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O carrasco

 Cinco cabeças rolaram no pequeno povoado de Gaudian, sob o reinado de Otto III. Ele baixou, em tempos remotos, uma porção de decretos, entre eles penas absurdas como torturas e execuções, destinadas na maioria das vezes aos rebeldes, assassinos e ladrões de cavalo. Talvez, essa tenha sido a gota  d‘água que faltava para encher um oceano de guerras e rebeliões.
 Conto, pois, o que se passou naqueles tempos, quando era menestrel e mensageiro da parte do príncipe Titus e do malfadado justiceiro Malthus de Ludian.
 Otto era um rei injusto e desumano. Tinha ao seu dispor um poderoso exército de cavaleiros altamente treinados para a defesa do castelo. Por esses bravos homens conquistou vastos territórios, participou de inúmeras expedições comerciais e o seu nome ficou conhecido por todos os arredores do país. Possuía ainda empregados de toda casta entre camponeses e tecelões. Sem contar as damas da corte e demais servidores.
 Diante da vergonhosa administração do reino, muitos se revoltaram contra o rei e seus aliados, inclusive seu próprio filho, Titus, que se juntou ao rebelde Malthus, do povoado de Ludian.
 Antes, porém, deixo narrados os atos dos condenados que fizeram oposição ao poder e acabaram guilhotinados.
 Por ordem decrescente à classe eram eles: Titus, filho do rei Otto III; Malthus, justiceiro decadente da nobreza ludiana; Galahan, o mago e Willian, um camponês de Gaudian.
 Dizem os cronistas da corte que Titus não teve uma infância das mais felizes. A começar pela morte da mãe, a rainha Violeta, quando ele tinha apenas oito anos. Aos doze mandou fundir a primeira espada. As crueldades de seu pai o fizeram ainda mais revoltado.
 O guerreiro Malthus, líder de um grupo de rebeldes do norte, tornou-se aliado do príncipe. Isso aconteceu pouco antes da emboscada que o rei preparou para o bando. Sendo o único sobrevivente ao ataque acabou preso e condenado.
 Galahan, várias vezes perseguido por heresia, foi acusado desta vez, de usar a magia em território proibido. Ele que escapou da fogueira destinada aos bruxos, não conseguiu evitar a decapitação.
 O caso mais simples foi o de Willian, capturado enquanto trabalhava no campo. A acusação foi de envolvimento com desordeiros durante um protesto que fizeram na tentativa de reivindicar melhorias aos trabalhadores do campo de trigo e diminuir impostos.
 E para concluir a relação dos executados apresento-me: Meu nome é Preston, cantador gaudiense. Gaudian é a terra das lendas, onde moram os dragões, duendes e fantasmas. Por outro lado, um lugarejo de face sombria e obscura. Há duas gerações o rei Otto mandou instalar, nos arredores do povoado, toda sorte de instrumentos de tortura e execução. Foi o início de uma era de terror, sobretudo para os habitantes de Gaudian. Quando perdi toda minha família, tornei-me um andarilho errante, vivendo de algumas libras que ganhava à custa de canções e poemas, ou mesmo como mensageiro, a causa de minha sentença.
  Éramos cinco criminosos condenados à guilhotina. Ficamos acorrentados na masmorra úmida e cheia de ratos. Seríamos mortos um por dia, começando por Titus.
 Parece-lhe admirável, no entanto, executar o próprio filho, e colocá-lo ainda à frente dos outros? Bem, consideremos que não contei por enquanto quais foram os elementos de sua sentença. Além da traição a seu pai, havia mais uma razão para que o rei quisesse sua morte: Titus não era filho legítimo de Otto III. Era um espinho que o soberano guardara por muitos anos na alma e na carne.
 Da pequena janela da prisão assisti às execuções uma a uma. Vi rolar a cabeça de um nobre, depois de um cavaleiro, em seguida de um feiticeiro e por fim do camponês.
 No meu último dia de vida fiquei calmo, na cela, onde esperava chegar àquela hora. Dois algozes me conduziram acorrentado até o local. Deparei-me com o carrasco que preparava a guilhotina. Impossível não recordar a frieza e tranqüilidade daquela criatura, principalmente ao suspender a lâmina que mandaria minha cabeça pelos ares. A verdade é que a personalidade obscura e assustadora daquele cavaleiro das trevas me fez esquecer de Otto, Titus, do justiceiro Malthus e seus seguidores, da saga de Galahan em reinos estranhos, de um simples camponês que teve muita coragem de propor guerra a gigantes e até mesmo do sacerdote que aguardava para encomendar minha alma.
 Prenderam-me os braços e o pescoço entre tábuas, chapas de ferro fundido e corrente. Deram inicio à cerimônia. Estava presente o próprio rei e todo o povo gaudiense.
 - Sua majestade, o rei Otto III! Anunciou o lacaio entre o som das trombetas. O rei deu logo à palavra ao ministro:
 - Segundo foi decretado, pelo conselho e aprovação real, que seja realizada a execução de Preston de Gaudian, acusado de cumplicidade e traição. A infidelidade deste plebeu custará sua vida perante o povo de Gaudian, aqui presente, e todos os cidadãos deste reino. A justiça seja feita!
 Os aplausos quebraram um breve silêncio, revelando a dependência de um povo que há pouco tempo se levantava contra aquele sistema de governo e agora o saudava receoso.
 O executor, como vimos, era semelhante aos lagos congelados da Normandia. Tinha uma face gélida e cruel. Sob a máscara negra só se via os olhos de quem se satisfaz com o sacrifício. Os olhos frios e as mãos pesadas uniam-se no mesmo movimento quando era dado início à execução. E o sangue era seu troféu.
 Minha cabeça, no momento do golpe, pulou alguns metros à frente. Antes que tocasse o chão pude ver ainda, com os olhos que dali a pouco seriam alimento para alguns vermes mortos de fome, o meu assassino particular, sorrindo com crueldade no aspecto.
 Após alguns anos é que fui saber, no reino dos mortos, que aquele ser revestido em cor negra, cuja capa sugeria um caráter misterioso e profano, fora jamais o verdadeiro carrasco para o nosso tormento. Com o ligeiro golpe da lâmina ele tirou nossa vida, mas de fato, não nos matou.
 Restou-nos a carcaça das vítimas no deserto árido e sem vida. Ouve-se ainda, nos ventos daquele reino, a canção que fiz em alaúde, quando padecia nas pedras do plano inferior...


 “Nas vozes dos ventos, a verdade do tempo ecoa inquieta;
Sem norte ele segue, no caminho das aves, até o vilarejo;
Onde o povo adormece entre a peste e a fome...”



 Lembro que há uns anos atrás estive face a face com o impiedoso verdugo. Foi em um baile anual de máscaras onde o vi pela última vez. Para aquela noite travestiu-se com um manto vermelho sobre os ombros. Em vez da máscara negra, usava uma coroa de diamantes e em vez do machado o cetro.







Luciano Osawa
Enviado por Luciano Osawa em 12/07/2006
Código do texto: T192237
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Sobre o autor
Luciano Osawa
Capão Bonito - São Paulo - Brasil, 34 anos
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