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BOA NOITE, MEU FILHO

“Boa noite, meu filho”, foi a primeira coisa que ela pensou em dizer quando se deitou no sofá. Mas não disse. Sabia que aquela não seria uma boa noite.
Seu filho parece ter percebido a hesitação. Ela sentiu isso. Será que ele leu seu pensamento? Ela chegou a sorrir diante dessa hipótese. Sorriu e deixou uma lágrima cair. Uma lágrima feliz, mas dolorida. Muito dolorida.
Tentou parar de pensar. A noite estava bonita, apesar de não estar boa. Olhou para fora da janela do seu apartamento. As estrelas davam um colorido especial à noite.
Mas por que esse colorido especial nunca apareceu antes? Novamente ela chorou. Chorou muito. Chorou tanto quanto havia chorado no momento em que tomou a decisão de fazer o que estava prestes a realizar. Não conseguia nem sentir mais a beleza do colorido especial daquela noite estrelada.
Quis novamente dizer “boa noite, meu filho”.... mas não disse. Somente pensou e chorou ainda mais. E viu, dentro de seu coração, que seu filho captou o pensamento e também chorou.
Sem demorar mais, ela engoliu as centenas de comprimidos que havia separado para aquela ocasião. Empurrou-os com água garganta abaixo. Junto com os remédios, desceram pela sua garganta mais amarguras. Porém, essas se juntaram à sua alma, que já não tinha mais espaço....
Enquanto o ar começava a faltar e a vida ameaçava ir-se embora, ela foi fechando os olhos. Mesmo de olhos fechados, ainda via o brilho das estrelas. E via o rosto ainda desconhecido de seu filho, que crescia dentro de seu ventre. Crescia até aquela noite bonita, e dentro em breve, pararia de crescer.
Finalmente, ela conseguiu dizer “boa noite, meu filho”. Nunca mais disse mais nada. E seu filho, nunca pôde ouvir mais nada.
Vitor Souza
Enviado por Vitor Souza em 14/10/2009
Código do texto: T1866461

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Sobre o autor
Vitor Souza
Piracicaba - São Paulo - Brasil, 35 anos
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