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Carta pra ti, Catita

Ah, ele me disse preu ficar, eu não dava mais desse jeito. Tá me tirando né, viado? Pensei. Porque lá sou eu doida de falar na cara dela – dele, nessas horas – uma coisa dessas? Mas pensei. Pensei com força. Porque de boas intenções o inferno tá transbordando. O caso foi que o caldo engrossou no momento em que, virado no salto quebrado, faltou-lhe rebolado pra perceber que par de chifres não é par de asas. Dar de se atirar em telhado, rasgar o brocado, tecer fio perdido desde o início da meada, não dá néam, meu bem? Se bem que, afetado que é, ascendente em sei lá o quê, filho de Oxossi, batedor de cabeça e mamador profissional, era de esperar. Era de esperar que num lugar daqueles, com gente daquelas, um excesso de luzes e álcool, um acesso restrito aos quartinhos escuros, as chances se megamultiplicassem tratando-se de corações e picas à la carte – à noite, a noite.  Ai, que não me acho e me acabo com os dentes guardados no bolso de algum fulano! Foi o que emiti. Afora gemidinhos e grunhidos forçados - era só o que dava pra se ouvir na balbúrdia.

Ah! Também C. – chamemo-lo assim por respeito - é cacho antigo, de namoro a marido, assim, em tempo recorde, mesmo pra mim. Conheci nem lembro mais onde, que memória nunca foi meu forte mesmo. Um dia há de ser, pois, a não ser por meu primo, Barbosa, meu professor e iniciador nas artes dos cubos sem arestas, das brechas e matinhos nos idos saudosos dos parquinhos, que não guardo nem senha. Pedofilia não era, já que a diferença de idade não passava do limite de aceitação. E eu linda, melindrosa descabelada, a cuequinha cheia de carrapicho, e a pele, imberbe, rosada e outra coisa ainda mais.  C.? Ih, que C. andava vai se saber onde... Nem quero saber. Não agüenta, nem tenta. Pois sou daqueles que vou até o fim; amigo é amigo, amante tem aos montes, o que não vale é desmanche, já que até em pederastia existe uma ética. A “ética de Noscômanos”.

C. me pegou, me protegeu, verdade seja dita. Nas ruas é polícia, é ladrão, é garotão, é cliente que é ruim. A gente se vira, se enrola, desdobra, mas elástico a gente não é, uma hora arrebenta.

Violento ele. Mas só na rua. Na cama é boneca, pede pra bater, pra chamar de Catita, de Lili, ih, nem te conto. Ah, se ele sabe.

Inda agora me liga, bicha louca, descentrada, maquinando encenações que, escolada, nem me abalo.

Nem vou ficar. Pode chorar, se debater e até dizer que fui vil demais. Quem te viu quem te vê. Foi alguém que ouvi dizer que o “cu é a última cidadela do homem”. Que dirá então do cu de viado? Que tá tudo errado? Que é domínio público? No meu espaço púbico mando eu, pensa o quê?! De porrada não me esquivo, na navalhada não me rebaixo, estrada longa já nessa caminhada, e disposição vem que tem de sobra! Perdi a conta das fraturas, das contraturas, das cicatrizes, dos mililitros de silicone. Ficar é o caralho! Bicha escrota. Já vai tarde. Volta pro mar, oferenda!

Vou dizer tudo, mas tudo, tudinho, assim que ele chegar. Comigo não, hã-hã, nem pensar. Ele vai ver só.

- Oooooiii, amorrr!  
Douglas Evangelista
Enviado por Douglas Evangelista em 28/08/2006
Código do texto: T227142
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Sobre o autor
Douglas Evangelista
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 36 anos
32 textos (1072 leituras)
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Douglas Evangelista