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A Procissão

João era um garoto muito ativo que vivia criando casos na redondeza. Num dia de procissão ao Sagrado Coração de Jesus, João disse ao seu pai que queria participar como coroinha. Seu André, muito desconfiado, perguntou o por quê. Célere, João respondeu que sentiu vontade de estar presente nessa procissão. Seu André, meio sem jeito, disse que iria falar com o padre José para avaliar se haveria essa possibilidade.
Justamente, naquele ano, a procissão teria a participação do arcebispo Pedro, uma grande autoridade para essa pequena cidade. O padre José mal conseguia disfarçar o nervosismo e a alegria de ter a presença do arcebispo.
Nesse cenário surge seu André e, sem saber como começar, pergunta com voz baixa ao padre se seu filho poderia participar da procissão como coroinha. O padre José nem conseguiu escutar o que seu André dizia, e logo pediu que ele repetisse a pergunta. Dessa vez, com um pouco mais de força, seu André faz o pedido. O padre José fica calado por uns dez segundos, segundos esses que pareciam uma eternidade para o seu André. Antes mesmo do padre começar a responder, seu André fala que nem ele mesmo acreditara ao ouvir seu filho fazer esse pedido, relatou que João justificara-se dizendo que sentiu vontade, mas ele mesmo entendia que seria uma perda de tempo. O padre José pediu, gentilmente, que seu André se sente, e disse que acreditava que isso poderia ser um chamado. Sendo assim, aceitou o pedido de João.
Seu André, ao chegar em casa, vai logo procurar João. Seu filho estava no quintal chutando bola na parede, sozinho. Seu André chama-o e o diz que o padre havia aceitado. Era para João aparecer na Igreja às duas e meia para se preparar, já que a procissão começava às três da tarde. Antes de João falar qualquer coisa, seu André disse veementemente que caso João aprontasse alguma das suas ele seria severamente castigado. João ouviu aquilo como se não fosse nada, e continuou a chutar a bola dizendo que estaria na Igreja no horário marcado.
Nem dona Ana entedia o que se passava com João, seu filho. Como era possível alguém mudar assim do dia para noite? Logo João, que sempre reclamava para ir à missa, e que mal comentava sobre coisas religiosas? Seria qual um estalo de Vieira? Ou o próprio São Paulo, que depois de perseguir os cristãos, tornou-se um dos mais ávidos guerreiros do cristianismo?
Sem entenderem nada, dona Ana e seu André viram João se aprontar logo depois do almoço. João, ao sair de casa, disse para seus pais que já estava indo, e que eles o veriam mais tarde.
Os pais de João até pegaram a máquina fotográfica para registrar esse feito. Seu filho, será que sentiu o chamado para ser padre? Quase chegaram atrasados na procissão, mas conseguiram um bom lugar na fila.
Ao iniciarem a marcha, viram João lá na frente bem ao lado do arcebispo. E não é que a batina lhe havia caído bem, pensaram?
Tudo prosseguiu conforme o protocolo. Incenso, leituras intermináveis, uma homilia de quase duas horas e mais de meia hora só para a comunhão da massa. E João, altivo no altar, parecia confortável, como se estivesse na sala de estar. João estava calmo, sereno, segurando a sineta e ajudando o Arcebispo e o Padre na celebração.
Ao final, seus pais boquiabertos, são recebidos pelo Arcebispo que os cumprimentou pela educação de João. Nesse momento, dona Ana e seu André já visualizavam a carreira celibatária de João. Todos foram convidados para o jantar na casa paroquial. O jantar transcorreu tranqüilamente, e, após se despedirem, eles se recolheram para suas casas.
O dia seguinte chegou rápido e João voltou às suas atividades de rotina, o que incluía todas as peripécias de outrora.
Já se passava um mês da procissão, quando seu André perguntou:
- Meu filho, eu ainda não sei o por quê você quis participar da procissão. Qual foi o motivo?
E a resposta foi a seguinte:
- Pai, nossa vida é como uma procissão. Cabe a nós escolhermos se queremos conduzir ou ser conduzido. Eu já tomei minha decisão.

Zan
São Paulo, 15 de Julho de 2006, às 21h40min
Zan
Enviado por Zan em 17/07/2006
Reeditado em 17/07/2006
Código do texto: T195752
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Sobre o autor
Zan
São Paulo - São Paulo - Brasil, 44 anos
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