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Conhecendo a fome

Geraldo e a mãe, animados com a promessa de fartura no próximo ano, comemoram. A plantação de milho viçosa, arroz já plantado, promessa de boa colheita.
Ao bom tempo de esperança eis que baixa sobre eles uma nuvem escura, ameaçadora. Pelo menos é o que a mãe pressente quando o marido chega com a novidade: vendera a roça para um de seus irmãos. Ele argumenta que, com o dinheiro da venda, o sustento da família no próximo ano já está garantido, sem os riscos de eventual mau tempo e perca da roça. Com o dinheiro a receber comprará mantimentos, pagará a dívida na Loja do Talibá e ainda poderá fazer mais algumas compras: tecidos para a esposa costurar novas roupas para a família, uma par de botinas para si, um par de sapatos para ela e, talvez também, até um par de botinas para o filho.
A mãe fica inquieta. Tem medo do cunhado não honrar o compromisso dos pagamentos. E então o pior poderá acontecer.
É o que acontece. Os prazos começam a vencer e os pagamentos não acontecem. E o pior é que o pai de Geraldo, no negócio, ficara obrigado a continuar a cuidar da roça para o irmão. Com isso nem poderá trabalhar para ganhar dinheiro de outras pessoas.
Fazer nova roça não tem mais tempo. A fase de roçada do mato, derrubada, queimada e desencoivarada da roça, tudo deveria ter sido feito na época da seca, para o plantio do milho no final de outubro e do arroz em novembro.
O tempo não perdoa. Não entra dinheiro em novembro, nem em dezembro. Enfiam a cara no fiado, mas o fiado também acaba. A mãe reclama, o pai não tem coragem de exigir o pagamento. Os conflitos em casa aumentam. Geraldo concorda com a mãe, mas não quer contrariar o pai.
A situação piora depois da colheita, porque a Loja manda o liquidante receber o que lhe é devido. O pai do menino explica o que acontecera, o liquidante de nada quer saber. O problema é do devedor, não importam os motivos. Afinal a dívida foi assumida para pagamento na colheita e o tempo de pagar é agora.
Pressões do liquidante por um lado e da esposa por outro levam o pai a exigir o pagamento por parte do irmão. Este fecha questão dizendo que não pode pagar, seus planos não deram certo. O pai de Geraldo exige pelo menos parte da colheita como compensação, mas tudo já tinha sido vendido. Sobrara apenas o necessário para o consumo da família do tio. E este é sagrado. O outro que se vire.
A avó e os outros tios entram no meio para pacificar os irmãos, mas não resolvem o problema. Para remediar, o pai aluga para um fazendeiro vizinho uma parte de sua propriedade (uma gleba de cerrado com um pouco de capim de entremeio). E é assim que, com o dinheiro do aluguel, o pai de Geraldo paga a Loja. Nada sobra para o sustento da família.
Um dia comem mandioca cozida, outro dia mandioca assada, batata, mamão cozido n’água. Não têm dinheiro para comprar banha, nem feijão, nem nada. O que mais irrita a mulher é o fato de o marido ir para a casa da mãe dele onde almoça, outra vez janta, enquanto ela e o filho ficam em casa, com fome.
Na casa da avó há porcos no chiqueiro, tiram leite de umas poucas vacas, mas nada sobra para Geraldo e a mãe, que se sentem vítimas de preconceito e discriminação. A mãe diz que tudo aquilo é porque o pai dela é pobre. A sogra só dá atenção para as noras filhas de fazendeiros.
Quanto aos netos, quando todos estão reunidos, parece que a preferência da avó recai sobre os outros netos, ficando Geraldo em último lugar.
A situação não melhora e a mãe reclama que o marido esteja acomodado, não tem iniciativa para buscar outros meios para a solução de, pelo menos, o problema da fome. Roupa e calçado dá-se um jeito. Remenda-se as roupas e anda-se descalço. A fome, para essa não tem remédio senão algum alimento.
A mãe, vez por outra, arruma uma solução paliativa. Enquanto o pai vai para a casa da mãe dele, Geraldo e a mãe, pelo menos uma vez por mês, vão para a casa da tia que mora do outro lado do rio. Na casa dessa tia é como festa. Chegam no final da tarde, a tempo de jantar. Ah! Que janta! Arroz, feijão, carnes (sempre mais de uma variedade), verduras, legumes e, de sobremesa, algum tipo de doce. À noite, antes de dormir, vem um lanche, geralmente leite com biscoito, requeijão ou queijo fresco. No dia seguinte, de manhã, café com biscoito na cozinha ou então leite quente com café ou conhaque com açúcar no curral. Antes de retornarem para casa o menino aproveita o tempo para brincar com os primos, principalmente as primas, de casinha na tulha de arroz ou no paiol ou no fundo do quintal, entre as bananeiras, no faz de contas de “sérias” vidas conjugais. Sentem-se no direito de fazer tudo por completo. Como se casados fossem, com todas as obrigações de marido e mulher. Quando surpreendidos pelos pais correm com as roupas nas mãos e ficam escondidos por longo tempo. Voltam para dentro de casa ressabiados, convenientemente desentendidos, desmemoriados, caso lhes seja perguntado alguma coisa que os leve ao assunto motivador da fuga.
De volta para casa Geraldo e a mãe levam consigo, da casa da tia, uma manta de carne, alguns quilos de feijão, banha de porco, cesta completa que, por certo, dará para supri-los por uma semana ou mais. Depois há de começar tudo de novo. De novo a fome, literalmente.
Professor Faria
Enviado por Professor Faria em 04/06/2005
Código do texto: T21995
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Sobre o autor
Professor Faria
Caçu - Goiás - Brasil, 68 anos
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