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Personagem de um sonho alheio

Personagem de um sonho alheio, ele se tornou errático no mundo, não à toa, misturou ingrediente perigosos: droga, política e música - tripé da loucura nos anos 70. Hoje vaga num deserto repleto de imagens patéticas, como se a vida fosse um filme futurista. Diz que a sua vida é o resultado de um mistura sincrética de sons minimalistas e tambor ancestral africano, tocado na guitarra do bluesman branco norte-americano.

Sua vida é somatória de amor e descuido, acrescido de desobediência cega, histórias absurdas, fugas silenciosas para um futuro inexistente. Ele relata que a sua viagem é como ir ao futuro e descobrir que a terra já não existe, virou pó, um anel no céu, sem pouso.
 
Para ele, pouco importa o agora, pois é fruto de uma árvore órfã e estéril. Sua vida é uma engrenagem que enferrujou, vírus no computador, mas não lamenta. Compara-se à guitarra que Jimmy Hendrix incendiou em Woodstock. Virou cinza por uma boa causa.  Sua pele é solo quente ferido de um deserto sem nuvens e nem diamantes.

Temporão da “rebel generation”. Seu sonho, quando moleque, era ter uma calça Lee, uma jaqueta furada no Vietnã e uma blusa azul da marinha americana. Não entendia nada das letra de Dylan, mas foi junto, pelo faro. Não sabia o que foi dito, mas fez sua parte no script: Queimou sua vida como fósforo, ainda jovem. Hoje, já escreveu metade de uma nova bíblia, mas ainda não disse há que veio, nem consegui consertar o mundo e se entortou todo no caminho.

Ele não ouviu conselho, não aprendeu inglês, não largou a roda, fogueira hippie, não seguiu estudo, pirou em certo momento do tempo que parou pra ele. Paralisado naquele flash, criou musgo, pedra bruta, arte que não rola. Virou o próprio solo seco do sertão, de Corisco, Lampião, Conselheiro, anti-heróis brasileiros, enterrados com suas idéias poucas e resistência muita - doença que herdou destes: a teimosia de ser contra, fazer torto, querer o impossível.

Se orienta rapaz, a cabeça não aquenta o baque, não o se vive de brisa, não se vira música, embora ela pulse em seu dentro viva, ainda. Às vezes se vê mambembe, dedilhando um lamento cego, torto, sem palavras, por aí, tocando uma guitarra imaginária. Sonho pululante, um coração corpo-inteiro é assim ele. Pensa que é uma canção, acorde dissonante, corrente elétrica plugada no veio do planeta.

Tem vez, ele esquece seu vôo e cai em si. Vê que não sabe onde se meteu, labirinto. Sabe-se metal que não derrete, nem enferruja, duro, rejeito, gueto, e aí afunda, seixo de rio, pedra que rola.

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Da série: Autobiografia não-autorizada
Célio Pires de Araujo
Enviado por Célio Pires de Araujo em 24/08/2006
Reeditado em 01/09/2006
Código do texto: T224431

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Sobre o autor
Célio Pires de Araujo
São Paulo - São Paulo - Brasil
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