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                          Quem não arrisca não petisca (*)




Quando entraram naquele local ainda não se conheciam. 
Ela pediu um café, abriu uma carta esticando os vincos do papel e lá se foram vários lenços descartáveis para colher o destilar dos olhos e nariz. "Por que Valdo fez isso?", pensava mais uma vez. Frase que repetia há dias, o coração trincado, enlutado. 
Ele pediu uma bebida, engoliu rápido, pediu outra e deixou seu olhar parado por um tempo, atravessando a vidraça meio embaçada naquela tardinha de outono. "Gente conversando nas calçadas, casais abraçados e eu sempre...".
Avenida São Luiz, plena agitação de fim de expediente. 

Ao buscar algo nos bolsos, ele a viu. 
"Chorando... Será que espera alguém?"
Deu um tempo, observando-a.
Com reservas aproximou-se.
Com reservas, ela aceitou sua companhia.
Nem entenderam como!

 
Quando os dois se sentaram frente a frente naquele canto de bar e ela enxugou as lágrimas e desandaram a falar de si, ela sentiu (ao menos parecia) que toda dor e problemas estavam resolvidos como que por milagre! Ele lhe prometeu um papel na peça ("Coisa pequena... Mas é uma boa produção, terão chance de vê-la e então..."), o contato com alguns amigos ("Pessoal simples, mas muito cordial. Vão gostar de você.") e um local melhor para morar ("É meio apertadinho, tá bagunçado, mas aos poucos vai-se ajeitando..."). 

Brindaram o encontro com tequila ("Experimente. O primeiro gole é de lascar, forte, mas depois...") e ela apertou sua mão, agradecida ("Você é um anjo, me caiu do céu."). 
Sorriram, já mais soltos e confiantes. 
Cúmplices como porcos-espinhos.
E o restante da conversa correu devagarzinho, as ideias sendo expostas timidamente mas com clareza, os desgostos amorosos repassados em comunhão, à moda de espelho, e ela ficou sem graça e agradecida quando ele se prontificou a pagar a despesa das tequilas e do salaminho com fritas ("Deixe disso, coisa pouca... Qualquer dia me convida e tudo bem."). 
 
Ao saírem ele fez questão de acompanhá-la até a pensão no Bixiga, por mais que ela insistisse que poderia ir sozinha, que não era tão tarde, que não havia nenhum perigo, que...("Imagine... um prazer. Alguns quarteirões só. A noite está bonita e é bom tomar um pouco de ar, esticar as pernas."). Ele lhe ofereceu sua malha porque havia uma aragem fria ("Não sou friorento. Carrego por hábito, para ter alguma coisa nas mãos. Timidez, sou tímido... E aqui em São Paulo nunca se sabe. O tempo muda a toda hora. Vá se acostumando...").
Riram descobertos, se descobrindo. 
       
Depois caminharam quase em silêncio, olhos baixos, não mais que um comentário aqui, outro acolá, ou um sorriso na ponta dos lábios quando pensavam em falar mas não sabiam bem o quê. Adolescentes grandes.
Ao chegarem, antes do boa-noite formal, ele limpou com seu lenço um pouco do rímel que enegrecia a sombra dos olhos dela e escreveu seu endereço numa folha de cheque ao meio ("Espere pelo Lapa; passa na avenida aqui ao lado e costuma vir mais vazio...").
Um beijo no rosto, com cifrada mensagem de espera.

- Sua malha!
- Depois me entrega.
("Gentil, muito gentil...", pensou, sentindo-se protegida.) 
Ela entrou no casarão sombrio com a certeza de que o moço lhe enxugara não o negro dos olhos mas o luto do coração. 

Três dias depois, à noitinha, mudou-se  para o conjugado dele. Trajava um vestido esvoaçante, estampa floral, os olhos sem qualquer traço de kajal. Vestira primavera em pleno maio.
 
[Eu sei, caro leitor... Não é todo dia que se assiste a um final feliz, no estilo dos filmes antigos, com letreiro de happy-end e generosas lágrimas de alegria brilhando nos olhos dos enamorados.
Mas na vida as coisas também às vezes dão certo, ganha-se, atestando que o improvável pode ser possível e que a dúvida pode tornar-se boa certeza. Enquanto durar. Menos pelo otimismo, mais pela necessidade de salvação.

Solidão, carência, passagem, amor temporário, loucura?
Irrelevante.

Amor é momento. Longo ou curto. Dura enquanto houver magia. Enquanto o sonho  for verdade.
Que mal há em arriscar?
Pegar ou largar também são riscos na mesma moeda lançada.
Dará certo?
E isso importa?]


Ele e ela voltaram ao bar muitas vezes.
Chamavam a atenção dos demais frequentadores pelos risos e mãos em afago.

Amor e dor podem ser apenas rima.

Não precisam ser casal. 


 

(*) Adágio popular italiano: " Chi non risica, non rosica".



                  
 
KATHLEEN LESSA
Enviado por KATHLEEN LESSA em 25/07/2006
Reeditado em 24/07/2015
Código do texto: T201844
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
KATHLEEN LESSA
São Paulo - São Paulo - Brasil
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