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O homem que amava acarajé (um conto de fados)

Era uma vez na Bahia, um homem que amava acarajé. Amava tanto que tornou-se um perito no assunto. Pesquisou as raízes africanas da iguaria, indo até a Nigéria para degustar o saboroso acará, o ancestral profano do acarajé baiano, com características diversas: mais achatado, preparado com pimenta na massa e servido sem vatapá, caruru ou salada. Nosso herói, o finado Jorge (infelizmente, já se foi), soube de uma famosa mãe-de-santo que o acarajé é descendente direto do acará litúrgico, preparado nos Candomblés como oferendas aos orixás. Quanto mais descobriu sobre estes deliciosos bolinhos dourados, mais lamentou sua degradação nos dias de hoje: baianas de todas as crenças, até aquela que acusa o Candomblé de “adorar o demo”; pior, a massa, às vezes, até batida no liquidificador, deixando de lado o pilão que extrai, com cada batida, todo o sabor do feijão fradinho; dendê de quinta, queimado até o ponto de dar dor…de barriga; feijão velho; cebola pouca. A lista de reclamações e reivindicações crescia a cada dia.
Nesta luta ele tinha uma firme aliada, a baiana Domingas, cujo tabuleiro ficava perto da entrada do prédio onde Jorge morava. Ele aprovava as iguarias dela, não só o acarajé, mas o abará, o vatapá, o caruru, os bolinhos de estudante que ela teimava em alcunhar de ‘punheta’. Jorge só lamentava que sua fama não tivesse corrido o mundo como a das baianas da orla marítima. Como montava seu tabuleiro numa rua sem saída, pouco freqüentada por turistas, sua clientela se limitava aos entendidos e, é claro, os transeuntes e moradores locais. Com o intuito de ajudar Domingas, Jorge colocou uma nota no jornal que foi o estopim da “guerra das baianas”, acusando umas e outras de deturpar a sua arte com ingredientes ruins e práticas idem. Reivindicou um órgão regulador da categoria para preservar as tradições baianas e fornecer iguarias melhores a nativos e turistas. Enfim, rodou a baiana, mas não deu em nada, e tudo continuou como dantes.
Assustados com tamanha obsessão, alguns pensariam que o Jorge era um louco desvairado, sem mais nada para fazer. Ledo engano. Era banqueiro, um homem sério, com uma mulher, duas filhas e (nada espanta) um alto teor de colesterol ruim. De tanto ingerir dendê, entupiram-se várias artérias e depois de anos de tanto abuso, seu coração deu o primeiro grito de socorro. Jorge sofreu uma arritmia. Foi parar na UTI. Passou uma semana no soro, ligado a um ecocardiógrafo. Quando voltou para casa, recebeu um ultimato da mulher, das filhas, que pediram basta. Não queriam perder o marido, o pai. Ele teria que mudar de vida. Prometeu e fez promessa a Santo Expedito. Funcionou. Depois de poucos meses, os ecocardiogramas prognosticaram recuperado. Deixara de lado as frituras. Renunciara ao amado acarajé.
Sem graça, não informou a Domingas de sua humilhante situação. Todo dia, quando saía do prédio, cumprimentava a baiana como de costume. Mas nada pedia e nada comia. Depois de algumas semanas, ele notou uma certa frieza no seu olhar. Mal balançava a cabeça para responder ao seu ‘bom dia’. E finalmente, veio o dia fatal. O celular tocou quando saia do prédio, era seu vice-diretor. O assunto era sério, um possível desfalque no banco, cometido por um supervisor de sua confiança. Enquanto conversava, passou pelo tabuleiro de Domingas sem olhar para ela, como se a baiana e seus acepipes nem existissem. Daí em diante, ela virava os olhos quando ele se aproximava. Quando ele insistia, virava a cara. Depois de várias tentativas, Jorge pensou, ‘Quem é ela para me esnobar. Já fiz tanto para aquela baiana. Não vou falar mais com ela e ponto final. Daqui para frente, farei de conta que é uma estranha qualquer.’
Eclodiu a guerra fria. De coração frágil, Jorge estava mais sensível a tudo, principalmente a um clima pesado. Quando passava na frente de Domingas, sempre fingindo conversar no celular, mexer no bolso ou olhando para qualquer lado, menos o dela, foi como se entrasse num micro-clima hostil. A intempérie era tanta que chegava a tropeçar, sentir tonturas, até passar mal. Achando frescura, envergonhado de ficar tão impressionado, não comentou isto com ninguém, mas cada vez mais, quando saía de casa, tendo à direita um beco sem saída e à esquerda o tabuleiro maldito, sentia vontade de atravessar a rua, por mais que o porteiro estranhasse. Mas seria covardia! Não podia mostrar fraqueza. A guerra fria se instalara, sem trégua, até o fim.
Um dia, Jorge saiu para fazer cooper mais cedo, quando a baiana começava o ritual da preparação dos acarajés. A viu quando fritou três bolinhos miúdos e jogou-os na rua. Para Jorge, foi como se um círculo mágico se formasse em torno do tabuleiro. Imaginou que Domingas estava invocando Exu para segurar seus calcanhares, apertar sua garganta, ou futucar suas costas quando passasse por aí. Daí em diante, ao invés de atravessar a rua, como tanto queria, andava em torno da roda mágica, por espanto do porteiro e deleite da baiana.
A idéia fixa do acarajé se transferiu para Domingas e sua suposta magia. Desta vez, o nosso Jorge transferiu suas energias de pesquisador para o assunto de sua própria pele e a proteção da mesma. Procurou a famosa mãe-de-santo que o orientara sobre o acarajé.
- Sinto muito, mas o oráculo dos búzios me diz que não há nada a ser feito. Se tomar qualquer atitude, as conseqüências serão…imprevisíveis.
- A senhora não pode fazer nada para fechar meu corpo? Para contra-atacar?
- Você pode tomar uns banhos de folhas como descarrego. Além disso, nada.
Jorge levou a lista de folhas à feira, tomou sete banhos, mais sete e…a situação continuou a mesma. Ou pior. Cada vez que pensava em Domingas – um dia sim, outro também – sentia um calafrio que sacudia todo o seu corpo. Procurou, então, uma mãe-de-santo menos conhecida e mais disposta a agradar o ‘freguês’. Pagou uma fortuna para que oferendas fossem feitas a vários orixás, entidades mil, caboclos e caboclas, espíritos do céu, da terra e do mar. Se um ‘trabalho’ falhava – e falhava sempre – vinha a sugestão de fazer outro mais forte – e mais caro, é claro. Quando, certa vez, Jorge chegou a reclamar, ouviu que a mãe-de-santo passara a noite toda de joelhos, na véspera, rezando para impedir o pior. A magia forte da baiana agora tramaria sua morte. Apavorado, Jorge pagou e continuou pagando, até não poder mais. Antes que entrassem em falência, sua mulher e suas filhas pediram seu impedimento judicial. Foi tido como louco e caiu na boca do povo. Teve que largar o trabalho e ficar em casa, sob observação.
Sem condições de pagar por sua proteção, sofreu o inevitável. Caiu no tapete da sala segurando o peito e foi levado às pressas ao hospital. Na ambulância, o moribundo sussurrava: ‘Domingas - foi aquela baiana que me matou’. O atendente comentou com seu chefe, que avisou à polícia. Ninguém deu importância às palavras do ‘louco’, até que veio a falecer, ainda na UTI. Instalaram um inquérito, mas foi tudo em vão. A perícia deu o veredicto: o homem morrera do coração. Suas artérias enfraquecidas não resistiram à sua dupla obsessão com o dendê e a Domingas. Mas correu o boato. Correu a fama. O banqueiro morreu de reza, de feitiço, de ebó, ‘foi a baiana quem matou’.
E a clientela cresceu. Vieram da orla, vieram os turistas e visitantes, nativos e estrangeiros, transformando o tabuleiro da Domingas num point da cidade. A baiana viu seu nome entrar com destaque nos livros e manuais de turismo, mudou-se para um novo shopping que se instalou na área, e foi aos poucos entregando o trabalho às filhas e sobrinhas, ficando cada vez mais famosa, gorda e rica. O que não conseguira em vida, logrou com a morte, o homem que amava acarajé.
Sabrina Gledhill
Enviado por Sabrina Gledhill em 19/09/2006
Código do texto: T243971
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Sobre a autora
Sabrina Gledhill
Salvador - Bahia - Brasil, 61 anos
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Sabrina Gledhill