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O homem que matou Adolf Hitler

Parte 1 – Bem-vindos à Europa.


         Naquele dia, 28 de setembro de 1942, o sargento Clay J. Hunter, do 2º Pelotão de
Infantaria Blindada Norte-americana, acordou às quatro horas da manhã, vestiu sua patente, e aguardou pacientemente à frente do acampamento, em algum lugar no sul de Londres.
Quando o sol nasceu, surgiram na estrada de terra batida vinte caminhões, trazendo as novas tropas de recrutas. Estacionaram lado a lado. E deles, saltaram rapidamente os calouros, tratando imediatamente de formarem fileiras harmoniosas, e de um jeito frenético, como se suas vidas dependessem daquilo.
         Sargento Clay manteve-se parado como uma árvore, e com postura e atenção inabaláveis a qualquer coisa, observando discretamente seus futuros comandados. Por duas horas os jovens soldados mantiveram-se ali inertes ao tempo, sob a vigília de olhares famintos por carne fresca.
Depois da inspeção rotineira de cada um deles, e de passada a lista de presença – porque alguns recrutas costumavam se perder no caminho -, puderam relaxar sob as ordens dos superiores, e espalharam-se pelo pátio no centro do acampamento. Calado como uma rocha, Clay caminhou de um lado para o outro, segurando um copo de plástico transbordando café. Observou a sua direita um grupo de soldados discutindo sobre o tamanho das suas "armas” de combate. Mais à frente, três rapazes negros murmuravam entre si, e apontavam para um outro soldado branco, de aparência bizarra, que por sua vez evitava ao máximo a aproximação dos outros três. Terei problemas com estes aí, pensou Clay consigo mesmo.
Um pouco mais distante do que se chamava reconhecimento de território, Clay observou outro grupo maior de soldados. Riam alto e pareciam estarem se divertindo em servir ao seu país. Realmente, a maioria daqueles rapazes sentia um grande orgulho em honrar o sobrenome de suas famílias. Metade deles não voltará vivo para casa, divagou Clay, enquanto ainda observava aquele grupo extrovertido. Em atenção maior a um determinado jovem, que não tinha mais que vinte anos de idade, e se sobressaia aos demais pela sua presença que contagiava aos demais. Era magro, seu corpo esguio movia-se com energia, tinha os cabelos e os olhos negros, e cacoete talentoso para fazer piadas. Viria, a saber, o velho Clay, que o nome daquele garoto era Alex McDouglas, nascido em Detroit, mas criado desde os três anos de idade em Fênix, após o pai morrer de câncer, e de ir morar com a mãe e os três irmãos na casa dos avós maternos.
Desde a época do colegial, e isso Clay lembraria bem de investigar, Alex era popular, muito popular, e este era o tipo de pessoa que o sargento costumava tomar cuidado. Longos anos de serviço às forças armadas o fez constatar de diversas maneiras, que para ganhar a confiança de uma tropa deve-se se aliar aos populares, mas, se perder o controle sobre eles, é impossível manter-se no poder por muito tempo.

Ouve um pequeno alvoroço quando um grupo de jovens mulheres de vestido branco cruzou o pátio. Súbito, o sargento Clay virou-se para dois soldados que mexeram com as enfermeiras de maneira grosseira, e gritou com sua voz rouca e grave:
-Vocês dois, venham cá, agora! Passarão a noite descascando batata no depósito, e amanhã, escolheram arroz para o almoço da tropa. Entendido - eles concordaram imediatamente com a cabeça - Saiam daqui, seus infelizes.
E tão repentino quanto seu ataque de raiva, sargento Clay voltou a sua postura anterior, serena e concentrada.

Daquele momento em diante, ninguém nunca mais desrespeitou qualquer mulher naquele lugar.
Nos treinamentos que se seguiram nas semanas seguintes, Alex McDouglas esforçava-se em dar o melhor de si. Em pouco tempo, tornou-se referencia para os demais, e quando trabalhava em grupo, as equipes que fazia parte destacavam-se pela coordenação e união na realização das tarefas.
Alex demonstrava ser um excelente soldado e acima de tudo um bom líder.
À noite, quando não estava jogando pôquer ou puxando um baseado, Alex divertia-se me divertir seus amigos - que naquela época já não eram poucos. Arranjou uma namorada – mesmo já tendo uma noiva em Fênix-. Era uma das moças que se candidataram a prestar serviços às tropas. Como eram fogosas aquelas inglesas. De madrugada, no meio do mato, aconteciam freqüentemente namoricos entre eles, e em pouco tempo vários soldados começaram a imitá-lo. Fazer tudo que Alex fazia tornou-se moda. Os oficiais superiores sabiam dos encontros, mas não interferiam, afinal, alguns deles próprios faziam visitas freqüentes às moitas ao redor das cabanas, e muito bem acompanhados de figuras femininas, às vezes, diziam as más línguas, masculinas também.
Alex e seus companheiros bebiam antes e depois dos treinos – ilegalmente, contrabandeavam vodka dos poloneses refigiados.
Tinham a impressão de que a vida nunca fora tão agradável. Era excitante desfilar com fuzis nos ombros, uniformizados como homens de batalha. Nenhum deles era alguém na vida, e ali tinham a chance de ao menos imaginar que estavam fazendo algo de importante, ou que eram relevantes para alguma coisa.


Parte 2 – Cinzas das batalhas

Entretanto, em 19 de dezembro de 1943, após muito tempo daquela liberdade maravilhosa, longe do caos da guerra crua o major Kevin Willians convocou a tropa – poucos deles haviam sido convocados para missões de reconhecimento, e estes não voltavam, mas Alex e seus companheiros tornaram-se conhecidos como os intocáveis protegidos pelos oficiais superiores.
Mas algo diferente aconteceu naquela manhã. Ninguém iria para missão de reconhecimento, tampouco alguém ficaria de fora do que estava por vir.
Vestido como se estivesse à frente da linha dos canhões, o major disse:
-Senhores, eu peço um minuto da atenção de todos vocês - disse Kevin Willians aos oitocentos soldados reunidos no galpão, alvoroçados na expectativa de ir à combate.
-Silêncio, por favor - gritou o major Kevin – Escutem o que eu tenho a lhes dizer. Por ordem do presidente Franklin Roosevelt, sob a concordância da cúpula dos aliados, dentro de sete meses os Estados Unidos da América elaborará uma manobra decisiva na guerra, algo que mudará o rumo destas terríveis batalhas. Invadiremos as praias da França, para enfim, junto aos aliados Russos, iniciarmos o cerco a Berlim.
Silencio absoluto.
-Vocês ficarão sob fogo pesado em terras hostis. Pára-quedistas terão de se apresentarem amanhã mesmo, pois embarcaram antes da Infantaria, e atacarão a retaguarda alemã. Portanto, sejam breves ao arrumarem suas coisas. Nós e o povo americano confiamos em vocês, rapazes, a vitória será nossa custe o que custar. Darei dez dólares para quem me trouxer a cabeça de Hitler em uma bandeja.
O galpão quase veio abaixo com o grito de urra dos militares. Alex sentia-se como uma criança que finalmente soube que o natal chegou. Comemorava com os outros a tão bem chegada missão.

Já no lado de fora, o sargento Clay surgiu à frente de Alex, o puxou pelo braço para um canto onde ninguém podia vê-los.
-O que houve, senhor, algum problema? – perguntou Alex.
-Arranjei um jeito de você ir na segunda leva que desembarcará na Normandia. Não fique na linha de frente das barcaças - disse Clay com a voz tenebrosa como nunca Alex o vira antes.
-Como assim?
-Vocês irão desembarcar em praias infestadas de alemães – continuou ele, olhando para os lados, o rosto sombrio - Os que estiverem na frente morrerão antes mesmo de saltarem das embarcações. Abaixe a cabeça na altura dos joelhos quando ouvir os primeiros tiros, então pegue sua arma, largue qualquer bagagem de lado, e tente sair de dentro da água o mais rápido possível.
-Tenho que avisar aos demais...
-Não – gritou o sargento, e logo abaixando novamente o tom de voz - Fique de boca calada, apenas faça o que eu disse e tudo terminará bem para você.

Clay deu as costas e partiu apressado. Alex ficou se perguntando por que Clay havia dito aquilo justo para ele? E porque daquela decisão dos Estados unidos e da Inglaterra tão repentina? Seria pressão dos Russos? Alex ouviu as noticias das pressões de Stalin para que os aliados entrassem definitivamente em território europeu ajudando o Exercito Vermelho.
Dois dias depois, Alex viria, a saber, do colega David Thurman parte do plano:
-Nos, os pára-quedistas, saltaremos na madrugada do dia 5 para o dia 6, atrás das linhas alemães, e cortaremos a comunicação deles com o interior.
-Ralf, Ross e Mac irão na primeira leva.
-E você? – perguntou David.
-Eu irei aguardar nos navios. Se eles fracassarem, então meu grupo entra em ação.

Mesmo que quisesse salvar seus amigos, Alex ficou quieto como lhe foi ordenado. E sem perceber quando e como, uma torrente de medo e angústia tomou seu coração. Contudo, Alex não tinha receio de morrer, mas sentia um aperto no peito toda noite. A raiva que sentiu quando imaginou as tropas alemãs alcançando a América e matando americanos lhe fez mal como um vírus destruindo sua compaixão.
O Dia D chegou. Alex tem lembranças vagas daquele momento crucial – e fatídico- da guerra, incluindo uma longa cicatriz na perna atingida por uma faca, depois de ele travar uma luta contra um soldado alemão.
As 6h30 da manhã do dia seis de junho de 1944, Alex avistava a praia de Omaha, na costa francesa. Com a água do mar batendo nos joelhos, Alex atirava com seu fuzil contra os inimigos. Abrindo caminho em meio aos corpos de canadenses, ingleses e de seus conterrâneos mortos, Alex se perdeu da sua tropa. Nenhum dos seus amigos sobreviveu.
Mesmo após ter sido ferido, Alex não voltou para casa, e por ordens dos seus superiores. Não se acharia outro igual a ele. Alex era insubstituível. Ele começava a achar que a maquina de guerra de Hitler e Mussoline duraria para sempre, e ele só voltaria para casa dentro de uma caixa de madeira.

Mas em pouco tempo a noticia de que os russos alcançaram à Alemanha, e a de que a Itália já ameaçava a rendição ecoou por cada guarnição americana.

Em 1945, Alex foi chamado ao gabinete do Capitão Michael Blanc.
-Você treinará com a Força Especial Inglesa. Você e mais cinco soldados americanos, acompanhados pelo sargento Clay Clinton.
-A que devo a honra senhor? - perguntou Michael alisando a barba espessa que cobria seu rosto austero pelos anos de batalha – Pensei que a vitória fosse questão de tempo, e que meus serviços já não seriam necessários. Imaginava voltar para casa em breve.
O Capitão debruçou na mesa e murmurou para ele:
-Preciso de um último favor seu, soldado. O nome da missão é Captura dos Vermes.
Alex permaneceu escutando com atenção ao capitão.
-E consistirá em invadir o QG do Führer e traze-lo, para que ele possa beijar o chão da Casa Branca. Essa missão é sigilosa, Alex, e somente uns poucos afortunados foram escolhidos para realizá-lo. Claro que, se bem sucedida, toda a tropa ficará para sempre lembrada na história do nosso país… ou melhor, na história da humanidade.
-Compreendo senhor – disse Alex – Será uma honra servir ao meu país uma última vez.


O plano era complexo, mas de possível realização. Os Alemães estavam sendo massacrados. Suas casas estavam sendo saqueadas. Assassinatos e estupros dominavam a capital. Trinta homens seguirão pelos becos da capital Berlim até a cidade de Noremberg. Percorrerão doze quilômetros ao sul, evitando mais duas cidades e tropas inimigas. Disfarçados ora de moradores locais, ora de soldados alemães, não portarão malas ou levarão tanques consigo. No mais, tinham comunicação direta com dois porta-aviões por onde pediriam auxilio aéreo no cerco a Hitler. A CIA descobriu o esconderijo do ditador alemão, e guardava a sete chaves esta informação. Um dos generais de confiança de Hitler o traiu e tornou-se a fonte direta dos aliados.
Alex se preparou por três semanas para o evento que colocaria seu nome na história da humanidade, conforme garantiu o capitão Blanc. Antes de se juntar a aos ingleses, Alex escreveu uma carta para a família contando em detalhes o que aconteceria em breve.
Quando se despediu do major Kevin, este lhe entregou uma nota de dez dólares:
-Eu cumpro minhas promessas. - disse Kevin sorrindo - Me deixe orgulhoso, garoto.

Alex guardou a nota no bolso, pôs a mochila nas costas, e partiu para sua última missão na Europa.


Parte 3 – Captura dos Vermes
   
Não há o que temer, dizia Alex parta ele mesmo, caminhando no meio da escuridão na cidade de Noremberg. É só o fim do holocausto. Quem liga para isso. É bastante responsabilidade, mas está sendo carregada nas costas de mais vinte e nove homens.
Era com uma comicidade perversa que o sargento Clay observava Alex tentando se acalmar.
-Acalme-se, garoto – disse o sargento, em uma das duas vezes que dirigiu a palavra a ele – Você não é imprescindível parta a missão. Se morrer, o mundo continuará girando.

A segunda oportunidade que Clay arranjou para dirigir a palavra a Alex foi após três dos trinta integrantes da equipe morrerem na explosão de uma bomba em frente ao Parlamento.
-Corra, garoto, corra – gritou ele, enquanto Russos e Alemães faziam Berlim tremer.

E mesmo com mais duas baixas ao longo dos dias – os soldados se perderam e não estava no cronograma retornar para resgatar ninguém – a Captura dos Vermes continuou sua empreitada. Doze quilômetros foram percorridos com frenética correria. E, quando atravessaram o morro que separava-os do seu destino, a tropa se viu diante das ruínas do que já foi um grande palacete.
Eles acamparam pelas redondezas no fim da tarde, aguardando a madrugada para agir. Alex estava com medo, e ele não sabe se foi isso que o fez escutar gritos de pessoas à beira da morte, embora não houvesse ninguém ali perto. Alguém brincou com Alex dizendo que eram fantasmas de pessoas inocentes que a guerra matou. Alex não achou graça.
Repassaram o plano. Explodiriam aquelas ruínas com suas dinamites, pois Adolf Hitler e quem quer que estivesse com ele estava naquele momento num bunker debaixo da terra, em um complexo subterrâneo. Quatro deles ficariam nas trincheiras dando retaguarda. Clay ficou encarregado de seguir adentro pelo complexo, à procura do Führer, com mais alguns homens.
Alex portava um fuzil ak-47, sete granadas de mão, duas facas, um comunicador, e uma goma de mascar venenosa. Caso fossem pegos, eles colocariam a goma na boca e após alguns segundos mastigando-a morreriam.

Às duas horas da manhã as dinamites explodiram. Trinta segundos depois ele invadiram o complexo, entrando pela cratera que se abrira no chão. Alex correu bastante, ouvindo gritos pelos corredores. Correu, correu, até encontrar-se em um corredor escuro em silencio absoluto.
Caminhando lentamente, ele apontou o fuzil para os lados. Com o colete molhado de suor, ligou sua lanterna. Dois oficiais alemães estavam quase se esbarrando nele. Os inimigos sacaram as armas, mas Alex os matou rapidamente. Assustado, correu até a primeira porta que achou. A explodiu com uma granada, tateou as paredes e encontrou um interruptor. A luz se ascendeu. Alguém estava atrás da mesa em um dos cantos da sala.
-Onde ele está? – perguntou Alex para a secretária. Mas a mulher, tremendo como se estivesse com muito frio, nada disse – Responda, mulher, responda!
A secretária se levantou, tirou uma arma da gaveta e atirou contra a própria cabeça.

Alex ignorou o fato. Avistou outra porta entreaberta. Caminhou lentamente até tocar na maçaneta. Abriu a porta. Uma luz de vela iluminava muito mal o quarto. Havia uma escrivaninha no canto direito. Quadros belíssimos espalhados pelas paredes e um violoncelo ao lado da cama. E sobre a cama, estava um homem, de baixa estatura, um bigode cafona e os cabelos lisos bem penteados. Alex, sentindo suas mãos tremerem disse.
-Levante as mãos, seu desgraçado – disse Alex, desta vez num alemão sem sotaques.

Capítulo 4 – Cara a cara


Adolf Hitler vestia seu uniforme militar. Segurava numa das mãos um vidro de cianureto e na outra um revólver calibre trinta e oito. Ao seu lado jazia o corpo de sua recém esposa Eva, e o do seu cachorro, ambos envenenados por Hitler, que se preparava para fazer o mesmo com ele próprio.
-Não! – disse Alex assustado – Largue isso no chão, agora! Vamos, largue!
Adolf Hitler tinha o rosto parcialmente coberto pelas sombras, mas seu olhar brilhava ao crepitar da vela.
-Não faça isso – disse Alex ofegante – Fique parado.
Hitler soltou um meio sorriso como quem diz: “mas eu estou parado”.

Alex olhou para o cachorro esticado sobre a cama. Deu um passo adiante. Hitler não se moveu, mas disse algo em alemão que Alex não compreendeu. Hitler apontou a arma para o soldado americano.
De repente, Alex ouviu o som de um assobio, e Hitler, atingido por algo no peito, caiu no chão. Alex olhou para a própria arma, duvidando que tivesse feito aquilo. Mas atrás dele, surgiu como um fantasma, o sargento John.
-Você o matou – disse Alex alarmado.

John caminhou até Hitler com calma, e pacientemente, agachou-se ao seu lado. Soltou um sorriso mecanizado, olhou para Alex, e disse:
-Tranqüilizante. Quando acordar, ele vai sentir formigamento no local atingido e uma dor de cabeça dos diabos, mas vai ficar bem – completou John, dando tapinhas carinhosos na barriga de Hitler.

John o pôs nos ombros como se fosse um saco de areia, e se dirigiu a porta do quarto. Alex o segurou pelo braço:
-O que vai fazer? Para onde o senhor o levará sargento?
-Reporte-se ao Coronel Willard, soldado – ordenou John com rispidez.
-Mas...
-Não ouviu o que eu disse? Vá imediatamente.

Alex saiu do complexo calado e atônito. Juntou-se aos outros soldados. Pensou que estivesse lá dentro há dias, pois jatos ingleses já sobrevoavam o local, e nenhum inimigo mais oferecia qualquer ameaça.
Sentado no chão ele permaneceu até o amanhecer. Não viu mais o sargento John nem o Coronel Willard. Nunca mais ouviu falar de qualquer membro da Força Especial. Em vinte e quatro horas estava em um avião voltando para Fênix.

Parte 4 - À volta para casa

Chegando de viagem, a primeira visão que Alex teve foi da modesta casa onde morava. Parecia igual há de quando ele partiu. O balanço de madeira que Alex fizera para os dois irmãos mais novos - Harry e Britney - estava no mesmo lugar, entre duas árvores no quintal. Harry tinha 4 anos e Britney 6 anos no início da guerra em 1941, agora teriam 8 e 12 respectivamente. Tempo que passa e não volta.
Meio hesitante Alex subiu os dois degraus da varanda, abriu a maçaneta e cruzou a porta. Olhou para os lados, e chamando pela mãe, caminhou até a cozinha. Ela na certa estaria fazendo o almoço. Mas nem cheiro de comida havia. Então, ele caminhou até a sala de jantar. Lembrava-se, a cada móvel que via, de uma história qualquer.
Alex saltou para trás quando ouviu o grito: "Seja Bem-vindo Alex". Teve o instinto de levar a mão nba cintura em busca de uma arma qualquer. Mas, quando viu sua família, todos de braços abertos, faixas, cartazes e balões espalhados pelas paredes, desatou a chorar.

O almoço de recepção foi um daqueles eventos que ficam na memória. Muita comida, bebida, gente rindo, amigos e parentes conversando e ouvindo de Alex histórias da guerra.
Os avós compraram os jornais daquele dia. Alex, sentado na poltrona, teve o colo coberto pelas edições que traziam noticias do fim dos conflitos.
-Veja, meu filho, estão falando da campanha americana - disse a mãe, transbordando felicidade - Como estou orgulhosa de você, e de todo o esforço que você fez pelo nosso país. É um sonho - disse, apertando a bochecha de Alex.
-Realmente, garoto - disse o avô – Seja bem vindo, herói.
A noiva de Alex, uma jovem magricela e com jeito de caipira, deu-lhe um beijo na bochecha, e disse:
-Você é um verdadeiro herói. Arriscou a sua vida por todos nós. Machucou-se muito?
-Não, não...
-Tem certeza?
-Acidentes de trabalho, nada mais – disse Alex sufocado pelas perguntas, que continuaram por toda tarde.

À noite, com mais calma, Alex sentou-se na cadeira de balanço na varanda, os pensamentos perdidos na chuva que caía. O avô acabou de jantar e foi até a varanda, e fumando um charuto, puxou assunto:
-Olhe que coisa estranha. Dizem que ainda há regiões com conflitos. O Japão não se rendeu. Mas até a maldita Itália já se deu por vencida e declarou guerra à Alemanha - ele riu com desdém - quem te viu quem te vê, hein? Mussolini foi pendurado de cabeça parta baixo em um posto de gasolina, junto com a amante. Tomara que Hitler tenha o mesmo destino maldito. Agora que já sabemos que ele se matou.
-Quem disse isso? - perguntou Alex, subitamente curioso.
-As notícias, filho, as notícias.
-É mentira.
-Tomaram que ele vá para o inferno - vinha à mãe da cozinha entrando na conversa - monstros como ele deveriam sem banidos do reino do céu.
-É mentira, ele não morreu. - disse Alex, ignorando a mãe.
-Como assim filho? - perguntou o pai.
-Ele não morreu.
-Mas...
-Eu vi, está bem, ele não morreu.
-Mas, filho, eu sei que você estava lá na Europa, mas não acredite em boatos...
-Não são boatos.
-Ele foi um verdadeiro monstro - continuava a mãe a tagarelar - dizem que foi abusado sexualmente pelo pai quando era criança, uma coisa horrível, mas isso não justifica todos os seus crimes, não é verdade? Já ouviram essa história? Terrível. Hitler era fruto do romance que o pai teve com a própria sobrinha. Com cinco anos, Hitler o matou envenenado, nem posso imaginar uma atrocidade destas. Eles eram sangue do próprio sangue, meu Deus. E depois, já adulto, se vingou das maldades da vida estuprando sua sobrinha... como uma vingança sem fim.
-Fique calada, por favor... - esbravejou Alex com rispidez - Diga logo - se virou para o avô - de onde vem a fonte que diz que ele se matou.
-Eu... eu não sei - disse o avô paralisado – O jornal informou…
-Ele se matou como?
-Acho que envenenado, outros dizem que deu um tiro na cabeça.
-Mentira... - disse Alex, pegando um casaco e saindo da casa apressado.

Vinte minutos depois, lá estava ele, ao lado do melhor amigo, Alberto Gomez, um mexicano naturalizado americano que, após um acidente em corrida de moto, ficou paraplégico.
Era a primeira vez que eles se encontravam desde o retorno de Alex.
-Você parece incomodado - disse Alberto - pensei que iríamos passar a noite bebendo cerveja no bar do Cage, mas cá estamos - ele olhou a sua volta, estavam de frente a uma padaria - olhando para os pães mofados do Wilson.
Alex estava inconformado.
-Se abre pra mim cara - disse alberto, bebendo cerveja no gargalo - Diz aí, ficou meio traumatizado depois da Europa?
-Não. Estou confuso, Alberto - disse Alex - muita coisa aconteceu, e eu já não sei o que pensar do nosso governo. Vi tanta coisa errada, de ambos os lados, que já não confio mais em ninguém.
-Que isso, cara, não confia em mim?
-Não é isso, eu não acredito mais no nosso sistema.
-Dane-se o sistema. Que esse políticos idiotas apodreçam no próprio mijo. Você foi pra guerra pra matar alemães podres, não foi porque o presidente aleijado pediu. Ninguém no governo presta. Nossos líderes não são muito melhores que os nazistas.
-Mas eles escondem coisas do povo, Alberto - disse Alex - Coisas importantes demais para permanecerem obscuras.
-Como o que?
Alex encarou Alberto com grave seriedade.
-Eu participei de uma operação chamada Caçada aos Vermes. Tem que acreditar em mim. Fomos divididos em dois grupos, que tinham a missão de derrubar do poder Mussolini e Hitler. Eu fiz parte da equipe que foi até Berlim, e após invadirmos o esconderijo de Adolf, eu fiquei frente a frente com ele.
-Ele quem?
-Hitler, ora bolas. Evitei que ele se suicidasse, mas o sargento John apareceu e me mandou para o lado de fora, e levou Hitler com ele. Eu nunca mais vi nenhum dos dois, fiquei incomunicável até o dia seguinte, quando já fui mandado embora. Interceptaram uma carta que eu escrevi para a minha família descrevendo o plano. E de um jeito estranho, sem burocracia, sem despedidas, como se fosse algo inteiramente normal me colocaram num avião.
Os dois amigos ficaram se olhando por alguns segundos, até que Alberto, se dobrando de tanto gargalhar, disse:
-Perde o amigo, mas não perde a piada. Esse é o nosso velho Alex.
Alex se levantou, e sério, disse:
-Mas é verdade.
-Amigo Alex, diga que está brincando? Vai contar isso para os seus parentes?
-Sim.
-Quando.
-Agora mesmo.
-Então me deixe ir com você. Não quero perder a oportunidade de vê-lo se passar por otário.

E naquela mesma noite, Alex reuniu seus avós, a mãe, Britney, Harry, a noiva, o vizinho Willian - grande amigo da família - e é claro, Alberto, guardando o riso.
Todos reunidos com expectativa. A noiva, achando que iria marcar a data para o casamento, tinha os olhos marejados. A mãe, achando a mesma coisa, já planejava as festividades.
-Gente, eu tenho que dizer que vocês são as pessoas que eu mais amo neste mundo - começou Alex, sorrindo - então, crendo eu que vocês, além de ficarem orgulhosos, vão me apoiar incondicionalmente, eu resolvi dizer-lhes algo realmente importante.
-Pode dizer, querido - disse a noiva.
-Eu capturei Adolf Hitler em uma missão secreta do nosso governo. E sei que ele está vivo, pois eu o impedi de se suicidar. Então, posso dizer que graças a mim, a guerra não foi em vão. Ele poderá ser julgado pelos crimes que cometeu.

Silêncio absoluto das pessoas naquela sala - embora Alberto gargalhasse.
Alex, abrindo os braços, aguardando no mínimo os parabéns, perguntou:
-E então, não vão dizer nada?
-Bem, rapaz… - disse o avô - Está querendo dizer que você matou Adolf Hitler?
-Não, eu disse que o capturei.
-Mas o jornal disse que ele morreu.
-Morreu nada - irritou-se Alex - não acreditem nessa calúnia.
A noiva  deixou as lágrimas da decepção escorrerem pelo rosto.
-Querido - disse a mãe - tem certeza que era isso que você queria nos contar?
Alberto continuava rindo sobre a cadeira de rodas.
-Não acreditam em mim certo?
-Não é isso - mentiu o avô - achávamos que você iria propor a sua noiva em casamento.
-Eu acabo de concluir o maior feito da humanidade... e vocês pensando em casamento. Eu não vou me casar com essa magricela.
A noiva, arregalando os olhos, saiu correndo pela porta chorando. Ainda rindo, Alberto também se retirou.
-Valeu, Alex, um abraço, cara. Quando for dar mais um show desses, me convida hein.
-Filho, vá atrás dela - disse a mãe, quase chorando também.
-Rapaz, nós vamos conversar - disse o pai. Britney e Harry também riam, até que a avó os mandou dormirem.
-Eu não irei conversar com ninguém - disse Alex - Eu vivi essa situação, eu estive lá, eu fui testemunha.
-Ora, então prove - disse Britney subindo as escadas – Você ficou maluco. Eu disse para tomarmos cuidado, mamãe. Oito em cada dez soldados voltam com distúrbios da guerra.
-Vão vocês para o inferno - disse Alex, indo para o segundo andar.

Parte 5 - Encarcerado

Alex sentiu-se sozinho, abandonado. As memórias daquele dia tão especial - especial por diversos motivos - não poderiam ter sido imaginação da sua cabeça. Ou poderia? Foi tudo tão real. A guerra foi real, ela sim aconteceu, e Alex esteve lá. Ele era um sobrevivente.
No dia seguinte, quando Alex acordou, caminhou pelo corredor do segundo andar disposto a apagar o mal entendido do dia anterior. Afinal, seus familiares não eram obrigados a acreditarem na sua historia. Ninguém sabe de verdade como foi o holocausto, só quem esteve lá. Ele guardaria aquelas memórias no fundo do peito, sem nunca mais voltar a revivê-las.
  Disposto a acertar tudo, ele caminhou até a sala. Mas antes de descer as escadas, ouviu seus avós e a mãe conversando com alguém na sala. Um homem, de voz idosa, dizia:
-É normal que muito jovens se sentiam assim.
-Mas, doutor - Alex identificou a voz como sendo da mãe - Ele pode ter batido com a cabeça, ou algo parecido? Eu temo pela saúde do meu filho.
-Senhora - disse o doutor, pacientemente - Conforme eu disse é compreensível os soldados voltarem dos campos de batalha sofrendo de transtornos mentais, como crise de identidade, fobias exóticas, mania de perseguição ou fantasiar momentos que não foram vividos de verdade, como é o caso do jovem Alex McDouglas.
-Mas doutor...
-Silêncio, minha filha. - Alex agora identificava a voz do avô. Descendo até a metade da escada, e aproximando-se mais, pôde vê-lo se ajeitando na poltrona - Responda-me com, sinceridade, doutor, pois eu não sou homem de conversa fiada, e quero saber de tudo: meu neto está ficando louco?
Alex segurou a exclamação. Como era possível que eles estivessem pensando tal besteira?
-Não, é possível que não - respondeu o doutor com a arrogância de quem sabe muito - Como eu disse é uma anomalia cerebral devido a transtornos derivados do alto estresse que acarretou os anos do holocausto. Seu filho é um herói. Ferido, mas ainda sim um herói.
O doutor se levantou e se despediu dos pais de Alex. Antes, indicou que eles levassem Alex para seções de terapia, que ele mesmo se propôs a fazer.
-E acreditem em mim, ele não matou Adolf Hitler. Todos já sabemos que aquele bastardo se matou, aquele louco - e rindo como se tivesse contado uma piada, o doutor se foi.
Alex queria descer as escadas e quebrar a cara daquele petulante. Voltou para o seu quarto enraivecido, ouvindo os avós se perguntarem "ele acha que matou Hitler?".

Alex se trancou no quarto e ali permaneceu por dois dias. Não quis mais falar com ninguém. Não atendeu ao chamado da noiva.
O avô bateu na porta no terceiro dia de reclusão.
-Rapaz, abra para mim, eu quero conversar. Estamos todos muito preocupados. Não nos leve a mal. Eu sou seu amigo, lembra?
A porta se abriu. Alex surgiu. O pai deu um soco no seu braço de leve.
-Isso aí, garoto, vamos descer, sua menina está te esperando.

Na sala, a noiva de Alex o beijou, e perguntou se tudo estava bem. O avô, mandando a mulher fazer um belo almoço de domingo, deu o caso como encerrado. E eles comemoraram realmente o fim da guerra como tinha de ser.
Um dos irmãos de Alex lia o jornal que exaltava a campanha dos ianques em solo Europeu, creditando o sucesso à coragem das tropas. Mas, na primeira página, a manchete "Hitler Dead", fez com que Alex levanta-se do sofá, derrubando copo e prato no chão, e gritasse:
-Ele não morreu, ele está vivo.
-Calma, meu filho - disse a mãe.
-Como calma? – gritou Alex - Como vocês aceitam essa mentira. Me dá esse jornal.
Alex puxou da mão do irmão e leu o que dizia. A reportagem afirmava mais uma vez que o líder alemão havia se matado e os militares procuravam pelo seu corpo.
-Não é verdade, nós o capturamos, não é verdade.
Alex suava e tremia. O avô tentou acalmá-lo, mas Alex lhe deu um safanão.
-Filho, você não o matou.
-Mas eu não disse que o matei, só disse que ele foi capturado.
A noiva o abraçou gentilmente e o fez se sentar. Alex estava atônito. Bebeu um copo de água trazido pela mãe. Mas, logo se levantou novamente, e disse:
-Vou provar que eu falo a verdade.
Alex subiu as escadas em polvorosa. Pegou suas finanças, as jóias da mãe, e saiu com a roupa do corpo. O avô e os irmãos tentaram segurá-lo. Alex, mais nervoso que nunca, gritou já longe:
-Se precisar, irei ao Pentágono provar que estou certo.

E ao Pentágono ele foi. Gritou, esbravejou, bateu em dois policiais, chamou a atenção da imprensa, e em dez minutos já estava preso.
No dia seguinte uma nota do jornal The New York Times dizia: "Rapaz enlouquece no pós-guerra"

Alex acordou. Seu corpo doía. Apanhara muito dos policiais e dos médicos. Ainda estava com a camisa de força, deitado em um quarto escuro sem janelas, trancado por uma porta de ferro. A cama e o vaso sanitário eram de concreto, e não havia mais nenhum objeto ali dentro.
-Tirem-me daqui, exijo que me tirem daqui - gritou Alex com a cara colada na janelinha da porta.
Outros pacientes começaram a gritar também, abafando o apelo de Alex.
-Tirem me daqui, seus desgraçados
-Eu não sou louco, sou presidente da Guatemala.
-Eu fui Napoleão.
-E eu irmão de Napoleão.
E as vozes se misturavam.

Dois homens de jaleco branco e pranchetas na mão se aproximaram. Alex não conseguia vê-los, mas ouvia seus passos.
-Como pode ver doutor Adams - disse o diretor Cristian Javiel - O Manicômio Nacional Alfred Rufles passou pela reforma administrativa após a morte do presidente Roosevelt. E eu posso garanti-lo de que eu colocarei os pingos nos 'is' durante minha regência.
-Assim espero.
-Senhores, senhores - Alex disse, interrompendo o passeio dos dois homens - Por favor, me ajudem, deve ter havido algum engano. Eu sou Alex McDouglas, soldado do sexto pelotão da Infantaria Blindada, integrante da operação Caçada aos Vermes. Eu não sou louco. Eu não deveria estar aqui.
Os dois doutores continuaram andar, rindo educadamente um para o outro.
-Esse é um dos novos pacientes. Pensa que matou Adolf Hitler.
-Talvez ele tenha razão - disse doutor Adams rindo ironicamente – Afinal de contas, nenhum desses homens e mulheres deveria estar aqui.
-Esperem… eu não sou louco! Acreditem em mim! Eu não sou louco, sou integrante da operação Caçada aos Vermes. Eu não sou louco - a voz de Alex se perdeu nos corredores, misturando-se novamente com a dos outros pacientes.

Durante seis meses Alex permaneceu confinado na sua cela. Podia ir ao pátio do manicômio três vezes por mês. Quando a família venceu a vergonha de ter um filho problemático, foi visitar Alex.
Divididos por uma parede de vidro, o avô e a mãe de Alex sentaram-se em duas cadeiras. Em trinta minutos, dois guartdas o trouxeram. Desamarraram a camisa de força. Alex estava barbudo, com os olhos esbugalhados, não tinha uma fisionomia cansada, mas parecia estar corcunda.
A mãe pegou o telefone, pôs no ouvido e aguardou Alex fazer o mesmo. Mas ele não se moveu. Constrangidos, eles aguardaram alguma reação de Alex. O avô bateu no vidro chamando sua atenção, mas de nada adiantou. Até que um dos guardas pegou o telefone e segurou próximo ao ouvido de Alex.
-Oi, filho... - disse a mãe.
-...
-Oi, rapaz - disse o avô.
-...
-Eu trouxe frutas, filho - disse a mãe mostrando um saco de supermercado - e noticias do pessoal lá de casa.
-...
-Sua ex-noiva - disse ela encabulada - casou com um fazendeiro lá do Texas. Mas mandou lembranças. E seus irmãos, cada vez mais agitados, como você, não param de aprontar, estou exausta - ela tirou um pedaço de papel da bolsa - Recebemos uma carta, acho que é de um amigo seu, um tal de sargento John, perguntando como você estava - tirou da bolsa agora um pedaço de jornal - Escute: "finalmente descobriam onde está a ossada de Hitler. embora os russos neguem, há boatos de foi feita uma autópsia em dois corpos achados pelo exército vermelho que comprovam ser do Führer e de sua amante, Eva".
Alex levantou o rosto. Sua fisionomia antes esbelta mudou para a de um maníaco, e seus olhos dissecaram a folha do jornal.
-Vamos pescar quando você receber alta. – disse o avô - O que você acha?
-... eu.
-O que? - o avõ perguntou. Alex chegou mais perto do vidro.
-Eu...
-Sim, diga, meu filho.
-Fui eu.
-Sim - disse a mãe animada com aquela demonstração de comunicação do filho.
Alex se levantou, chegou perto do vidro, e mostrando um sorriso doentio, começou a gritar.
-Fui eu, eu matei Adolf Hitler, eu matei Adolf Hitler, eu matei Adolf Hitler – vociferava, batendo no vidro violentamente.
Os guardas correram para prendê-lo novamente na camisa de força. O avô abraçou a mãe, que chorando, se afastou.
-Eu matei Adolf hitler, fui eu, vejam o sangue nas minhas mãos. Eu matei - gritava Alex se debatendo, sendo levado de volta a sua cela.

O sargento John reapareceu e o visitou algumas vezes, e na última visita que fez, foi ao escritório do diretor.
-E depois de todos estes anos, ele realmente perdeu o dom de se comunicar?
-Sim - respondeu o diretor - Já fazem seis anos que Alex está aqui. Sua família não o visita há cerca de três anos ou mais. A única coisa que Alex diz, quando lhe fazem qualquer tipo de pergunta, é a de que ele havia matado Adolf Hitler.
-Posso dar um telefonema - pediu John gentilmente.
-Claro, fique à vontade. Irei até o refeitório falar com uma das cozinheiras. Daqui a pouco estarei de volta.

Sargento John discou alguns números no telefone. Esperou a secretária atender.
-O General Richard Spacey, por favor.
-Quem eu devo anunciar senhor? - perguntou a secretária gentilmente.
-John Carter.
-Um momento, senhor.
Sem demora, o general atendeu.
-Serviço feito, John?
-Correto, senhor - confirmou John - Este foi último dos agentes de campo.
-Ele está tomando a medicação que mandamos para os médicos receitarem?
-Sim.
-E... ?
-A cabeça dele entrou em parafuso. A Caçada aos Vermes está para sempre enterrada nos porões da história.
-Tem certeza de que não seria melhor mata-lo? - perguntou o general com a voz sombria e cautelosa.
-Não será necessário - disse John - E fico satisfeito, pois Alex sempre foi um bom garoto.
-Ótimo - disse o general, após uma longa pausa - Volte o quanto antes. Temos uma Guerra Fria pela frente.
-Sim, senhor.

John Carter não aguardou o diretor retornar. Pôs seu chapéu, entrou em seu carro, e desapareceu na esquina do Manicômio Alfred Rufles.


Daniel Gonçalves
Enviado por Daniel Gonçalves em 07/08/2006
Reeditado em 08/08/2006
Código do texto: T211420
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Sobre o autor
Daniel Gonçalves
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 32 anos
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