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A GAROTA QUE QUERIA SER BEAT


Chove lá fora e aqui faz tanto frio...Peguei a garrafa e tomei um gole de conhaque pelo gargalo. Procurei me concentrar mas não conseguia ter nenhuma idéia original. Tomei mais um gole de conhaque. É, as coisas estavam começando a ficar complicadas. Liguei para o editor e ele estava em reunião.  Liguei de novo e ele continuava em reunião. Na terceira ligação a secretária me disse que o editor havia mandado eu me fudê. Bem, em resumo era isso mesmo que eu tinha entendido, antes da secretaria desligar o telefone na minha cara, e eu pudesse lhe dizer, muito obrigada. Eu estava atrasada e o negócio editorial possuía suas normas rígidas. Quinze páginas em branco, e só faltava preenche-las com alguma estória impressionante, fascinante ou mesmo interessante. Pensava em uma história simples, porque afinal de contas, não iriam me pagar tanto. Mas, nem o simples se alcança tão facilmente. Comecei a picotar papeizinhos enquanto tentava raciocinar com o feixe do meu sutiã. O tempo passou e nada. Devo ter picotado justamente quinze papéis, pois havia um morrinho branco à minha frente. Espalhei o morrinho branco como fosse uma espécie de deus destruindo o mundo com minhas próprias mãos. Passei três horas olhando para as minhas unhas e nada. Na minha gaveta encontrei uns pincéis atômicos. Comecei a escrever nas paredes: “era uma vez um burro chinês”, “oito horas de sono”, “uma colher de açúcar”, “legalize já”, “coca-cola é isso aí!”.  Queria ter uma idéia com aquela loucura toda. Mas nada. Resolvi então mandar tudo a merda e viajar para São Luís do Maranhão. Mas as coisas nunca são o que a gente deseja. Isso faz parte do Mundo. É simples, você se fode sempre. Antes de viajar o meu editor me ligou pedindo que eu lhe devolvesse o dinheiro que ele me pagara adiantado, pois tinha contratado um escritor beatnic para a sua  coluna “A Hora e a vez dos Marginais”. Mas isso não me afeta, em nada. Quando cheguei em São Luís do Maranhão, logo no terceiro dia, caí de cama com uma intoxicação aguda. Foram os malditos caranguejos. Eu havia comido pelo menos uns quinze e os filho-da-puta me detonaram!
Célia Demézio
Enviado por Célia Demézio em 08/07/2006
Código do texto: T190007
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Sobre a autora
Célia Demézio
Santos - São Paulo - Brasil, 49 anos
9 textos (248 leituras)
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Célia Demézio