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Morada do Medo

Entre o sol em brasa e a estrada de terra vermelha, a imagem do horizonte dança, derretendo sob o calor das horas.
  Num repente, uma nuvem de poeira se levanta, assim como coisa de outro mundo. Rodopia e nos castiga, resseca nossa boca, arde nos nossos olhos e parece que ri, num zunido que às vezes também parece um grito ou um lamento.
  O redemoinho de poeira vermelha se vai, tão de repente quanto veio, deixando o ar mais abafado do que antes.
  A brisa sopra rara nessas paragens e quando vem traz mais calor do que alívio. Tudo, quase sempre, permanece estagnado, sem vida. Só um zumbido de moscas parece se ouvir aqui e ali, de quando em quando.
  - Esses redemoinhos são sinal de má sorte... São moradas de coisas ruins, abrigo de desgraças. Confundem o juízo dos viajantes e fazem perder a direção.
  Seu Deocleciano me falou com  voz grave, como juiz que proclama uma sentença no tribunal. Olhando para traz, vi nossos rastros desaparecendo na poeira e pensei como é fácil perder a direção nesse lugar. A qualquer momento pode-se pegar o caminho errado, andar em círculos sem se perceber, e quando menos se espera, se está à beira do abismo.
  - O senhor acha que demora muito para chegarmos, seu Deocleciano ?
  - Acho que não. Saímos cedinho de Córrego Azul, viemos sempre sem muita parada. Mais uma hora nesse passo e chegamos a Cruz das Almas antes do pôr do sol.
  Seu Deocleciano era um velho caboclo muito forte e conservado, de poucas palavras mas conhecedor do lugar como poucos, acostumado a cruzar por esses caminhos desde criança, no lombo de cavalo ou mesmo à pé. Ao procurar por um guia em Córrego Azul, muitos falaram dele como sendo o melhor mateiro que se tinha notícia na região. Precisava de alguém para me ajudar a chegar a Cruz das Almas ainda de dia. Sou homem da cidade, pouco afeito a coisas do campo e à aventuras como essa, mas a esperança de fechar o maior negócio de minha vida me dava forças para encarar qualquer jornada por mais árdua que fosse. A venda da fazenda Promissão representava muito dinheiro em jogo. Um fazendeiro falido precisando de dinheiro, e eu conhecedor da pessoa certa para aproveitar a oportunidade. Em todos esses anos negociando imóveis já vi muito disso, o desespero de uns é a alegria de outros. E já que alguém tinha de se aproveitar desse desespero, que fosse eu então...
  Mas todas essas horas em cima de um cavalo já estavam mexendo com meus nervos e abalando o meu ânimo.
  - Vamos descansar um pouco seu Deocleciano ?
  - Vamos sim, seu doutor. Podemos pedir um pouco de água naquela pequena casa ali mais adiante.
  Seu Deocleciano apontou a direção com o queixo, naquele seu jeito de economizar nos gestos, e num primeiro momento não notei casa alguma, mas ao olhar novamente a fim de conferir a direção, o tal casebre parecia ter surgido do nada.
  Para chegar à casa nos desviamos um pouco da estrada mas o caminho não era tão longo e nem muito acidentado.Depois de alguns minutos andando pela trilha, notei que a vegetação foi ficando ainda mais seca e a paisagem mais sombria. Paramos em frente a uma ponte. Um amontoado de troncos retorcidos atravessados sobre um riacho que não existe mais. No leito seco, só a terra se quebrando em lascas. Do lado de lá da ponte, tudo parecia ainda mais desolador. Árvores secas fincadas na terra pareciam cruzes num cemitério abandonado.
  Os animais foram ficando inquietos. Seu Deocleciano olhou ao redor e me falou baixo :
  - Escuta só, seu doutor...
  Observei o olhar enviesado de seu Deocleciano em direção da casa e fiquei um momento imóvel, atento a qualquer som.
  - Não ouço nada...
  - É isso mesmo seu doutor ! Esse silêncio é muito estranho...
  Não havia notado, mas a verdade é que reinava naquele local um silêncio solene. Não se ouvia nenhum pássaro, nem o barulho da brisa nas árvores secas, nada... Um calafrio percorreu-me a espinha e a visão daquela velha casa me fez suar frio.
Seu Deocleciano tentou cruzar a ponte puxando seu cavalo, mas este se recusava a dar um passo sequer naquela direção.
  - Acho melhor deixar os animais por aqui mesmo, seu doutor.
  Amarramos bem os animais no tronco de uma árvore e atravessamos a ponte em direção da casa.
  - Sabe seu doutor, o que me dá mais estranhamento é que não consigo me lembrar de ter passado por aqui antes. Já passei mais de mil vezes por esses caminhos por aí e me lembro de cada curva, de cada vereda. Mas esse lugar...
  Seu Deocleciano parecia preocupado, o que me deixava ainda mais nervoso. Alguma coisa naquele local parecia estar errada. Era como se, depois de termos cruzado a ponte, tivéssemos entrado em um outro mundo, uma outra dimensão.
  Passo a passo, seguíamos o caminho de terra. A poeira se levantando do chão, entrando em nossas narinas, vingando-se de nós, invasores  desse território inóspito. Ouvi um barulho de cascos nos seguindo e virei-me para averiguar se era um dos cavalos que havia cruzado a ponte para vir atrás de nós, mas ao olhar para trás nada havia ao nosso redor, apenas  um redemoinho vindo em minha direção, arrastando um feche de gravetos e mato seco.
  Observando aquela estranha cena e um tanto hipnotizado, talvez pelo barulho do vento, começou a surgir em minha mente a visão de um carrasco arrastando e castigando sua vítima. Tudo aconteceu tão rápido que só tive tempo de me abaixar e fechar os olhos, já sentindo os açoites do vento e da poeira.
  - Parou porquê, seu doutor ? Gritou seu Deocleciano já bem à frente.
  - Pensei que um cavalo tinha nos seguido, seu Deocleciano. Achei que tinha ouvido um barulho de cascos atrás de nós. Mas esse maldito redemoinho me cegou os olhos...
  Seu Deocleciano olhou em volta com seu jeito desconfiado, depois olhou bem para mim e disse :
  - Que redemoinho seu doutor ? Olha como o ar aqui está parado, não tira nem folha do lugar... Só vi foi o doutor agachado com as mãos sobre os olhos... Mais nada...
  Olhei ao meu redor e tudo permanecia imóvel, sem o mínimo vestígio de vento ou brisa.
  - Não entendo seu Deocleciano, o que está acontecendo aqui ? Como é possível tal coisa ?
  - Não sei não seu doutor. Seu medo lhe subiu à cabeça, mas é melhor não demorarmos muito neste lugar, vamos sem demora pedir um pouco de água e já partimos já.
  Continuamos andando. Eu, um pouco mais incerto de que realmente queria chegar àquela casa.
  Avistei uma luz através da janela entreaberta de um dos aposentos  e pelo jeito como a luz tremulava parecia  se tratar de luz de velas. Algo muito estranho, com toda aquela claridade do dia, alguém com velas acesas. Mas poderia ser alguma novena ou vela para algum santo, nessas paragens o povo é muito religioso e temente a Deus.
  Enquanto divagava em meus pensamentos, chegávamos em frente à casa. A porta de madeira muito velha e desbotada me chamou a atenção pelas marcas profundas cravadas em sua superfície. Pareciam arranhaduras feitas por garras enormes. Seu Deocleciano passou a mão sobre as marcas na porta e sussurrou para si mesmo, que diacho de bicho podia fazer umas marcas assim? Não tinha jeito de garra de onça nem de nada que já tivesse visto.
  - Oh de casa ! – Gritou ele várias vezes. Não obtendo resposta, empurrou a porta que se abriu com facilidade, embora soltasse um rangido fino que doía nos dentes. A porta aberta revelava uma pequena sala muito simples, o chão de terra batida, uma pequena janela de madeira, fechada e travada com pedaços de pau, pregados de maneira aleatória, como se a pessoa que fez o serviço não estivesse muito preocupada com a arrumação ou sem tempo de pensar nessas coisas. A sala estava totalmente vazia, com exceção de uma mesa velha, muito sólida e comprida, que parecia ter em sua superfície, alguma coisa que a escuridão teimava em esconder.
  Seu Deocleciano entrou com muito cuidado, apanhou o objeto de cima da mesa e o trouxe ao facho de luz que adentrava a sala pela porta aberta. Suas mãos trêmulas não disfarçavam a consternação que aquele objeto provocava.
  Uma cruz. Quebrada em uma extremidade, lascada em alguns pontos, como se tivesse sido usada como arma em alguma luta. Notei uma mancha em uma das pontas e chamei a atenção de seu Deocleciano que logo passou um dos dedos sobre ela e ao verificar na claridade do que se tratava, disse com ar estarrecido :
  - É sangue ! E ainda fresco !
  Aquelas palavras acabaram com o pouco de controle que eu possuía sobre meus temores. O desespero tomou conta de meus pensamentos e meu impulso imediato era o de sair correndo, mas  minhas pernas tinham perdido as forças. Não conseguia nem ao menos respirar direito. O ar tinha se tornado denso demais e a escuridão pesava em meus ombros. Seu Deocleciano, vendo minha situação, me disse para esperar ali mesmo perto da porta. Ele ia revirar a casa e ver o que estava acontecendo. Puxou o facão da bainha, fez o sinal da cruz e entrou por um corredorzinho que parecia levar ao quarto que se via no caminho, o quarto com aquela estranha claridade em seu interior. Não me restava outra coisa a fazer se não esperar.
  Esperei por um grito, por um chamado, por um sinal qualquer. Mas o tempo se desfez na dimensão daquele recinto macabro e os segundos se arrastaram vagarosamente. Passaram-se séculos por entre o piscar de meus olhos e nada aconteceu. O silêncio era irreal, absoluto.
Meus olhos, agora mais acostumados com a escuridão, conseguiam distinguir manchas pelas paredes, marcas profundas, iguais as da porta de entrada, por toda a parte, além de respingos, provavelmente de sangue.
  Não conseguia mais esperar, mas também não poderia deixar seu Deocleciano para traz . Segui pelo pequeno corredor e quanto mais medo sentia, mais era impelido à frente.
Havia apenas duas portas, uma fechada e outra entreaberta por onde escapava aquela estranha claridade.
  - Seu Deocleciano ? Está tudo bem ?
Nenhuma resposta. Só o som trêmulo de minha voz debatendo-se pelas paredes. Espiei pelo vão da porta já que parecia não ter coragem de empurrá-la. Pela fresta pude ver apenas uma parte do recinto. Não havia móvel, objeto ou pessoa, notava apenas que a claridade vinha da parte esquerda do quarto e que só conseguiria ver o que era se abrisse a porta por inteiro.
  Me apoiei sobre a velha maçaneta enferrujada e o frio do metal foi subindo pelas minhas veias, minha mão cada vez mais trêmula, o coração num batimento cada vez mais frenético. Um pingo de suor escorreu gelado pela minha fronte, precipitando-se do rosto ao chão. Fui empurrando a porta... lentamente... Os olhos, arregalados pelo o que poderiam ver... Entrei...
  Descrever a cena insólita que testemunhei, é tarefa árdua. Esquecer tudo seria melhor, mas só há um meio de nos livrarmos dos nossos demônios. Abrindo nosso coração e arejando nossa alma. Talvez me julguem um louco, ou talvez um mentiroso. Só espero que tenham a consciência de que vivemos em um mundo cheio de mistérios e de que a ciência, por mais que tenha progredido,  só colheu até hoje as certezas de sua própria limitação.
  Velas. Muitas velas acesas sobre uma espécie de oratório. Uma imagem de santo quebrada ao meio, teimava em permanecer de pé, testemunhando as chamas que ardiam naquele fúnebre ambiente. Uma marca em forma de cruz na parede sobre o oratório, revelava que ali era o local onde aquela cruz que encontráramos na sala tinha repousado por muito tempo, até ter sido provavelmente arrancada para servir como meio de defesa por alguém.
  Perplexo, fiquei algum tempo imóvel, de frente ao oratório, tentando achar um pensamento em minha mente que trouxesse alguma explicação, alguma pista do que estava acontecendo. O oratório de madeira, ricamente trabalhado, já possuía sobre si várias camadas de vela derretidas e enquanto algumas velas já terminavam sua missão de queimar, outras pareciam ter acabado de ser acesas. Nesse intervalo de tempo que fiquei contemplando estarrecido a dança macabra das chamas, comecei a sentir a presença de alguém a me observar. Antes que pudesse me virar, vi ou pressenti, já que muitas vezes enxergamos mais com nossa mente do que com nossos olhos, um vulto saindo do quarto e batendo a porta numa velocidade sobre humana. Corri para tentar abrir a porta mas ao encostar a mão na maçaneta, senti uma dor profunda.
  Ainda guardo como prova a quem quiser ver, a marca da terrível queimadura que sofri naquele momento. Enquanto me retorcia de dor, ouvia novamente o barulho de cascos, indo e vindo pela casa. Ouvi batidas muito fortes, provavelmente na outra porta que havia no fim do corredor.  Ouvi também um barulho de vento zunindo pelas frestas da porta como se houvesse uma tempestade dentro do casebre.
  De repente um estrondo ecoou pelo ar.
  Gritos desesperados ecoavam por todos os cantos. Garras pareciam raspar pelas paredes. Não conseguia distinguir se os gritos eram de seu Deocleciano ou não. Algo bateu contra a porta com muita força. Sons horríveis como se alguém estivesse sendo dilacerado por alguma fera enfurecida. Sob a porta, sangue começou a escorrer quarto adentro.
  Esqueci de meu ferimento, tomado completamente pelo pânico. Pulei pela janela entreaberta do quarto e corri como louco, sem saber que direção tomar.
  A noite que até então demorara a se aproximar, desabou de uma só vez sobre aquela casa maldita. De certo aquela escuridão não era normal pois eu já não conseguia nem ao menos enxergar o caminho de volta. Gritava por seu Deocleciano, mas já não esperava por nenhuma resposta dele. Atordoado, parei por um momento para recobrar o fôlego. Tamanha era a escuridão que só se podia distinguir as coisas a menos de um metro de distância, o que causava uma sensação profunda de angústia e de sufocamento.
  Tentei localizar algum ponto de referência, alguma árvore ou trilha no chão. Caminhei como um cego, indefeso, mãos erguidas à frente apalpando o vazio. De repente algo raspou em minha cabeça.
  Virei-me e um velho tronco de árvore zombava do susto que levei. Agarrei-me ao tronco tentando me acalmar e formando em minha mente um mapa do caminho que fizemos. Tentei encontrar a direção daquela velha ponte. Tinha que encontrar os cavalos, fugir dali para pedir ajuda.
  Segui lentamente em frente, certo de que encontraria o caminho que levava à ponte, meus olhos varrendo o solo procurando alguma pista e, quando quase já perdia a esperança eu reencontrei a trilha.
  Fui seguindo, agora um pouco mais confiante, o passo acelerado, pois em breve estaria bem longe daquele lugar.
  A poeira começou a se levantar novamente, castigando meus olhos já tão exauridos pelas trevas. Comecei a correr mas logo parei, e tremi ao notar aonde havia chegado.
  Novamente a velha porta daquela casa amaldiçoada. Havia andado na trilha mas na direção errada. O vento finalmente me alcançou e soprou num uivo lúgubre a minha sentença de morte. A porta se abriu com violência e podia ouvir novamente o barulho de cascos se aproximando.
- Meu Deus ! Gritei desesperado várias vezes e corri como nunca havia corrido antes. Meus olhos falhavam, mas minha alma parecia guiar meu caminho.
  Finalmente pude distinguir na penumbra os troncos retorcidos da ponte. Atravessei sem me preocupar com aquelas madeiras podres que iam se partindo conforme eu passava. Ouvi o barulho de cascos se aproximando mas o relinchar de meu cavalo já me dava a certeza de minha fuga.
  Desamarrei o animal e montei sem demora. Este se apressou em fugir, pois, de certo, também sentia aquela maligna presença.
  A escuridão parecia diminuir e aos poucos, meu coração voltava ao seu lugar dentro de meu peito. Mas uma dúvida não calava dentro de mim: Onde estava a montaria de seu Deocleciano ? Teria o cavalo se soltado e fugido, ou teria seu Deocleciano conseguido escapar antes de mim daquela misteriosa casa ?
  Nunca mais se teve notícias de seu Deocleciano naquelas redondezas e esse mistério me corrói a alma através dos anos.
Da velha casa, nunca vi ninguém por estes lugarejos que a conhecesse ou que tivesse ao menos ouvido relatos de tal lugar. Era como se nunca tivesse existido. Voltei com vários homens à procura de seu Deocleciano, atrás daquele caminho pelo qual passamos, mas nunca mais achei a tal trilha. No entanto, trago em minhas lembranças todos os detalhes que ocorreram naquele trágico dia. Nas noites de ventania, parece que ainda ouço aquele zunido do vento... riso macabro a zombar de meus temores. Olho em minha mão as marcas do ferro quente daquela maçaneta que queimou minha própria carne. Dói e lateja, para não me fazer esquecer de que aquilo tudo que aconteceu não foi fruto de minha imaginação. Transportado para aquele dia, me vejo montado sobre meu cavalo, fugindo do desconhecido. O céu muito limpo, o sol nascendo no horizonte. O vento levantando a poeira e apagando meus rastros pelo caminho.
Marcelo Kbral
Enviado por Marcelo Kbral em 24/05/2005
Código do texto: T19299
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