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Tua menina...


_Sabe quem eu vi ontem voltando para casa? De malas vazias, quase não havia nada nelas... Um pouco mais feliz, com muitas cicatrizes pelo corpo. Eu vi aquela menina, que você tanto falava, que tinha ido em busca de algo e se perdera pelo caminho.
Eu a vi! Próxima a sua casa, uma feição triste mais havia brilhos nos olhos, brio. Ela estava voltando com sua mala, embora vazia muito pesada.

E não se sabe o que carregava, mas havia coragem em seus passos firmes, e em momento algum ela olhou para trás. E em momento algum se ouviu um suspiro. A exaustão a fazia cambalear ora ou outra, mas ainda assim tinha passos firmes. Teu corpo cansado, não obedecia tua mente. Olhar firme ao horizonte, como se lançasse a ele algum fascínio. Ele lançava admiração a esta. E ora se completavam, ora se divergiam. Ao chegar próxima a praça pública da cidade, eu a vi ir ao chão, se ajoelhando, era saudade o que sentia. Ela levava ao peito um punhado de areia que havia pegado com suas mãos. E não havia, mas nada, uma cidade quase que fantasma. Havia eu, ela, e a praça. O céu estava nebuloso, tarde de um dia quente, e agora parecia mudar drasticamente o tempo. Algum tempo depois naquela posição, ajoelhada ao chão, clamando algumas palavras que não pude entender. Vi no horizonte alguém cruzar. Eu vi tua amada no chão, enquanto outro indivíduo chegava, ele percorria a mesma estrada, estava a fazer o mesmo caminho. E seguia realmente aquela exausta menina. Pois apagava suas pegadas na areia fofa, com teus pés maiores, como se quisesse não deixá-la ver o caminho de volta. De volta para um lugar desconhecido, onde ela havia possuído durante algum tempo de sua vida, perdido. Não vi seu rosto, mas me deu medo. Eu não via, não sabia, mas podia sentir. Era pesado o ar, e nada fazia sentido. E tudo não encaixava. E era tudo assim. Até que não mais do que de repente, havia as nuvens sumido, e o céu limpo novamente, parecia não querer chover. Homem alto, forte, com postura destemida, achei que ele servia ao exército ou qualquer coisa assim. Mas tinha em seus olhos, piedade. Eu conseguia enxergar agora o que não conseguia antes. Alguma coisa o protegia, ele estava lá, vindo na direção de tua amada, e vinha, tal como ela, passos firmes, os dele, mas firmes ainda, e não havia exaustão. Ele não possuía luz, era fosco. Como aquilo que não sei comparar. E muito tempo perdi tentando, procurando buscar alguma palavra que o descrevesse, mas nada achei. Ele há alguns metros de distância daquela menina, vi o céu fechar. O vento soprava forte, a poeira nos fazia nada enxergar. De repente vi tua menina pegar algo no bolso, pensei ser um papel comum, um recado, ou até mesmo um endereço. Mas nada disso era. Tua menina guardava uma foto no bolso, junto ao peito, junto ao coração. Foto amarela, com suas beiradas rasgadas, há muito tempo, certamente, guardava. E aquele homem, sempre a olhar. Pensei que seria ele um demônio, depois um anjo, mas pensei novamente e cheguei à conclusão de que, muito pobres éramos nós, e não havia o porque de uma visita assim. Ele não se mexia, imóvel se encontrava. Olhando sempre em sua direção. Não havia sequer notado minha presença. E ficara ali os dois a noite toda. Boatos cresciam cada vez mais. E tua menina, a tua doce menina, continuava lá. Como que em transe, sem emitir um sussurro sequer. Um som, um gemido, um espirro. Parecia estar morta. De manhã, eu a vi deixar a foto lá. Na praça, presa ao chão por uma pedra que tirara do bolso também. Cismei então, ela estava a pegar o caminho de volta, mas olhava para o chão e não via suas pegadas. Ela rodopiava sobre os pés, e levava as mãos à cabeça. Num ritmo frenético, desesperado. E o homem, que antes tão destemido, parecia deixar correr em sua face uma lágrima, na dela corriam duas. E nem sequer a vi olhando em direção a tua porta, meu caro. Deve ter esquecido de você. Tua menina pegara um caminho diferente de tua chegada. Mas foi seguindo. Atrás dela estava aquele homem, que parecia ter finalmente me notado. Ele olhara para mim, e sorrira. E então entendi, que ele apenas protegia tua menina. Um semblante mágico, como era belo aquele rapaz, impossível não guardar na lembrança. Ao não mais vê-la no horizonte, depois de ter cruzado este. Fui até a praça e peguei a foto que ainda presa pela pedra, encontrava aquele rosto que não mais esquecerei. Atrás da foto apenas uma frase. 'Nunca se esqueça: Eu jamais te esquecerei!'.

Tal homem que acompanhava tua amada era o homem qual ela amava. E ela achou aquilo quando tinha se perdido. E na verdade quando achou, de fato, o amor, se perdeu. Tal homem, que aqui viveu. Neste chão que você pisa, que tua amada pisou um dia.
Ele também havia pisado quando menino. E como planta, tem raízes, e num juramento final tua amada prometeu a quem havia roubado seu coração, trazer de volta, um pedaço dele. Para que a terra não se esquecesse, que um dia ali havia pisado. E tempos depois amado, alguém que também havia saído dali para buscar aquilo que aqui não pode se encontrar.
Tatiana Marques (Tath)
Enviado por Tatiana Marques (Tath) em 29/08/2006
Código do texto: T228179
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre a autora
Tatiana Marques (Tath)
São Gonçalo - Rio de Janeiro - Brasil, 28 anos
554 textos (19859 leituras)
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Tatiana Marques (Tath)