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John, o vampiro

Amsterdão, 2001

Estou no meio da rua, viro a cabeça para a esquerda… ninguém. E para a direita… ninguém. Mais uma noite sozinho.
As ruas só cheiram a alcóol e erva a estas horas, ou pelo menos penso eu que assim seja. Desde que me transformaram naquilo que sou, nunca mais consegui sentir cheiros nem saborear o que quer que seja. Tenho inveja das ovelhas que conseguem saborear um charro.
Enfim, mas nem tudo é mau nesta maldição (como alguns lhe chamam), a morte foi uma bênção na minha vida, porque não foi bem uma morte foi quase um renascer, um renascer que me trouxe poderes que eu não sabia que existiam.


Começou a chover, não torrencialmente mas apenas uns pingos espaçados. Que bom que é, ainda conseguir sentir a chuva a tocar no meu rosto e a deslizar por ele abaixo, este toque suave faz-me lembrar o toque dela, o toque suave dos seus dedos e dos seus cabelos na minha face e no meu corpo. E a lembrança dela acorda-me para a minha missão: encontrá-la e transformá-la em algo como eu.
Mas para já a missão vai ter que esperar, vejo uma ovelha a sair de um coffeeshop, odeio as ovelhas que conseguem saborear um charro. Está na hora de ir trabalhar John, penso para mim mesmo, e antes mesmo de o pensar já as minhas veias se exaltam com a antecipação do ouro vermelho que está para chegar e todo o meu corpo se movimenta como um predador. Sigo a ovelha, escondido nas sombras, é um homem que deve rondar os 30 anos, usa calças de ganga e uma camisa. Indiferente à chuva, continua na sua viagem a pensar que a sua noite acabou, mas o que está prestes a acabar para ele é algo mais.
Sinto-me cada vez mais ansioso, todas as ovelhas de que me alimento parecem sempre a primeira. Mas tenho que refrear a ansiedade, não me posso dar ao luxo de matar numa rua iluminada. A paciência é que faz um bom predador, foi o que aprendi com as minhas caçadas e com os documentários do National Geographic.
Continuo a persegui-lo num completo silêncio, passamos pela Paleisstraat e seguimos até à Rozenstraat, um pouco depois a minha oportunidade começa a surgir, ele está a virar para uma rua estreita e escura.
É agora, estamos numa rua cujos candeeiros estão apagados, a escuridão é sempre uma boa aliada. Aproximo-me dele de maneira a que a minha presença seja notada, ao ouvir os meus passos a ovelha olha para trás e a cara de espanto que faz ao ver-me faz-me adorar ser o que sou, deve estar a perguntar-se a si mesmo como é que só me ouviu quando já estou assim tão próximo. Peço-lhe lume quando nem cigarros tenho, e ele apalpa os bolsos à procura do isqueiro que não quero, ao fazer isto desvia o olhar para si mesmo e para os seus bolsos. Chegou o momento, com um movimento rápido e vigoroso ponho-lhe uma mão no ombro direito e outra no pescoço, os meus olhos ficam vermelhos de excitação e a cara da ovelha é o sinónimo de medo e espanto. Os meus dentes aguçados aproximam-se do seu pescoço num milésimo de segundo e antes que ele possa gritar são cravados. Aaahh, sinto o seu coração bater, sinto o seu sangue quente a entrar em mim, sinto-me cada vez mais forte enquanto a minha vítima vai perdendo aquilo a que chama de vida. Fico agarrado a ele nesta estranha dança ainda alguns segundos. Começo a ficar satisfeito e resolvo parar, a gula não é definitivamente o meu pecado favorito e a noite ainda agora começou.
No momento que o largo sinto toda a força do seu sangue a percorrer o meu corpo pálido, isto é o mais próximo de um orgasmo que posso ter.
Mais um que vai ser famoso, amanha aparecerás nas notícias ovelha. Nem vou livrar-me do corpo, hoje não me apetece, vou deixar um presente para a Polícia poder fazer as teorias sobre o novo assassino na cidade. Faço isto porque sei que nunca me apanharão, nunca me apanharão.


Ando pelas ruas durante uma boa meia hora ainda a saborear o fluído cor de rubi que me percorre as veias. Mas agora que saciei a minha fome posso concentrar-me no meu objectivo, encontrá-la. Só há um sítio onde ela possa estar a estas horas, uma discoteca na Wagenstraat e mais uma vez, antes mesmo de pensar nisso já dou por mim em movimento. No caminho penso nos bons momentos que passámos, na reacção que ela irá ter quando me vir e como será cravar os dentes naquele pescoço perfeito, calma John tens que estar concentrado.
Ao aproximar-me da discoteca vejo a sorte que tenho, hoje há uma festa gótica, vou passar bem despercebido. Avanço para a porta e quando o segurança está pronto para me pedir dinheiro olho para ele duma maneira que nunca ninguém olhou para ele, e sou convidado a entrar.
Entro e a batida dos Depeche Mode invade logo o meu corpo, dou uma vista de olhos pelo local e sinto-me empurrado pela voz do Dave para a pista. Danço, mas só durante alguns minutos, porque tenho um objectivo, tenho que procurá-la.
Dou uma volta pela discoteca e olhando para o rebanho presente, sei que se não a encontrar, vou-me alimentar mais uma vez esta noite. Quando começo a perder a minha esperança e viro-me para a saída, uma onda de nervosismo que se assemelha a um murro no estômago apossasse-se de mim, ela está a entrar, ela afinal veio e traz aquele vestido que adoro, é preto, desce até aos joelhos e é justo, deixando adivinhar as formas daquele corpo que já foi meu em algumas noites não muito distantes. Escondo-me nas sombras e fico a observá-la, está sozinha e meia dúzia de gajos já estão a olhar para ela. Decido manter-me escondido e só avançar quando ela sair, aí sim a abordarei. Mas para já tenho que aguentar a raiva que tenho daquelas ovelhas a olhar para ela, matava-os a todos, não por necessidade mas por prazer.
Passa 1 hora, passam 2 horas e ela dirige-se à saída, vai-se embora, começo também a movimentar-me. Já na rua sigo-a até chegarmos a um local calmo e resolvo aproximar-me, mas antes de chegar perto o suficiente, ela olha para trás e vê-me, como é possível? Como é que ela pode ter reparado?
Não sei, sinceramente, qual dos dois ficou mais surpreso por ver o outro (eu que pensava que seria impossível alguém voltar a surpreender-me, mais uma vez subestimei-a). Olho para os seus olhos castanhos e cabelos negros e para as suas feições perfeitas naquele vestido perfeito, enquanto ela olha para uma cara muito mais pálida do que aquela que conheceu.
- John? Estás vivo? - Pergunta ela.
Eu apenas sorrio devido à ironia da pergunta.
- Pensei que nunca mais te iria ver, desapareceste sem deixar rasto.
- Passei por uns momentos complicados – respondo eu.
- Senti muito a tua falta, não sabes o que passei John.
- Eu sei, eu também sofri, desculpa.
- Mas estás doente? Não estás com um ar muito saudável.
- Nunca me senti tão bem em toda a minha vida. – Volto a sorrir.
- Mas que…

- Ssshhhh, deixa-me falar, acalma-te, vim para te buscar.
- Buscar? Mas para onde? Estás a falar de quê?
- Algo aconteceu-me nestes tempos que estive ausente, eu mudei.
- Mudaste? Não percebo John.
- Mudei, perdi algumas coisas mas ganhei outras, preciso que estejas calma e ouças o que tenho para te dizer por mais estranho que pareça.
- Acho que estás a gozar comigo, mas nunca te vi tão sério e com esse olhar.
- Não estou a gozar, algo me aconteceu que alterou o meu ser, já não suporto a luz do sol por exemplo mas sinto-me cada vez mais forte e mais rápido.
- Bem, daqui a pouco estás a dizer-me que andas por aí à noite a morder pescoços – Ao dizer isto sorriu nervosamente e ao notar o meu silêncio e o meu olhar sério o seu belo sorriso desapareceu. E disse:
- Só podes estar mesmo a gozar comigo, diz-me que não é verdade, diz-me que é uma brincadeira.
- Não, não é brincadeira, podes acreditar, eu …
- John! Afasta-te de mim, afasta-te de mim por favor ou grito!
- Achas que terias tempo de gritar? – E ao dizer isto encostei-me a ela, empurrei-a contra a parede e passei a minha mão pelos seus cabelos molhados e pela sua pele suave como seda e disse:
- Vim buscar-te, juntos seremos senhores desta ou de outra cidade qualquer ou se quiseres de nenhuma cidade e passaremos o resto da eternidade a andar pelo mundo, nada nem ninguém nos pode parar, quero que sejas como eu e quero que sejas minha, eu amo-te.
Ao ouvir isto ela abriu ainda mais os olhos como se o seu cérebro estivesse a processar a informação que acabou de receber. Eu continuei:
- Sei que me amas também, vê só, podemos ficar juntos para sempre.
Agora um pouco mais calma respondeu:
- Não sei, apareces assim do nada depois deste tempo todo e pedes um grande sacrifício da minha parte mas por outro lado sinto-me atraída por uma força qualquer que emana de ti. Estou confusa, muito confusa.
- Confusa? Não estás a ver a dádiva que te estou a dar? A vida eterna não é suficiente para te tirar as confusões? Já tens muita sorte por poderes escolher.
- John, eu, eu…
Neste momento beijei os seus lábios vermelhos, enquanto a minha mão direita acariciava a sua face e a esquerda suavemente deslizava pelo seu corpo húmido da chuva. O corpo dela respondeu afirmativamente ao meu beijo e puxou-me para ela. Eu parei e disse – Aqui não, vamos para tua casa.
Ela assentiu com a cabeça e fomos.
Fomos rua abaixo agarrados e uns minutos depois de caminhar em silêncio, chegámos ao seu apartamento, ela sacou das chaves e abriu a porta, uma vez lá dentro, agarrei-a de novo e entregámo-nos num beijo ainda mais intenso que o primeiro. Só por acaso conseguimos fechar a porta atrás de nós. Ficámos em pé na sala junto ao sofá, livrámo-nos das roupas molhadas, os nosso olhares trocaram-se e começámos a acariciar-nos mutuamente, comecei por passar as minhas mãos pelo seu cabelo enquanto os nossos lábios se tocavam. Explorámos intensamente o corpo um do outro com mãos, lábios e línguas.
Foi então que os meus lábios passaram pelo seu pescoço e quando dei por mim já percorria toda aquela zona tão desejada por mim.
A excitação era demais, os meus olhos ficaram de um vermelho cor de fogo e os meus caninos cresceram, comecei por enterrá-los gentilmente na sua pele ruborizada, ela deixou escapar um “Não”, mas já era tarde demais, eu já sentia o sangue dela nos meus lábios e na minha língua, era impossível parar, espetei ainda mais as minhas presas e o “Não” dela deu lugar a um leve gemido, estava a entrar em êxtase enquanto a vida dela se ia esvaindo lentamente, mas não podia beber muito mais aquele suco ou corria o risco de a matar. Deitei-a confortavelmente no sofá e com uma das minhas unhas fiz um corte no meu peito, baixei-me e deixei cair algumas gotas de sangue nos seus lábios que estavam já a ficar roxos. Uma, duas, três gotas e subitamente ela começou a movimentar-se por instinto à procura da fonte daquele prazer vermelho, eu baixei-me ainda mais e os seus lábios encontraram o corte na minha carne, ela abriu os olhos e ficou surpresa com o que estava a acontecer, mas a sede era mais forte e os seus caninos recém desenvolvidos cravaram-se no meu peito com toda a força. É impossível descrever o que senti naquele momento, nunca a mistura entre prazer e dor fora tão intensa, ela agarrava-me e desejava o meu sangue com tanta força que dum momento para o outro já estávamos em pé e as suas unhas feriam as minhas costas.
Tive que fazê-la parar porque agora era eu que corria o risco de ser morto, afastei-a com muita dificuldade porque ela começava a ficar mais forte que eu. Consegui devolvê-la ao sofá enquanto eu próprio caía enfraquecido sobre o tapete que decorava a sala. Olhei para ela e ainda fui a tempo de ver os seus olhos mudarem de castanho para verde, a transformação estava completa. Nesse momento veio-me ao pensamento uma música dos Moonspell que diz “she will kill, my child kills”.
Criei uma assassina, um monstro, a minha missão está cumprida.
Ela levantou-se, limpou o sangue que lhe escorria da boca com um movimento do braço e disse, com uma voz digna de um demónio:
- Quero mais…
- Vamos meu amor, vamos saciar a tua sede, a noite é nossa.



Estou no meio da rua, viro a cabeça para a esquerda…ninguém. E para a direita...vejo-a ao meu lado. Esta noite não caçarei sozinho.
Nuno Fernandes
Enviado por Nuno Fernandes em 18/07/2006
Código do texto: T196713
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Sobre o autor
Nuno Fernandes
Portugal, 36 anos
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