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Incidente em Vila de Fátima parte 7

7 - PEDIDO DE PADRE É UMA ORDEM MAS...
 
Vencida  a  batalha  contra Pereira por 10 a 0, todos de gol contra, Vieira sabia que ainda não ganhara a guerra e sentia a dureza das próximas lutas agora que falava pelo  telefone  com padre Emanuel, autoridade celestial na terra,  já quase nos braços do divino com seus quase 90 e tantos anos, cuja  voz, que parecia vir do além direto para o escutador, cobrava na orelha  cabeluda de Vieira, autoridade policial na vila, solução para o caso do anão enforcado.
Até onde Vieira sabia, que não ia muito além da primeira esquina, padres não costumam se preocupar com pessoas que furam a fila da vida e se atiram aos braços da morte antes da hora. Se cada um tem a ficha cadastral lá no arquivo do céu, é preciso esperar  chamada e, se acontece às vezes Dele perder um papel com o nome de alguém, como por exemplo a do padre Emanuel, mesmo assim, tem que esperar, pois nesse caso não prevalece a lei dos que chegaram primeiro à terra.
Aquilo só podia ser coisa do Pereira, safado, rábula de boa língua, que ao perder o tento para o povo, apelara logo para o representante de Deus na terra.
Vieira, católico praticante, de batismo, crisma, comunhão  e confissão, jamais recusara um pedido de alguém,  ainda  mais  de padre Emanuel a quem  tinha com grande apreço, mas desta vez havia a obrigação, a ética, a justiça, a necessidade da apuração da verdade.
Vieira, tem que tirá-lo da corda já, dizia o pároco, não é corda padre é lençol, retrucava Vieira, que seja barbante ou linha de pesca, não fica bem mantê-lo como dizem que está, eu sei, investigações, acima das investigações, Vieira, o humanismo, o humanismo. Esse, seu padre, não é um simples caso de suicídio, argumentava, houve um crime e o criminoso precisa ser localizado, punido, a punição de Deus, Viera, está acima de tudo, mas o homicida precisa ser ouvido, o fato esclarecido, para que nunca mais ocorra tal caso, não haverá delegado, Tico era o único anão da cidade, e se os motivos forem outros, e se o caso do cigano se repetir, e se foi um motivo político, e se alguma autoridade, quase falou no nome de Pereira, estiver envolvido e se, e se, e se... mas padre Emanuel também desfilava seu rosário de argumentos, falando do perdão, da justiça divina, até que delegado Vieira quase caiu no mesmo erro do vereador, falando: afinal padre, Tico nem à comunidade pertencia, nunca freqüentava as missas, alguma vez padre Emanuel tinha visto o anão na igreja, claro que não, primeiro porque padre Emanuel não enxergava um palmo à frente do nariz e outro porque o anão não freqüentava mesmo a igreja e mesmo que freqüentasse se perderia no meio dos gigantes, grandes em tamanho, duvidosos na fé, quem sabe seu padre se esse tal de Tico não era um...um comunista, um ateu, um herege que nem o caminho do  confessionário conhecia, batismo então nem se fala, mas conseguiu frear a língua a tempo. O  silêncio de padre Emanuel era sinal de que Vieira vencera pelo menos momentaneamente, mas o contra-golpe veio: Vieira, não importam os motivos seus, não é missão de pároco abençoar um suicida, é só uma questão de humanismo, tire-o de lá Pelo Amor de Deus.
Invocando o Todo Poderoso numa discussão, é covardia, não há quem não se entregue, mas Vieira foi salvo pelos gritos de cabo Solto, vindos da cela. Desculpe seu padre, alguma coisa deve estar acontecendo com o cabo que deixei para zelar o morto, desculpe mais uma vez  mas tenho que desligar e desligou indo ao encontro do cabo Solto, branco como cera. O que foi cabo Solto, está mudando de cor como se tivesse visto um fantasma? Quem muda de cor é camaleão, seu delegado, camaleão e o Tico que de preto está ficando branco, branco que nem algodão.
Eugenio Asano
Enviado por Eugenio Asano em 26/05/2005
Código do texto: T19899
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Sobre o autor
Eugenio Asano
Guarulhos - São Paulo - Brasil, 59 anos
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