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A MONTANHA

Naquela noite ventou tanto que parecia que o mundo acabaria no sopro imenso e assustador, que fez com que as telhas das casas tremessem como folhas secas de sede e saudade dos dias de chuva.
E antes que terminasse o uivo do vento cortando o casario e as copas nuas das árvores, uns pingos de chuva cairam graúdos nos primeiros langores da noite. Caíam como se fossem frutos verdes, tamanho o seu barulho nas telhas de barro vermelho. O vento acalmou e parecia que fora enfim aplacado pela chuva  torrencial e pela escuridão enfermiça da madrugada, até que um frio e um silêncio descomunal se instalaram no coração da cidade. Fez de fato muito frio e uma bruma obscurantíssima. Creiam: aquela noite durou três dias inteiros! Três dias e três noites, fazendo parar os relógios e despertadores do mundo. Mas repentinamente a Terra reagiu e deu mostras de não ter ainda acabado, porque a luz do sol começou a degelar o coração das almas que viviam naquela vila esquecida pelo resto da humanidade.
Ruth estava ajoelhada aos pés do oratório, quando percebeu que o sol lançava uns lampejos fracos, filtrados pela gaze da cortina do velho janelão colonial. Benzeu o corpo com o sinal da cruz e agradeceu a Santa Bárbara por ter escapado daquela estranha tormenta. Correu para o quintal para ver o estrago causado pela fúria do vento e da chuva, desconfiada que suas galinhas deviam ter fugido ou morrido no aguaceiro, pois não ouvira nas últimas setenta e duas horas nem o piar dos pintos, nem o cacarejar das galinhas ou o cantar do galo. Estava tudo silencioso como um túmulo.
Abriu a porta dos fundos e quase caiu de costas quando  viu o que ocorrera: Uma montanha gigantesca havia sido plantada no seu quintal. Ruth não queria acreditar, mas olhando para o alto, podia ver que a montanha além de verdadeira, era altíssima e que até neves eternas continham no seu cume.
Sua primeira reação foi o assombro e o espanto. Logo, logo, porém, esses sentimentos foram transmutando em uma indignação e uma revolta surda que a fizeram chorar, completamente atormentada e confusa.
Onde estariam as quinquilharias guardadas sob o telheiro que havia no fim da murada da casa? E a horta? Onde foram parar as jaboticabeiras plantadas pelo avô há cinqüenta anos atrás? Ruth amaldiçoou aquela montanha que soterrara o galinheiro e consumira com o seu varal.
Voltou para dentro de casa e novamente ajoelhou-se diante do oratório, a quem sempre recorria nos grandes e pequenos problemas domésticos. Ajoelhou-se e só. Ela não sabia o que pedir, muito menos dizer. Fixou apenas os olhos na imagem de Nossa Senhora e aguardou a intervenção divina para que se equilibrasse o juízo, que ela acreditava estar profundamente abalado. Sua reflexão foi interrompida por um balido que vinha da cozinha. Arrepiou-se toda e um frio correu-lhe pela espinha ao ouvir o bé trêmulo que ecoara casa adentro. Aquele bé inicial precedeu por fim, a um verdadeiro coro de beés e o ruído de cascos contra as tábuas do assoalho da cozinha. Num salto, Ruth correu até o cômodo e deparou-se com quase uma dezena de cabras montesas de chifres retorcidos, guardadas por um bodão branco de barba comprida e alva, de olhos cor de fogo. Ruth então gritou:
- Valei-me Nossa Senhora, defendei-me Jesus!
E sem saber se foi pela intervenção dos aclamados ou pelo susto com a gritaria, que os animais correram para fora, subindo com rapidez as pedras, saltando as fendas, driblando os abismos, galgando os ares gélidos do topo da montanha que se perdia nas nuvens...
A pobre mulher sentiu o mundo faltar sob os seus pés, caindo sobre sua própria sombra.
Ficou desmaiada não sabe por quanto tempo, até que aos poucos foi ouvindo o burburinho de pessoas. O vozerio começara baixinho, quase um sussuro e foi crescendo, fazendo com que Ruth tentasse se levantar para ver o que acontecia lá fora, na rua. Sua cabeça doía e parecia que não havia nada dentro dela, tamanho mal estar que sentia. Tentou abrir os olhos, mas também não conseguiu, foi então que começou a ouvir as vozes com maior exatidão e até reconhecê-las: as beatas, suas vizinhas diziam: - " Foi um castigo". O padre que não saía da casa das suas vizinhas beatas dizia: - " Santo Deus, foi um grande azar!" Enfim, ela conseguiu divisar a voz do seu marido  que a sacudindo, desesperado, gritava que naquele mesmo dia cortaria aquele "maldito pé de jaca".
Ruth foi despertando aos poucos, suja com gomos de jaca que cobriam-na da cabeça ao ventre, enodoando-lhe a roupa e atraindo moscas e vespas famintas.
Foi então que ela lembrou-se que logo após alimentar as galinhas, foi costurar uma saia debaixo da jaqueira, quando começou a ventar e escureceu repentinamente.
(02/02/2000)
Marcos Aurelio Paiva
Enviado por Marcos Aurelio Paiva em 12/08/2006
Código do texto: T214813
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Sobre o autor
Marcos Aurelio Paiva
Reino Unido, 42 anos
32 textos (1952 leituras)
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Marcos Aurelio Paiva