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Sonho: o que eu não sonhei!

Eu não sei porque, não sei como, não sei onde, nem mesmo sei quando: mas eu ia matar pessoas, era minha única certeza no momento. E passando em frente àquelas 7 estátuas (não que eu as tenha contado, apenas sei que são 7 os que não morrem), conduzido por alguém sem rosto, alguém que não me lembro quem, mesmo que me esforce o máximo possível, vi todas elas ganhando vida, uma à uma. Tudo tinha uma tonalidade marrom clara, como areia, como terra do campinho onde jogava bola com meus amigos na infância. E à medida que as estátuas ganhavam vida, adquiriam um acinzentado quase branco. Começou por ele, pelo Sonho, Sonho dos Perpétuos; ganhou vida e me virou as costas, indo numa direção oposta à minha, uma direção que eu olhava, mas que não conseguia ver muito além de onde sem encontravam prostradas as estátuas. A Morte estava ao seu lado e foi a segunda a ganhar vida e isso não me pareceu absolutamente contraditório. Essa figura sem rosto que me conduzia até onde eu deveria executar minha missão naquele sonho foi me apresentar àquela figura carismática e de sorriso fácil, baixa estatura e uma roupa de bailarina gótica: uma saia preta, leve, parecendo feita de teias de aranha, que balançava vivamente aos ventos noturnos e uma blusinha branca, sem mangas, colada a seu corpo magro. Seu sorriso era cativante e ela parecia disposta a conhecer a todos que lhe fossem apresentados, não importando quem fosse. Gostei dela imediatamente, apertei sua mão, não me lembro se com força ou suavidade, e, sabendo de minha missão, brinquei: “Estou aqui para satisfazer todos os desejos da morte!” e sorri. Estou aqui para satisfazer todos os desejos da morte... Meu sorriso foi prontamente devolvido ainda mais iluminado por aquela garota que encarnava numa figura tão terna tudo que pode ser amedrontador e repulsivo: a não-existência material. “É verdade!”, replicou ela gracejando. Uma festa se configurava atrás de nós e todas as estátuas gradualmente ganhavam vida. Haviam mais pessoas que estavam ali sem propósito, apenas apreciando uma festa que se armou e começou num piscar daqueles olhos grandes e amáveis da donzela Morte. Meu condutor onírico me guiava pela multidão em direção aos outros irmãos daquela que eu acabara de conhecer e me apresentava à eles. Não me recordo de ter conhecido todos, não me recordo da presença de todos, mas me recordo claramente do momento que conheci Desejo. Ele se achegou a mim, ou melhor, meu guia me levou até ele, uma figura que demonstrava estar totalmente amedrontado com minha presença, me encarando com seus olhos enormes, totalmente desproporcionais. Desejo dos Perpétuos, aquele que pode causar a ruína de uma humanidade à seu bel prazer me olhou com medo, me olhou apavorado, pegou em minha mão com uma suavidade não intencional e apenas balbuciou algo que interpretei como um “Muito prazer...”, mas que poderia ser qualquer outra coisa, uma língua desconhecida que só ele falasse, que se falasse apenas por quem usa a linguagem do desejo. Suas roupas eram indefiníveis, mas me soavam como roupas vitorianas de um jovem cavalheiro galanteador, alguém pronto a maltratar corações... tanto femininos quanto masculinos... mas que me olhou com medo, que não se dignou a me dar importância. A sensação que me percorria era a total ausência de sensações. Um único pensamento me veio à cabeça naquele encontro: “Eu não consigo desejar. Por que eu não desejo estando em frente ao próprio Desejo?”. E eu não desejei, não desejei o Desejo, nem Desejo me desejou, nem eu vim a desejar carnalmente nada que aparecesse naquele sonho. Apenas Sonho. Era hora de conhecer outros personagens da Família. E o próximo, ou próxima, que me foi apresentado foi uma garotinha, marrom, como as estátuas, em seu vestido estilo tubinho e puxando um cachorro por uma cordinha maleável demais para ser real. Ela sorriu um sorriso tímido quando apertei-lhe a mão e, quando perguntei algo que nem eu mesmo reconheci, já que foi minha vez de falar uma língua que era impossível de ser compreendida, não pude entender, tampouco, sua resposta. Só sei que não respondia minha pergunta diretamente, tampouco indiretamente, apenas eram palavras que continham borboletas. E como uma borboleta a garotinha se desvencilhou de mim e saiu a saltitar por entre as pessoas que conversavam em grupinhos na estranha festa. Instintivamente me dirigi a outra figura que eu sabia que tinha que conhecer. Ela estava parada, tinha aquele tom amarronzado e vestia um vestido parecido com o de sua irmão. O vestido era marcante, também marrom e também num estilo tubinho. Ela residia num silêncio inquebravel. Uma garotinha quieta no final da festa. Fui até ela e sabia que não iria cumprimenta-la como cumprimentei os outros. Me perguntei quem seria ela, já que eu já tinha conhecido todas as mulheres da família, exceto uma, exceto aquela que não faz questão de ser conhecida, pois todos um dia a conhecem. Porém, ela não poderia ser esta irmã. Era uma menina, era angelical em seu silêncio, não era um silêncio sepulcral que precede todo ato de Desespero. Quando cheguei perto da garotinha uma idéia me veio à mente, absurda talvez, sabendo de toda a história que a envolvia, mas foi tão marcante que se tornou uma verdade naquele mesmo momento: aquela era Deleite, a irmã que havia se transformado, a que devia estar borboleteando pela festa com outro nome. Eu não posso explicar como eu sabia que ela era Deleite, não posso nem dizer se era mesmo, mas eu sabia e, ao tomar suas duas mãos entre as minhas, guiado por um conselho dentro de minha mente, vira-las com as palmas para baixo, me surpreendi ao ver em seu dedo médio, de uma ou de ambas as mãos, o anel que caracteriza aquela conhecida como Desespero. O anel com um anzol. Seria mesmo Deleite ou Desespero numa forma menos assustadora? O Desespero pode assumir variadas formas. Eu sabia a resposta, aquela não era Desespero, não podia ser. Uma conclusão se afigurou assustadora: Deleite é irmã de Desespero. As duas estão ligadas pelo anel, o anel com um anzol que fisga, em algum momento de sua vida, seu coração, sua alma, sua própria vida. Deleite ou Desespero. Talvez as duas, em algum ponto de sua vida. Mas faltava um irmão a ser conhecido. Faltava aquele que é meu álter-ego em tantas situações. Eu não havia conhecido todos os irmãos da Família, mas Esse em especial, me fazia falta. “Onde está o Sonho? Eu não o conheci ainda!”, disse aflito a meu guia, “Eu quero conhecer o Sonho”. Não havia conhecido Destruição; no meu sonho, não houve Destruição. Não havia conhecido Desespero, sabia qual era sua imagem e ela se apresentou em minha mente em alguns momentos, mas nunca se fez presente naquele algo semelhante à carne que lhe é comum. Não conheci Destino, mas mesmo isso não me casou angústia, afinal, quem pode saber de Destino? O Destino tem que estar onde Destino sempre está, irreconhecível e misterioso. Porém, Sonho... eu me ressentia por não tê-lo encontrado, o que ele teria a me dizer? O que ele poderia me revelar de si mesmo? Mas ele já havia se despedido da festa e, juntamente com sua irmã mais velha, a Morte, talvez tivesse voltado ao estado de estátua, uma estátua sem “vida”, unicamente contemplando aquele caminho que eu seguia em busca de completar minha missão. Isso eu não poderei saber jamais, pois depois disso a festa acabou, outro cenário diferente apareceu e nenhuma sensação anterior ficou. Acordei desiludido e sem ânimo. O que Sonho poderia me mostrar? O que o sonho queria dizer? Outra coisa que jamais saberei, pois, como Ele mesmo diz: "Quando você sonha, algumas vezes você se lembra. Quando você acorda você sempre esquece." (Sonho dos Perpétuos)
Diego Filipe Araujo Alcântara
Enviado por Diego Filipe Araujo Alcântara em 01/09/2006
Código do texto: T230222
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Sobre o autor
Diego Filipe Araujo Alcântara
Camanducaia - Minas Gerais - Brasil, 31 anos
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Diego Filipe Araujo Alcântara