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Pedrâo, de Sete-Foiçada

Conheci Pedrão no tempo em que já estava se acalmando. Pegava o trem como todo o mundo para ir trabalhar, com a marmita debaixo do braço. Calado e comportado, segurando os balaústres do vagão superlotado.

No Rio de Janeiro, podemos inscrever uma cruz; no eixo norte-sul encontramos seus pontos extremos, Santa Cruz e Copacabana, espécie de cidades mais ou menos autônomas; no leste-oeste, um linha imaginária partindo da Barra da Tijuca se estende por Jacarepagua, passa por vários bairros, Cascadura, Madureira, Vaz Lobo, Inhaúma, Parada de Lucas, e aponta para a Baixada superpopulosa, já fora do município do Rio, um grande albergue noturno, a nossa Soweto permanente. A medida que nos afastamos, a população vai rareando, até que nos damos conta de que estamos em campo aberto. Sete Foiçada fica na Baixada, na parte menos populosa, abrigo de nordestinos e de cariocas expulsos dos subúrbios pelo alto preço dos alugueis.

Todos os dias, desde a madrugada, se estabelece um fluxo de trabalhadores saindo da Baixada em direção ao centro; os trens saem de Japerí, e logo estão superlotados, trafegando pela linha que vai desembocar no braço curto do leste-oeste; este se junta ao eixo comprido norte-sul, que vem de Santa cruz, na altura de Deodoro, engrossando consideravelmente o caldo que escorre por aquelas linhas. Às vezes, por causa de uma manobra mal feita - é impossível acreditar que seja rotina - o trem fica parado; as pessoas não ousam sair do vagão; se o atraso é de alguns minutos ou de algumas horas, só se vai descobrir depois. Nesse meio tempo, a expectativa, o calor, o ar viciado do vagão e a marca fatal de duas horas de atraso a partir da qual, além de se perder as horas de atraso se perde também o domingo. Então o pessoal saí.
Pedrão, eu, todos, conhecíamos o ritual: o trem parado, a falta de informação sobre o que estava acontecendo, o calor, as conversas conhecidas que logo se esgotavam, e a exasperação, o sentimento de impotência, a sensação de que éramos todos meros objetos manobrados por pessoas que desconheciam ou pouco se importavam com a nossa situação, e, acima de tudo, a certeza de que alguns de nos poderiam organizar o sistema de transporte muito melhor do que qualquer diretorzinho da Central. Saíamos muito mais para respirar e procurar um ônibus do que para qualquer outra coisa. Mas seriam preciso muitos ônibus para substituir o trem; e os ônibus já vinham, lotados. Então alguém gritava: quebra!.

Houve um tempo em que eram muito comuns os acidentes. O trem se chocava; o trem descarrilava; o trem ficava horas retido, aguardando uma manobra, e era colhido por um trem de carga... E pronto, lá se iam vagões coalhados de operários, lavadeiras, faxineiras, punguistas, recos, professoras primárias, estudantes para o beleléu. Quando tudo acabava, havia pernas, sapatos, bolsas, cabeças, embrulhos, marmitas, pentes, mamadeiras, restos e pedaços de gente espalhados pelo chão e no meio do ferro retorcido.
Se você prestar bastante atenção, quando passar pela Estação Primeira, vai notar uma cruz magra, da altura de um homem, queimada por tinta preta. Foi ali o desastre da Mangueira, na década de cinquenta. Parece que Pedrão escapou com vida desse desastre. Alguns afirmam que ele nunca esteve naquele trem, que teve que ir até lá de ônibus, pois o tráfego ferroviário foi interrompido. Um mestre de obras, espanhol como Dom Barnabé, chefe de Pedrão diz que ele não estava lá:

- Eu sim estava. Saí vivo e não fiquei maluco como Pedrón. O negócio foi feio, mas na guerra vi coisa muito pior...

A morte, tão perto da gente, era coisa recente. Antes havia sempre uma desculpa; no trabalho um novato caiu do nono andar, indo arrebentar os ossos de encontro a um amontoado de tábuas recém desenformadas e cheias de pregos. Os colegas comentaram:

- Garoto novo, meio bobo, caiu porque quis.

No trem não havia desculpa possível. Quarenta, cinqüenta pessoas morreram, sem desculpa. Viviam e já não vivem, estavam e já não estão. A experiência da morte gratuita, a troco de nada, ficou gravada na cabeça de Pedrão. Ele chegou, alterado, com os olhos vidrados, agitado, declarando:

- É a guerra... Estavam e já não estão mais... Todo o mundo de olho aberto, respirando, e num instante, num segundinho, todo o mundo morto...

Passou alguns dias pensando, sem poder dormir ou trabalhar. Depois emendou três dias de cachaça, sexta, sábado e domingo, repetindo sua historia e suas reflexões sobre a vida e a morte, nas tendinhas da região. Discutia, chegava às raias da briga aberta com os crentes e espíritas que encontrava.

- Padre, pastor, espírita, é tudo a mesma coisa. Não falam a verdade sobre a vida e a morte. Morreu, se acabou... - dizia com um gesto decidido. Depois pedia mais uma cachaça.

Não sei se nessa ocasião já estava sem a família. Provavelmente ainda estavam com ele, porque passou mais uns dois anos trabalhando, como sempre. Mas um dia ele ficou sozinho. Dizem que a mulher se mudou com os filhos porque não agüentou as surras que lavava depois que Pedrão começou a se embriagar. Batia na mulher, nos filhos e em qualquer um que se intrometesse.

Durante algum tempo continuou trabalhando. Mas aos poucos, por falta de companhia, ou de jantar pronto a sua disposição, começou a beber com intensidade redobrada. Não se cuidava. Deixava a barba crescer, vagava pela Baixada; até que abandonou o trabalho. Sumiu por uns quinze dias. Quando reapareceu foi ara anunciar:

- Vou viver do trabalho de vocês.

Todos olharam para Pedrão com uma expressão de incredulidade. Era uma frase que não dava nem para entender. Viver do trabalho da gente? Mas como é que é isso?

- Eta, diacho, Pedrão, que conversa é essa?
- Isso mesmo que você ouviu. Vou viver do trabalho de vocês. Vocês vão me dar comida.
- Ô Pedrão, aqui é todo o mundo trabalhador. Não vai me dizer que tu vais nos cafetizar?
- Meu filho, eu como pouco.
- Ô Pedrão, lá em casa eu tenho nove bocas para sustentar. Mais uma não dá.
- Mais uma não. Vou comer um dia na casa de cada um. Tenho vinte e nove amigos. Então, vai ser só um pedacinho de boca. Mixaria.
- O que tu quer eu também quero! Viver coçando o saco. Assim é fácil.

Pedrão se exasperou um pouco, e quase perdeu o controle. A coisa estava por um fio. Mas conseguiu continuar a conversa.

- Olha aqui! Eu não posso mais trabalhar... Meus miolos estão meio avariados... Acabo fazendo uma besteira...!
- Cada um se vira como pode. Vais dizer que estás com medo de andar de trem? Se for isso, arruma um trabalho por aqui mesmo. Vai trabalhar na roça.
- Vocês são gozados. Qualquer merdinha aí que pegar numa pistola pode assaltar vocês... Vocês não fazem nada. São capazes de arriar as calças e ficar de quatro. Mais um pouco podem até rebolar. Agora, pra mim que sou amigo todo mundo chia.
-É. Mas você não está armado.

Aqui, a coisa pegou fogo. Houve silêncio, por algum tempo. O cérebro de Pedrão devia estar rodando rápido, à procura de uma resposta. Nesse tempo, ele começou a fazer um movimento muito esquisito com o corpo que acabou virando uma característica sua. Andava pra frente e pra trás, como se quisesse ir para algum lugar sem conseguir decidir para onde. Então, não saía do lugar. E ficava balançando, como um brinquedo de pilha quebrado. Depois agitava as mãos nervosamente e parava de balançar o corpo por alguns segundos; para recomeçar dai a pouco. De repente, ele falou:

- Não preciso de arma. Te arrebento só de mãos limpas mesmo.

A conversa foi mais ou menos essa e acabou indefinida: ninguém disse nem que sim e nem que não. Pedrão ainda se considerava amigo. Mas amigo não impõe as coisas. Ou será que impõe? Amigo é só pra ajudar. Mas tem muita gente que acha que amigo é pra ser ajudado. E que se tem que ajudar um amigo, por mais chato e errado que ele seja. Senão pra que ter amigos? Amigos, amigos, negócios à parte? Mas aquilo não era negocio. Aquilo era esmola? Ou será que ia durar só um tempo, até ele sair do porre?

Pedrão acabou aparecendo mesmo, sem aviso prévio, na casa de qualquer um, e se servindo. Ficava aquele clima esquisito e constrangedor, na mesa, com ele comendo em silencio, e saindo sem se despedir. O resto do tempo, vagava pelos descampados; topava com animais estranhos, que não via desde a infância e julgava extintos, pássaros coloridos de cantos sem graça, e com cadáveres putrefatos, sinais de uma guerra que já se desenvolvia. A barba crescida lhe emprestava uns ares meio messiânicos de Antônio Conselheiro; era respeitado ou temido por todos.
Se imaginarmos uma inteligência como a de Pedrão, que começa uma linha de raciocínio a partir daquela cena tenebrosa do desastre de Mangueira, suas idéias sobre a morte e a vida, sua conclusão de que o trabalho não lhe adiantava de nada, tanto que parou de trabalhar, poderemos ter uma vaga noção do ponto em que andava a sua cabeça, quando depois abriu o verbo para afirmar:

- Quem vive do trabalho, vive alimentado para o sono!

Ou seja, Pedrão havia entrado num beco-sem-saída, num círculo vicioso, que lhe impossibilitava viver. Sendo o sono muito semelhante à morte, a conclusão é: quem vive do trabalho vive alimentado para a morte. Ou ainda, em forma de equação, para facilitar: Trabalho=vida=morte, mas isto apenas para quem vive do trabalho. Quem vive do trabalho dos outros, este está numa boa; sugando a vida dos outros, como os vampiros, ou como os predadores selvagens das savanas. Ah, como deve ser bom para o leão, tirar uma soneca, depois de ter devorado um pedaço de zebra! O leão até que é um animal honesto. Mata, come e pronto. Mas o que dizer daqueles outros que ficam cafetizando sem matar, dos parasitas, dos carrapatos que sugam o sangue, das moscas que põem as suas larvas nas carnes dos outros animais vivos que tem que carregar enormes bicheiras cheias de milhares de pequenos vermes que fervilham? Pedrão não era um leão. Mas também não queria ser nenhum, parasita. Repartia entre os seus amigos a carga de seu sustento, porque não queria prejudicar ninguém. E não havia ainda descoberto o que poderia dar em troca.

- Se vida igual a morte, nada mais fácil do que matar; se vida igual a morte, nada mais fácil do que morrer, -  raciocinava ele.

 Grande novidade. Pedrão estava ficando insuportável com aquela filosofice calhorda sobre a vida e a morte. Coma da minha comida, mas me poupe de ouvir as suas idiotices. Pensei mas não disse. Apenas olhei e sorri, compreensivamente. Não se pode dizer não para um maluco. Maluco, a gente diz sim, e depois faz o que a gente quiser.
 Além disso, ele era um maluco que podia ficar violento. E toda aquela conversa estranha, a sua barba de Antônio Conselheiro amedrontava de verdade o pessoal migrado. Nós, os seus vinte e nove amigos, achávamos que ele estava apenas doido, doidinho da silva. Pedrão, o doidinho, achava-se preparado para matar e morrer; pelo menos era isso que ele anunciava. Eis aí os teus soldados, Aldo.
Ainda bem que, nessa época, Juarez ainda não morava por aqui. Senão íamos ter uma briga de verdade entre eles. Pedrão com aquela aura de ente demoníaco e Juarez com essa mania de caçar lobisomens. Tinha tudo para dar certo. Um duelo de titãs, que algum dia ainda vai acontecer. Só que agora Pedrão já está bem mais calminho. E Juarez deve ter as suas dúvidas se ele é, de fato, o lobisomem que está procurando.

Teve uma hora que Pedrão começou a não respeitar mais ninguém, apesar de ainda ser respeitado. Ou pelo menos as pessoas sentiram assim. Comia, dormia, defecava, via televisão na casa dos outros... E, um belo dia, achou que tinha o direito de pegar a filha de alguém, uma garota de dezesseis anos, para satisfazer os desejos atrasados de sexo. Até aí nada. Acontece que a garota não quis, ficou apavorada, com aquele monstro mulato, de cabelos desgrenhados, barba comprida bufando e babando em cima dela. E botou a boca no mundo. Temos que dizer que Pedrão não usou da violência. Um ponto em seu favor. Não estuprou, nem bateu. Mas insistiu muito. Isso sim. Ficou em cima, não deu folga. Afinal ele queria somente fazer uns carinhos. Bater, não bateu não. Só carinho. O pai da garota, seu Zé, puxou uma peixeira. Pedrão, muito calmo, disse:

- Escuta aqui, ô Zé: te dou o direito de tomar satisfações. Mas se você puxar uma arma pra mim, vai ser briga de vida ou morte. Melhor esquecer a peixeira. Te dou uns tapas, você me dá uns pescoções e fica tudo bem...

E Zé largou a peixeira... Levou mesmo uns tapas do Pedrão.
Então acharam que Pedrão se excedeu. Reunimo-nos para decidir o que fazer. A ordem do dia era: chega de sustentar um vagabundo folgado como Pedrão.

- Temos que atacar em conjunto. Vamos encher ele de porrada. Mas só com a mão limpa, para não irar a fera.
Todos conheciam a máxima: briga com arma é para alguém morrer.

Agora tínhamos as massas organizadas, finalmente. Mas, para que? Para surrar um pobre coitado como eles. Votei contra. Mas fui voto vencido, e me retirei em sinal de protesto.

Cercaram Pedrão em bloco e passaram a atacá-lo em ondas organizadas. O povo quando quer pode ser bem cruel. Mas Pedrão resistia, lutava bem; parecia um Cassius Clay, dando potentes braçadas, com aqueles braços grossos que pareciam duas marretas, para todos os lados. Ria quando acertava alguém de jeito. Pimba, catapimba, e lá ia um de nos dormir por alguns segundos, o suficiente para sonhar um pouco com um céu estrelado, na erva rala.

Demorou umas duas horas. No final, ele ainda resistia às investidas dos últimos cinco homens mais ou menos inteiros. Lutávamos em câmara lenta, os braços ficaram pesados, difíceis de se movimentar, como se estivessem enferrujados. Todos tinham alguma marca, no olho, nariz ou boca sangrando. Alguém havia perdido um dente. Quando Pedrão caiu esgotado, fizeram fila para chutar as suas costelas.

Mas não adiantou grande coisa. Duas semanas depois, ele reapareceu disposto a ir à forra. Emboscou cada um dos homens, um de cada vez; surrou cada um de nós. Na noite seguinte, aparecia na casa da vítima para cobrar a janta, como se nada tivesse acontecido.

É difícil lidar com esses loucos. Por isso temos que interna-los, trancafia-los em algum hospício onde eles ficam bem longe de nós, a sociedade. Esse Pedrão poderia ter virado boxeador, se tivesse um empresário bom que o apoiasse, e principalmente, que ele respeitasse. Como o Cassius Clay. Mas no Brasil, nos não temos tradição de box. Aqui o máximo que a gente consegue é organizar briga de galo, escondido da polícia, porque é proibido. Dizem que é crueldade botar os bichinhos para brigar, e eles podem brigar até a morte. Mas briga de homem não é proibida. O homem briga porque quer. E ainda ganha dinheiro com isso. Pode até morrer, como os galos. Basta que arrebente uma veia, lá dentro da cabeça dele. Ou então ficar bobo como uma criança, arrastando a língua e os pés. Conheci um campeão, o Fernando, que ficou assim. Ainda tinha cabelo preto, mas era igual a um velho babão. Mas tem muita gente que fica desse jeito mesmo sem lutar box; por arte da natureza. Pedrão poderia ser rico se morasse lá em Los Angeles, e topasse com um empresário, alguém que o patroasse e cafetizasse. Para isso servem os patrões? Para botar para trabalhar gente que não consegue se aprumar sozinho na vida?

Pedrão não tinha mais jeito. Eu sabia que a próxima vez que nos chamassem para reunir a proposta seria dar cabo dele, contratar em desses matadores profissionais que sabem fazer a coisa direito. Mas antes que isso acontecesse, Pedrão liquidou um rapaz nordestino, recém chegado à Baixada. Aí o pessoal passou a ter realmente medo dele. Deixou de ser uma figura estranha, para tornar-se um cara perigoso.

Era muito comum alguém chegar do norte e ficar três ou quatro meses desempregado. Com esse rapaz, Miguel, conhecido como Migué, aconteceu isso. Chegou para o desemprego, no auge de uma crise na construção que deixou muita gente boa na rua.

 No lugar de continuar viagem até São Paulo, Migué se uniu a um bando e iniciou uma vida de assaltos pouco lucrativos, mas muito perigosos. Eram uns pés de chinelo, que ao invés de tirar dinheiro de quem tem, abordavam gente do local, uns pobres coitados, para tomar os seus poucos trocados.

Deu azar quando topou com Pedrão, que ainda não conhecia. Errou quando tentou assaltá-lo, que Pedrão não tinha nada que pudesse ser tomado. Errou mais uma vez quando puxou dois revólveres, que não sabia direito nem como funcionavam. Pedrão botou o bando para correr, mas segurou Migué pelo colarinho. Ele não conhecia a máxima: tinha puxado as armas. Pedrão acabou com ele ali, na hora, com as mãos nuas. Mãos enormes, que facilmente conseguem esmagar e tirar do lugar os ossinhos miúdos do pescoço.
Esse tipo de ocorrido não tem conseqüências na Baixada. Polícia nenhuma do mundo, vai reclamar pela vida de um Migué, procurando um Pedrão, em Sete Foiçada. Quanto a sua família, parece até que ficaram aliviados, que Migué era um desvairado, criador de encrencas.

Mas Pedrão sentiu. Não era tão maluco assim. Pela primeira vez havia levado à prática as suas teorias sobre a vida e a morte. Ele sentiu. Não era tão indiferente assim matar. Mesmo que fosse Migué, nordestino meio bobo de dezessete anos, bobo e metido a valente. Ficou muito chateado quando percebeu que ele, aos dezessete anos, não tivera ainda tempo de pensar em nada do que ele Pedrão, só começara a pensar após os trinta anos. Isto é, se Pedrão tivesse morrido jovem, não seria muito diferente de Migué. Isso o chateou, sobremaneira. Era como se ele tivesse se matado a si mesmo.

Aquela morte assustou a todos. Tinham que fazer alguma coisa. Uma outra reunião. Todos pensavam, mas ninguém ousou falar com clareza: vamos dar cabo desse bicho ruim.
Um operário velho, aposentado, um certo Manuel, ou Manolo, sei lá, me apontou, na reunião e disse:

- Somente o Weslêi pode conversar com o Pedrão. Ele é estudado, é instruído, entende a conversa maluca do Pedrão. Vamos escalar o Weslêi para levar uma conversa no homem.
E pronto. Não sou de recusar uma missão. Nem delegação. Nem comissão. Nem deputação. Nem vereança. Eles acham que sou instruído porque não sabem que levei bomba na prova de Madureza. Mas continuo tentando. Mas daí a dizer que eu entendo a conversa maluca do Pedrão, é porque esse tal de Manolo me acha maluco também. Então eles deviam achar as minhas conversas políticas maluquices comparáveis às de Pedrão. Está vendo como é difícil lidar com o povo? E eu achando que estavam todos entendendo! Esse Manolo deve ter pensado: “vamos jogar maluco contra maluco, para ver o que acontece”. Não sou de recusar missão, por mais cabeluda que seja. Qualquer dia levo um papo é com esse tal de Manolo.

Peguei aqui e ali informações sobre Pedrão; estava querendo entrar preparado no papo, e graças a isso sei tanta coisa sobre ele. Mas Pedrão estava sumido e a conversa ficou adiada.

Só muito tempo depois, descobri que ele se escondia no barraco de Mamuleque. Talvez aquelas suas idéias viessem dali. De Mamuleque, naquela época um negrinho que se escondia no mundo, vivendo em extrema pobreza, mas que segundo ele não era miséria. Dizia a todos: pobreza não é miséria. Pobreza é conformar-se com o que se tem. Miséria é não saber o que fazer. Mas um negrinho passando fome, num barraco indecente, tanto faz, pobreza ou miséria, é tudo uma merda só. Eta povinho ignorante!

Fico pensando que se Juarez morasse aqui já naquela época, ele podia resolver o problema para nos. E de graça.
Um domingo, dois ou três meses depois da reunião, um garoto veio m avisar. Pedrão foi visto, estava de volta. Era de tarde, depois do almoço, naquela hora em que a gente não quer fazer nada. Fiz força para ir. E fui. Encontrei Pedrão no meio do descampado, em que o verde esmaecido do capim ralo vai se transformando, à distância, num castanho claro, de mato queimado, e aonde muitos cheiros ruins se misturam: refinaria, mangue, bichos ou homens mortos, borracha de pneu queimado, lixo amontoado e urubus. O que eu ia dizer para aquele sujeito? Nem mesmo eu sabia. Sentei ai seu lado e fiquei uns dez minutos em silêncio. Depois, ele mesmo se encarregou de falar.

- Ô, rapaz, como é que vai?
- Pedrão, Pedrão, ... o pessoal me encarregou de falar contigo.

Assim que falei, me arrependi. Decididamente a minha habilidade era muito pouca. Falar no pessoal; foi como se eu não tivesse nenhuma responsabilidade.

- O pessoal não sabe de nada.
- É, Pedrão... O pessoal não sabe de nada. (Silêncio). Mas acontece que o pessoal tem uma vida para ir tocando. (Silêncio). Trabalho, mulher, criança, trem, comida, doença, uma pá de problema...

Eu falava uma frase sem saber o que ia dizer em seguida. Havia preparado um longo discurso cheio de argumentos muito lógicos, mas na hora esqueci completamente; algumas frases que consegui lembrar, fui emendando com muitas pausas dramáticas, sem ter idéia de como continuar.

- Vida de cachorro - ele disse.

Fingi que não escutei e continuei o papo:

- Uma pá de problemas... Imagina que ainda aparece um outro problema, um problema que não precisava nem existir... (Silêncio). Esse problema é voce, Pedrão.
- Olha aqui, seu Ueslêi, vamos falar claro: o pessoal quer que eu suma, que desapareça, certo? Só que tem um detalhe, eles vão ter que me apagar. Senão eu não sumo não! - disse, com muita raiva, já se agitando para cima de mim.

Eu estava quase admitindo, ia dizer uma besteira qualquer, assim na base da vaselinagem, só para continuar a conversa, “é eles vão ter que te apagar, mas...”, Esse mas, ia me dar o direito a outra réplica, mais algum tempo de conversa. Vi que não ia chegar a nenhuma conclusão.

 De repente, a inspiração. Ela, quando aparece, vem como um raio, mostrando o caminho; a gente faz sem pensar, sem avaliar vantagens e desvantagens. é um momento mágico em que a gente tem que dar um salto por cima de um abismo. Se cairmos estamos ferrados. Se chegarmos do outro lado, estamos salvos. Fingi raiva e passei a agredi-lo com força.

- Deixa de ser cretino, Pedrão... Você pensa que só porque descobriu aí duas ou três verdades bobas pode achar que é superior ao pessoal, que não precisa nem mais trabalhar? Isso que você pensou é só o começo. É o primário... Tem muita coisa depois disso que você nem desconfia... Você é que está por fora. Você é um cretino, metido a superior. Deixa disso, cretino! Deixa disso, imbecil! Quem é você? É titica, igual a todo mundo...

Pedrão botou uns olhões em cima de mim. Pensei que ia me dar uns paus. Mas continuou escutando, como se aquelas fossem conclusões suas, palavras que esperava escutar. Eu ia emendando frases, sem saber muito bem o que dizer, mas lembrando sempre de ofendê-lo, sem dar tempo de que ele tomasse a palavra. Quando meu fôlego acabou, Pedrão falou calmamente, em voz baixa:

- Você sabe, rapaz, teve um tempo em que pensei que estava maluco... Vivia por ai dando cabeçadas nas arvores... Quando aconteceu aquilo do Migué, eu descobri que era mesmo um titica, como você falou. O detalhe é que não sei se consigo ir adiante. Você sabe, trabalhar novamente, pegar o trem, voltar tranqüilo para casa, vendo todo o mundo se arrebentar.
- Não tem outro jeito, Pedrão.
- É, esse é o único jeito. Mas é fogo. Quem vive do trabalho, vive alimentado para o sono.

Sorri porque compreendia o sentido da frase, ou achava que compreendia. Pensei, na época, que isso era só uma verdade relativa, válida num curto espaço de tempo, verdade suplantada por outra mais ampla, a de que o homem só pode se realizar pelo trabalho de todos. Achei que podia fazê-lo entender. Hoje, eu vejo que se aumentarmos o espaço de tempo ao infinito, essa historia de trabalho não tem mesmo qualquer significação.

- Veja bem, Pedrão, sempre sobra alguma coisa de útil do trabalho; casa, edifícios, móveis, trilhos, trens, arroz, feijão, tudo.

Foi a vez dele sorrir. Senti no seu sorriso uma certa gozação, como se eu estivesse sendo ingênuo.

- Daqui a mil anos um professor aponta Brasilia e pergunta: quem construiu? O aluno reponde: Juscelino! - Pedrão riu - imagine, Juscelino, com as mãozinhas dele... - Pedrão gargalha.

Eu sabia que era pedreiro, que trabalhara em Brasilia. Vai ver achava que ele que havia construído a nova capital.

- Voce sabe, eu sou pedreiro. Tinha um tempo que até gostava de levantar paredes. Assentava os tijolos com prazer. Até orgulho. Depois descobri que estava só levantando os muros da minha prisão.

Muito dramático esse Pedrão. Em primeiro lugar suas paredes não eram tão perfeitas assim. Em segundo lugar, continuava se achando superior, porque não é a prisão dele, é a prisão de todo o mundo. Mas eu não sabia disso naquele tempo. Nossa conversa foi se acabando com a tarde. Já estava escuro quando voltei para casa. Se foi uma conversa decisiva eu não sei. Só sei que ele se aquietou. E agora ai está, um Pedrão hominizado. Aprendeu a pedir. É quase um pedinte, como quem ouve é o ouvinte. Vive de bicos e de catar valores desprezados nos latões. Suportamos ele, mas sem apoiá-lo. Está mais velho, mais calmo. Gente braba é dificil ficar velho.

Juarez que mora aqui há menos tempo, não conhece essa faceta de Pedrão e acha que ele é lobosomem. Fica desconfiado de ver aquele homão grandão andando pelos descampados, varando cercas, com trapos sujos e pelos crescidos e desgrenhados. Mas é um homem que ajudou a construir Brasília. Devia ter ficado por lá.


***


Jacques Levin
Enviado por Jacques Levin em 13/09/2006
Código do texto: T239146

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Sobre o autor
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Jacques Levin