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Se Alice sofria, quem o saberia?
De há muito condenada, jamais se queixava.
Deixava que tomassem por si todas as decisões e providências.
Engolia, com a mesma silenciosa indiferença, tanto as pílulas da farmácia quanto as mezinhas caseiras de ervas, poções de todas as feiticeiras famosas na raia entre Portugal e Espanha.
Fizessem o que lhes aprouvesse e depois deixassem-na!
Não tinha paciência para visitas.
O seu tempo, precioso, passava-o bordando e fazendo renda, buscando novas formas nas tramas, desenhos únicos, modelos e motivos em pontinhos perfeitos.
As agulhas eram varinhas mágicas, nas suas mãos rechonchudas, de unhas ovais e longas, impecavelmente polidas.
Além das rendas e bordados, Alice deliciava-se em cantos.
Na sua voz todas as escalas se encaixavam.
Não sabendo ler música, parecia que de si nasciam os tons, dos agudos aos graves, encaixando-se impecáveis todos os timbres que a fantasia lhe ditasse.
Não cantava em Sol, cantava em sombra.
Em Fá, cantava fados, sobretudo os de Amália, totalmente à Lisboa onde fora menina sadia, recém casada feliz e dera à luz, descobrindo-se então a lesão oculta no seu coração de mocinha.
“Ai Mouraria, da velha Rua da Palma; onde eu um dia deixei presa a minha alma”!
Eram então bem-vindas as visitas, que chegavam de aldeias e hortas, de lugares remotos e se mantinham a distância, num silêncio reverente.
Iria também vinha, encostava-se ao batente da porta, inclinava para trás a cabeça e soltava a voz, na companhia da sua amiga de infância.
Desafiavam-se. Improvisavam quadras e tons; brincavam com as notas, saltitando entre agudos e graves com a alegria cristalina com que a água salta de seixo em seixo no riacho límpido.
O povo juntava-se à volta, as bocas entreabertas, as mãos calosas pendentes.
As deles, ao longo dos safões ou das calças surradas, as delas escondidas sob a capa dos aventais.
Até o canto dos pássaros emudecia nos altos ramos,
os olhinhos redondos pasmados, as asas tremendo hesitantes entre o pouso e o voo.
O mundo ficava suspenso naquele instante.
Pairava no som que fluía da cabeça loira de Alice, rosto de pérola rosada; da cabeça morena de Iria, os cabelos negros enrolados numa trança sobre a nuca, lenço bordado de pontas caídas sobre os ombros do vestido de Domingo.
Entregavam-se por completo à magia que lhes nascia no peito, subia na garganta, ressoava na cabeça e enfim se soltava modulada, reverberando, tremeluzindo como raios de sol inexplicáveis.
Nas jugulares visíveis de Alice iam, aos poucos, abrandando as pulsações.
Soltava a última nota, longamente entoada a despedida.
Depois deixava pender a cabeça, o queixo tocando o peito, as mãos cruzadas sobre o ventre contendo um mar morto que a ia matando. Que, incontido, rompia a pele fina das pernas, desaguando pinga a pinga, ensopando as ligaduras.
Sem um som, os assistentes dispersavam, como se saíssem se uma capela cuja abóbada era o próprio céu, os ramos quietos das árvores, uma capela suspensa numa outra dimensão onde o divino estava presente e os fascinava.
As botas grosseiras não rangiam sobre a terra batida e varrida.
Alice ficava sozinha, aliviada, numa felicidade inaudita que afastara de si aflições e sofrimentos... se os havia, vá-se lá saber!
À noite, o sono não vinha.
A filha pequena aninhava-se junto dela, remexendo com a tenaz as brasas da lareira.
Nos olhos imensos reflectiam-se as cores e o fascínio das chamas.
Não falavam nem se tocavam.
A presença, no entanto, unia-as como se um fio de prata as ligasse, inquebrantável como a vida em si mesma, invisível como só os fios que unem duas vidas interligadas para sempre.
Alice pedia um livro.
A filha corria a buscá-lo, alvoroçada.
Abria-o no capítulo claramente assinalado na sua memória.
Colocava-o sobre as mãos entreabertas de sua mãe, sempre apoiadas sobre o bojo da barriga.
Acomodava-se no chão polido da pedra do lar e recostava o tronco miúdo sobre um tropeço de cortiça.
O cepo, enfim crepitava em paz, lançando faúlhas no poço negro da chaminé.
Alice recomeçava a leitura e a pequena, desligada de tudo o mais, seguia linha por linha os mapas traçados na sua fantasia.
Desenhava palmeiras, praias semeadas de conchas, de ondas brandas desfolhando flores de espuma na brancura da areia onde o drama se desenrolava.
Qual o drama?
O drama seguia-o Alice, que não sua filha pequena, enlevada num mundo repleto de devaneios, descobrindo as cores e aromas descritos, como se um tapete mágico se tivesse desenrolado a seus pés e um mago lhe houvesse segredado ao ouvido:
Sobe!
Levar-te-ei onde quiseres!



Almada, Portugal,
4/1/2004
Maria Petronilho
Enviado por Maria Petronilho em 24/08/2006
Reeditado em 10/05/2009
Código do texto: T224500
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Sobre a autora
Maria Petronilho
Almada - Setúbal - Portugal, 64 anos
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