou a sua volta e procurou a administração, mas não encontrou ninguém, Sergio foi andando por entre aqueles túmulos sem saber direito o que estava fazendo ali, deu uma olhada ao seu redor, e como obra do destino encontrou a foto de Camila, ela estava com o mesmo belo sorriso e abaixo de sua foto em sua lápide a dita:
“Aqui jaz Camila Machado Zanin
* 1968
+ 1991
Saudades de seu marido Sergio Machado, pais Ronaldo e Rosa Zanin,
Parentes e amigos”
Sergio aproximou-se até ele e não conseguia acreditar no que via, era ela, era Camila e ela estava morta, mas como? Como isso poderia ser possível?
_Meu Deus é Camila, minha Camila!
Sentiu o chão fugir de seus pés em uma vertigem abaixou-se diante seu tumulo com uma das mãos no rosto tentando colocar seus pensamentos em ordem, e em desespero, olhos incrédulos percebeu que atrás dele havia algo que lhe parecia familiar, deu alguns passos ainda abaixado e alcançou seu casaco estirado atrás do tumulo com um bilhete:
_Me desculpe por tudo adorei a noite que passamos juntos, fiz isso somente para que desperte para sua nova realidade e trilhe de uma vez seu caminho comigo na eternidade...
Beijos sua Camila.
Senhora Morrison
Enviado por Senhora Morrison em 29/06/2006
Reeditado em 12/07/2006
Código do texto: T184395
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Sobre a autora
Senhora Morrison
São Paulo - São Paulo - Brasil, 36 anos
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