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Estrelas do Norte

"Foi numa tarde de verão de 1898; quente e abafada, sem vento, sol batido e aquela vila meia embriagada pelo calor parecia se esconder da quentura. Para mim foi um dia inesquecível.

"Aos meus 13 anos persegui um homem morto, que, por acaso, era meu avô. Ele era sizudo, corpo bem largo de tanto golear vinho, mãos grossas, que amedrontavam, olhos sempre avermelhados e atentos.Tudo perecível.

"Sempre foi rústico e passível, dolorido e inglório. Sempre severou, por não ter pais ou parentes, sempre estava nas mãos daquele homem, um brutamonte sem sentido para a vida. Mas um homem de botas e galochas.Uma homem só de idas!

"Naquela tarde calorenta, dois homens de preto e rompantes, invadiram de manso o pequeno saguão da velha casa e desfizeram de tudo que ele possuia. Eram impassíveis e comedidos. Cada peça tinha sua vez e era tudo colocado num banco que havia ao lado. Duas ou três pessoas observavam aquele ritual de desnudar um homem morto. As roupas que lhe tiravam pareciam feder ou trazer lembranças sempre corridas de medo. Um verdadeira assustadora hidra!

"Vestiram meu avô de um terno todo chavado em preto, uma camisa branca e brilhante, uma gravata de cor marrom. Ele ali imóvel sob nossos olhares atentos, parecia mais um boneco pronto para ser queimado ou bolido de pancadas. Deveria.

"Ninguém chorava. Muito menos eu. Por dentro, me passavam uma alegria de vê-lo morto e um medo da morte, tão próxima e sem nó.

"O calor aumentava no saguão. Alguma coisa cheirava mal. Ele mais parecia um cometa em situação crítica, pronto para romper o infinito e cair num buraco sem fundo.Coisa de dar dó!

"Logo depois o colocaram num caixão bem trabalhado - pois ele era um homem de posses - e estava cumprida a formalidade. Sairam. Alguns o cercaram com as mais variadas flores que, na verdade, ele não merecia. Acenderam velas. E o ambiente ficou mais denso e fúnebre.A terra prepara o pó!

"Tinha acabado o ritual. Naquela época, em 1898, o vento parecia ir apenas numa direção, quando ganhei a rua, aliviada e leve. Minha ordem interior já não estava mais abalada. O pesadelo tinha ficado lá atrás, no saguão com um homem morto.

"Procurei a pluma que esvoaçava dentro de mim e fui achá-la no jardim, entre uma infinidade de cores. Éramos frágeis como cristais e procurei alguma força nela, para me aliviar daqueles momentos.Coisas que o povo julgava torto!

"Era mulher de duas luzes e minha estrela sempre ficava ao norte e agora eu tinha achado outra que ficava dentro
de mim.Éramos uma,numa só!


"Na sala, tomamos chá e depois nos embriagamos de verdade. A cama era espaçosa e as janelas estavam sempre abertas. Conversamos sobre a vida e a morte. Mais naquela tarde o assunto foi a vida.E com campanha rejubilamos a vida!

"Por perder aquele avô me sentia aliviada. Estava feliz e aliviada. Tinha perdido aquilo que mais desancou minha vida até aquela idade.Meus caminhos, minhas trilhas!

"Lá atrás ficava um sonho sem medidas. Eu era apenas um barril d'água, uma pocilga, com quatro seios e um corredor sem fim. Não haviam deuses para me proteger, apenas a saga daquele homem - um fogoso vitoriano, que sempre via em mim um espelho para suas alegrias - que era de fruta frágil e dolorosa.Eu, apenas uma ilha sem qualquer brilho!

"Mas enquanto ele fazia de mim um barril para sugar todas as noites eu tinha achado na minha companheira, toda a paz que nunca imaginava alcançar.Era uma fruta dentro da outra; uma estrela esmalteada a dançar com a vida, sem nenhum lastimo!.

"Ele era como uma serpente, que omitia o bom-senso: eu era o caminho de viajantes, de homens pálidos, que cheiravam a álcool e vinho. E ele apático e feroz, se aliviava, complascente na visão de alguma coisa ruim que me tomava. Grande charuto ,boca melosa de vinho, nos olhava sedento.

"Numa noite - poucos dias antes de sua morte- ele me tomou, como uma flor quebradiça e cheirando a podre e a rameiras, me sufocou entre seus ombros, que mais pareciam tijolos. Eu cerrava os olhos e via um mundo de horror me tomar. Me fazia vulgar, sem canto doce, sem frestas para respirar.Tudo sem alento!

"No dia seguinte procurei Clarisa e dela ganhei um anel-de-seio que guardo até hoje. Aquilo me fez esquecer a noite anterior e me aliviou de tão tensa maldade e injúria a que fui subjugada bem rente!

"E naquela tarde baforenta de calor acompanhei um homem morto que, por acaso, era meu avô. Persegui aquela morte com tonta alegria .Para mim, atrás do cortejo sentia que ia me ver livre de um pesadelo. Graças! Ele era um morto comum e assim se foi.Tudo muito nebulososo e sem cheio de carência!

"Fiquei ao norte das estrelas. Ela sumiu e,após quarenta anos, recebo notícias . Havia morrido numa viagem que fizera a Verdum. No pequeno bilhete apenas dizia: Se não alcanço seu rosto é porque ninguém ainda passou por ele...se não alcanço seu espírito é porque o levo para eternidade.

"Talvez tenha sido bom para nós duas: eu não senti o que ela sentiu; eu não vi que ela me viu.

"E hoje, passados tantos anos, me lembro,atenta, do rosto que me amou e daquele que persegui pelas ruas da vila.

"Persegui, ao norte das estrelas um homem morto, que, por acaso, era meu avô. E foi um dia inesquecível. E,agora, dela, só guardo o anel-de-seio e uma sensação de glória , vitoriana e um espaldo de agonia!"
José Kappel
Enviado por José Kappel em 27/08/2006
Código do texto: T226305
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Sobre o autor
José Kappel
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil
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José Kappel