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Domingo

Mal acreditou quando, em vista de seus constantes pequenos progressos, viu-se com um passe livre para um domingo externo. Sem dúvidas e confiante – apesar de tudo – inflou o peito e encolheu a barriga a fim de aproveitar o máximo da dádiva concedida. Por falta de escolha meteu-se numa sunga roxa, produto do último amigo oculto do hospital, presente de uma enfermeira. É interno “3”, o que indica o grau de, digamos, sociabilidade, do “usuário”. Ou seja, o risco de surtos, sustos, peles rasgadas e sangue espalhado, é mínimo. Daí a necessidade do coquetel aplicado logo pela manhã. Três azuis, dosagem de praxe, mais cinco rosas, pra equilibrar e elevar a poesia.

Daí pra rua. Que porta é serventia da casa. Mesmo se for de saúde.

Depois de tanto tempo, o poder e independência existentes em, simplesmente, passar a própria roupa, calçar as meias, fazer uma refeição que seja (garfo e faca incluídos), usar guardanapo, galheteiro e tudo o mais, o preenchia com o melhor dos entusiasmos. Que fosse aproveitar o dia quente em uma praia não era, olhando de perto, tão incoerente assim. Agora envolvido com as recomendações, os cuidados.

Ganhou a rua, tantos anos, tanto medo, ponto de ônibus, transeuntes, barulho. O asfalto cinza aquecido pelo atrito das rodas dos automóveis e combinado com a fumaça dos mesmos, contribuía para que a paisagem por detrás do seu aquário de miopia parecesse embaçada. Veio o ônibus. Entrou, pagou e, sentado a janela, limpou os óculos.

Parou no calçadão, pediu água de coco, orgulhoso de si mesmo. Inibido o bastante para tirar a roupa e dar um mergulho, resignou-se em simplesmente tirar as sandálias e as meias, segurando-as na mão. O peso em excesso adquirido durante esses anos, achava jeito de sair, nem que fosse por todos os orifícios possíveis e impossíveis, poros na lista. Enxugou a testa, olhou o mar.

“Cheguei cedo demais, droga. Será que ela vem de vestido? Fica bonita de vestido. E a menina? Será que vem junto?”.

Criou coragem e pôs-se a caminhar. A sensação da areia fina entre os dedos, e o sol, marejado, preguiçosamente lançando seus raios furta-cores sobre o torso das meninas de bruços, era o que era: demais. Felicidade demais, jovialidade demais, água e areia demais - um ambiente em superlativos.

Um passo pra picolés. Uva, limão, maracujá. Da última vez que esse mesmo cheiro de frutas o atingiu, foi em cheio. Mesmo. O caminhão apinhado de frutas e legumes nem prestou socorro. Os gritos da mulher e a multidão em volta, em meio a tangerinas, chuchus e laranjas, o transportaram para um outro espaço físico. Aquele odor tutti-frutti impregnado, seguindo, anunciando a seqüência de todo horror, desde a recuperação, até os pesadelos, e as malditas sessões de terapia em grupo que, sem muita escolha, sob a batuta do lastimável estado em que se encontrava - “vida ou morte”, “cura e salvação” -, foi fermentando a galope nos cascos da loucura. Após o acidente, o mundo como conhecia esfacelou-se, deixando uma marca engordurada no vidro da alma, um embotamento peculiar e particular. Os médicos foram realistas: quadro crítico.

“Ser avô, sem ter sido pai, estranho isso. Será que ela gosta de picolés? Toda criança gosta, oras. Vou comprar dois, um pra mim e um pra ela. Vou comprar todos. Um de cada cor. Criança gosta de cores, oras. E essa gente toda? Será que todos têm filhos e netos que gostam de picolé? Quase na hora do remédio... na hora de assistir tv, acho que vou voltar, ela não vem, como suportam? Tá tão quente”.

Lá do outro lado da avenida, Maria, sua filha, e Renatinha, sua neta, atravessavam a faixa de pedestres. Apressada, Maria fazia de tudo para desvencilhar a atenção de Renatinha do basset estrangulado pela coleira que, insistentemente, levava a todos os lugares em que iam. Nas mãos, amassadas, uma foto recente e a carta recebida duas semanas antes: “Estarei de branco. Questão de hábito” – dizia a frase final.

Estranhou a maciez do toque no ombro. Ao virar-se, disputando com o sol Maria brilhava luz própria. Recebeu um abraço apertado, as pernas enlaçadas em Renatinha e em Joey, o basset.

Atrás deles: o mar. E todo um horizonte a perder de vista.  
Douglas Evangelista
Enviado por Douglas Evangelista em 29/08/2006
Código do texto: T227651
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Sobre o autor
Douglas Evangelista
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 36 anos
32 textos (1072 leituras)
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Douglas Evangelista