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"CIDADE FANTASMA"

 

Extraído do livro: “No último desejo a carne é fria”
Josette Lassance, 2005
 
 CIDADE-FANTASMA
Ela morava numa cidade em que se sentia presa, como o galo de madeira em cima dos telhados, sentia-se presa por ignorarem o verdadeiro sentido de sua existência, para eles, representava uma ameaça. A cidade tinha algo mais que três mil habitantes, e nenhum deles era importante para ela, não eram porque não podiam ser, pareciam grosseiros caçadores de filhotes de foca. Um dia ela decidiu partir e nunca mais voltar, saiu numa manhã de domingo, num total silêncio, e adentrou no bosque...

Os fantasmas são ilícitos por muitas razões, não gostam de ser revisitados como torturadores; mas voltam, voltam sempre como torturadores, ilícitos ou não, nunca se sabe como sobrevivem, por isso voltam.

Ela se viu viva, muito mais do que se pensava, se viu ali, não como um ser morto, mas um presente a ter que caminhar agora em busca de uma satisfação contínua. Cravou as unhas na primeira penumbra, abriu bem os olhos, escancarou a sua boca para sentir o seu hálito, hálito pesado como a língua presa de um sino com zinabre.

Colocou seu primeiro passo no quadrado do chão, seu sapato tinha uma lança nas extremidades, havia uma pedra polida, gasta de andar pelo duro chão do mundo. Como um cego toca nas paredes ela se moveu para seu caminho, como um morcego na luz, deixando para trás a cidade entorpecida e seus obstáculos – luzes néons nas noites mal dormidas, o som se propagando e ecoando de parede em parede, como se todos afirmassem a mesma sentença, deslizassem seu senso crítico. Nesta cidade, não, eu não me vingaria das pessoas, mas as deixaria a sós com seus venenos. Estou partindo por inteiro, sem essa parte que ficou para trás com as feridas vivas. Sinto-me indiferente ao cortar esse cordão.

Atravessei a ponte – o esmo depois de si atira-se ao contrário, onde as coisas caem no acaso. Ao atravessá-la olhei para as pedras do fundo do rio; estavam brancas por cima e meladas de lodo por baixo – são pedras finas, gastas e parecem eternamente não se deixar mover pela correnteza – vão sumir de tão gastas, se misturarão ao limo e serão comidas pelos peixes mais famintos.

Em cima, a água quase transparente passava, apenas passava e passava...Ergui-me mais uma vez com um certo orgulho nostálgico, pus-me a cumprir a missão: chegar a algum lugar que me desconhecesse por completo e entraria na nudez de uma nova dimensão. Nua dos objetos que se propagavam no passado, a deixar cair o pó sobre o telhado, o fogão coberto, as panelas penduradas, os copos embrulhados nos jornais dentro de um baú – envolvidos no aroma do quarto amarrado por um barbante virgem – um nó forte como um machado que há de matar lenha por toda a vida. Tudo para que alguém os encontrasse com as cartas junto a eles amordaçadas, sem dentes em carne viva – a cama desfeita, a mesa como se esperasse pelo jantar não servido, as portas encostadas. Fui. O medo me atravessava as costelas. Mas precisava ir. Necessitava ir. Seria um domingo pela manhã. Manhã enxuta de sol com uma silhueta de um galo em cima das casas velhas. Depois a igreja, o sino, a cruz, o osso dos cães sem dono. Deixei para trás a imaginária cidade onde convivi com pessoas de carne, que agora dormiam.

Depois que passei da ponte, o longo peso se desprendeu do meu corpo como um fracto de um espectro, e à distância que se consumia, o espectro se desintegrava como a caveira de um pássaro sobre a chuva fina de uma tarde. Por onde passaria não me deixaria ficar, aniquilaria toda a força do mundo que me fosse contrária, sem nenhuma pressa, do que discordo ao longo do percurso, passaria por cima como o vento, não deveria senão por amor próprio, voltar e procurar rastros, tampouco compaixão dos que torturam sem verdades.

De fato se existo, já não tenho mais a casa, o passado moído entre as cartas sobre os corpos dos copos pelo resto da noite, pelo resto da vida em que dormi pela última vez naquela cama.

Olhei para trás e me vi sob um olho paralelo – distância em que minha infância prometeu-me o íntimo do infinito. Refazer-se é controvérsia, requer a habilidade do retorno até o desfazer-se, como desmistificar a relevante imagem do fantasma. Refazer-se da casa escondida entre paredes e miragens. Mesmo que se oculte a casa entre as sombrias folhas compridas e largas das árvores seculares – da casa escondida entre mim mesma e as paredes a desfazerem-se entre as chamas de um fogo negro – as cinzas vivem entre realidades paralelas, vivem na varanda, vivem nos espelhos, vivem nos sonhos de quem disputa a realidade.

Depois da ponte, eu ainda mais viva molhando as plantas na varanda – como se não me existisse a partida. O sino me denuncia. Todos acordam com olhares adestrados. O badalar e ninguém. O meu silêncio – a silhueta paralisada como o galo de madeira morto. Como não existir para todos ali. Perceberam-me mais ainda do que minha presença.

A ausência é mais sentida. Cuida-se mais dela. Acendem-se velas, cobrem-na de flores. Os simulacros as substituem como as idéias.

Fui. Com a distância casta em minha companhia. O saco com o destino – as parcas roupas de algodão cru para o sol não me ferir. Castanhas, água e pães. Pelo caminho a dura pele das flores são esperanças de não coexistirem como flores falsas entre a virtualidade e o mundo antigo, com um aroma desconexo com brilho de pixel. A dura pele das flores é mais arrebatadora porque minimiza a dor real, a dura pele das flores alaranjadas são como bálsamos para minha mente ferida. As flores abrem as paisagens pesadas com luz, minha passagem entre elas é feita com um silêncio incomum, o silêncio do bosque.

Parei de cansaço. O suor me aniquilava. O barulho da água me chamava. O bosque já quase sombrio deixava vazar os últimos raios de sol entre seus caules – a luz entrava pelo rosto transparente das folhas e desaguava na água límpida. O cansaço era uma canção úmida. O despir-me vinha de mim feito um ritual de quem se liberta da confortável casa vazia a buscar sentir-se livre sem cobertas de nenhum tecido, sem os telhados e as madeiras do caibro, sem as escápulas de ferro das redes, sem as cartas com palavras ardentes, sem qualquer olhar primitivo daquelas pessoas. Lavei-me de dentro para fora, seu toque me alimentava. O céu quase escuro, a ínfima luz fosca entrava em mim. Um corpo que pedia o agasalho. Juntei gravetos e o fogo da fogueira aqueceu-me. Os grãos e as castanhas foram meu primeiro alimento sólido.

A noite lenta se desfaz na mais profunda noite e retorna com seus murmúrios e sons. Dormimos como se morrêssemos e desaparecêssemos nessa penumbra mágica. Uma noite silvestre. Por ainda resistir e estar na boca de todos, em suas imaginações, em seus sonhos, minha existência ainda os incomodava, o alvo de suas motivações. A cidade anacrônica e triste. Durmo e ainda os sinto, calados como caçadores. Meu sonho é uma descontinuidade, para que não me sirva de um desejo, meu sonho sonoriza uma vingança. O medo é contrariamente a força motriz da sobrevivência. A mudança do ritmo cardíaco, o desespero em metamorfose. Não quero substituí-lo pela omissão da paz. Emitir-me seria como retornar àquela cidade enclausurada pelo julgamento de sua ignorância.

Acordar lentamente e despertar com pássaros. Quem seriam? Eram feitos de asas e suas vozes de flores. Depois que passei por aquela ponte, nada mais me seguraria, nem mesmo esses ruídos de paraíso. Precisava ir em frente.

Lembro-me da cerca de meu quintal, daquele homem quase de cócoras me observando. Observar o imprevisível sobre alguém sentindo apenas os levitar das asas dos pequenos pássaros, o que soaria de estranho aos seus olhos?  Levantei-me e preparei-me para mais uma jornada. Comi frutas das árvores. Aquele homem, não devo temê-lo, é mais um rosto perdido na fresta de uma cerca derrubada por minhas lembranças.

Voltei ao caminho – percorri quatro, cinco, seis, sete, oito horas, até meus pés não agüentarem mais. Até avistar uma cabana. Um abrigo para mais uma noite. A noite que não era a mesma, nem me parecia triste, não me parecia loucura, precisava de mais tempo. Arrebatador abrir mão de uma história, de um passado, nascer de novo para longe, não mais voltar para o inadequado, não estar simultaneamente presente sob dois aspectos – real e imaginário.

Em meu imaginário via-me agora numa imensa multidão, entre tantas explosões que pediam palavras cruzadas em minha cabeça, um derrame de soluções – passado, presente, futuro embrulhados num saco gigantesco de sentimentos – extrema confusão formada por uma teia incontrolada de um labirinto elíptico. E como deveria sair de lá, dessa multidão em que me envolvera, e que necessitava estar lá, mas aparentemente não estava, andara controladamente num trajeto entre imagens costuradas por setas em meu passeio secreto entre ninguém e as entranhas de uma multidão estranha.

Em meu real encontrava-me sozinha numa cabana vazia e sem meus pertences passados, nem a cozinha, nem a insônia, nem a calúnia.

Para onde deveria existir, ainda não sabia, mas desencantar-me mais com pessoas, jamais. Alguma coisa haveria de existir de bom neste planeta, algo além daquelas paredes brutas e daqueles curiosos olhares velhos. Ainda em alguma alma de uma cidade, onde meu olhar por inteiro cruzaria sua primeira avenida e me faria reconstruir, com um olhar vendado para não mais retornar. Retornos são como sinais vivos nos acenando, setas nos prostituindo, sangue nas mãos de caçadores. A caça, sob a pequena pele da cabana frágil, tentando adivinhar o futuro, tecendo memorizações ainda não acontecidas, fluindo de energias para encontrar-se com sua solidão de uma maneira firme, com a felicidade nas mãos, livre, para escolher a vida, mesmo que o passado, ilícito ou não deseje a ter, com seu hálito de sino, com sua silhueta de galo preso no teto de uma torre.

Sem que se encerre essa memória, ela saiu da cabana e cravou as unhas na primeira luz, abriu bem os olhos e colocou seus primeiros passos do novo dia no quadrado do chão, seu sapato tinha uma lança, gasta de tanto andar pelo duro chão do mundo. Partindo por inteiro, com muita coragem de não desistir para chegar a algum lugar que desconhecesse por completo.

... avistou uma cidade muito, muito, muito longe dali e foi buscá-la...após atravessar o bosque inteiro.

O primeiro homem apontou para o segundo, o segundo para a primeira mulher, a primeira mulher para o terceiro homem, o terceiro homem para a segunda mulher, a segunda mulher para o milésimo terceiro homem, o milésimo terceiro homem para infinitamente não conseguir mais contar, ela estava numa nova cidade, com infinitos homens e mulheres. Deslumbrada com as possibilidades e feliz.
Josette Lassance
Enviado por Josette Lassance em 13/09/2006
Código do texto: T239115
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Sobre a autora
Josette Lassance
Belém - Pará - Brasil
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