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A Roda Gigante

Eu me lembro bem do triste rostinho daquela menina de vestido florido. Ela era linda, de seus seis anos tão frágeis como seus olhos azuis iluminados. Devia estar ali há tempos, somente olhando, com uma calma de anjo que chegava a doer a alma. Os pés iam empurando a areia de vez em quando, como quem diz que adoraria sentir o ar do alto, apenas para ver o cabelo balançar.
As outras crianças saiam enjoadas, com medo. Os pais reclamando que odeiam isso tudo, que estão perdendo a novela das oito ou o jornal. Mas a menininha continuava ali, ignorando os rostos de desgosto das crianças que saiam do brinquedo, ignorando os comentários bruscos dos adultos. Parecia que nada poderia desanimá-la.
Sentei-me em um banco, somente para observar a menina. Ela estaria sozinha? Mas era tão pequenina... não poderia estar sem os pais.
Resolvi falar com a doce criança, imagine se estivesse perdida, estava com um rosto tão decepcionado, tão triste...

- Ei, menina, você está bem? - perguntei quase sussurando, para não assustá-la.

Ela não respondeu. Pareceu não ter escutado, estava com toda atenção naquele imenso objeto.

- Menina... está tudo bem? - perguntei novamente, um pouco mais alto.

Ela olhou para mim e moveu os lábios como se fosse responder, mas pareceu que mudou de idéia, e virou o rosto subitamente.

- Você está perdida?

- Mamãe diz que não devo falar com estranhos... - disse, e era a voz mais angelical que já ouvira em toda minha vida.

Pensei por um minuto no que falar, ela estava certa. Eu era um completo estranho.

- E onde está sua mãe?

- Ela... ela não sabe que estou aqui, ela não gosta de parques e diz que não tem dinheiro para eu andar nos brinquedos...

A menina pareceu suspirar, continuava a olhar fixamente para sua frente, não me encarava, como se quisesse esconder a tristeza.

- Há quanto tempo está aqui? - bateu-me um aperto no peito, que mãe não teria dinheiro para levar a filha a um parque?

- Desde tardinha...

- E por que só olha para esse brinquedo? Não gosta dos outros?

- É que... eu ouvi um menino dizendo que você pode tocar a lua, lá do alto... mas eu não tenho como tocar... não tenho dinheiro...

Parei por um segundo. Que sonho. Tocar a Lua... que criança mais bela. Que verdade mais linda.
Vi uma lágrima escorrendo de seus olhos. E não é sempre isso que acontece? Quando não conseguimos transformar nossos sonhos em realidade? Nós choramos.

- E se eu for na roda-gigante com você? Eu pago sua entrada. - fazer acontecer, pensei.

- Eu... mesmo? Comigo? Lá no alto? - seus olhos encheram-se de sorrisos.

- Sim. - sorri para ela.

Peguei em suas mãos, a filha que nunca tive, e paguei as duas entradas. Sentamos no banco da roda-gigante e lá fomos nós. O céu estava abarrotado de estrelas, naquela noite. E a Lua estava bem na nossa frente. Parecia nos chamar para dançarmos uma cantiga de roda, para lembrarmos do tempo em que não existíamos. Peguei em sua mão, e a coloquei no espaço em que a lua se encontrava.

- Viu? Agora você tocou a lua.

Ela abriu um enorme sorriso, daqueles sinceros e únicos.
Ficou maravilhada com o vento batendo em sua pele. Parecia que aquele era o momento mais feliz de toda sua pequena vida. A cada volta, ela suspirava mais, como se estivesse comendo um doce e não quisesse que ele acabasse. Mas o passeio estava acabando e nós já teríamos que descer.

- Bem, parece que acabou. - disse, meio chateado.

Ela soltou um pequeno riso e desceu do brinquedo correndo. Eu não tive tempo nem para me levantar, e ela já estava na porta do parque, dando adeus para mim...
Não recebi obrigada. Não recebi agradecimento. Fique triste por saber que nunca mais veria aquele sorriso novamente. Mas alegrei-me ao saber que transformara o sonho de uma menina em realidade.
Percebi, então, que ela não agradeceu com palavras, mas agradeceu com a maior felicidade que já tivera. E isso, meus caros, nem mesmo uma palavra de afeto poderia substituir.
Prisca
Enviado por Prisca em 26/08/2006
Código do texto: T226023
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Sobre a autora
Prisca
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 25 anos
3 textos (90 leituras)
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