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O Andarilho - Dia 03

Era realmente uma pena deixar tudo aquilo para traz. Apesar de saber que não duraria muito. Que quando a noite caísse, o sal escorreria como água para trás das moitas. Pois apesar de não poder vê-los durante o dia, o andarilho sabia que eles vinham lhe seguindo por quase todo o caminho.

A mochila pesada era um bom fardo agora. E em muitos dias, aquela era a primeira vez que ele esboçava o que talvez um dia viesse a se tornar um sorriso.

“Sal para quase uma vida” Pensava com a certeza de que estava blasfemando contra o Destino. Ninguém, que não carregasse nas costas um enorme peso em sal, como fazia, desejaria uma vida tão curta. Era o início de uma sombra. A sombra da ganância.

O vento havia ajudado, mas não o suficiente para esconder as pegadas do velho sobre o sal espalhado na pista. Pela distancia já caminhada, de onde havia dormido, até onde havia encontrado a caminhonete capotada na estrada, dava para imaginar a hora do acidente.

— Deve ter dormido ao conduzir a máquina.

 “A ganância pelo pó é a desgraça desses mercenários”.

Olhou para a ampulheta-das-horas que trazia pendurada ao cinto, e com a ajuda do sol, conseguiu calcular quanto tempo demoraria para que a noite chegasse.

— É... Pelo visto a cidade desapareceu mesmo. Não devia ter me desfeito dos mapas. Mas precisava do sal — Balbuciou entre os dentes.

Ele havia amarrado o casaco na cintura, pendurado sua medalha da sorte no pescoço e se livrado não só dos mapas, mas de quase tudo o que tinha. Do prato que lhe ajudara a encher a mochila de sal, da ampulheta-dos-dias que havia ganho de Quatorze, um menino sem mãos que havia conhecido em Febre, um dos vilarejos subterrâneos por qual havia passado, e até mesmo de Meio, um boneco de madeira com qual costumava conversar durante as jornadas.

Sua cabeça ás vezes girava. O chão parecia subir, enquanto os lados da pista se moviam para dentro, afinando a estrada e estendendo o horizonte. A sede era implacável.

— Essa reta não acaba nunca. Adoraria poder dobrar em algum lugar. Encontrar uma curva. Qualquer que fosse. Mas...

“Meio caminho não sou eu quem o faz. Apenas sigo em frente, cumprindo a sina que me foi dada. Não olho para traz, não volto jamais. Não crio raízes nunca mais”.

Ele caminhou durante um bom tempo, mas o dia parecia não querer ter fim. O sol já havia se posto, mas a luz permanecia no céu.

— Que lugar é esse por qual caminho? Até mesmo o sol já se foi, mas essa luz não me deixa descansar. — Suas pernas já não agüentavam mais ir adiante. Sua boca seca lhe mostrava o que a falta de equilíbrio era capaz de fazer. Ele precisava de água. Não adiantava carregar aquela salina nas costas se não podia sequer levar um punhado até a boca seca.

Retirou a mochila das costas e enfiou a mão na montoeira de sal. Revirou o pó esbranquiçado e encontrou no fundo seu pequeno livro de orações. Ele sabia que deveria continuar. Enquanto aquela luz não lhe deixasse, ele deveria seguir em frente. Seguir seu destino. Mas apesar da certeza de sua obrigação, ele sentia que iria desabar. E com a mão ainda enfiada no sal, agarrou seu livro negro e caiu.

A luz no céu se apagou e sua mochila foi arrastada para trás de uma moita, sendo atirada ao longe segundos depois, completamente vazia.

Não sobrara força dentro do corpo ressecado, nem mesmo para orar por socorro àquela noite. Tinha que confiar apenas no Destino e em sua medalha da sorte.

“Quando a fartura chegar, não se deixe enganar. Pois enquanto caminhares sobre as sobras da ganância, o teu caminho Eles iram iluminar. Pois é das sombras e do sal que essas criaturas vivem a anos no caminho dos justos”.


Leia todos os dias do Andarilho e acompanhe esta saga surpreendente...
Frei Antonio Silva
Enviado por Frei Antonio Silva em 17/06/2005
Reeditado em 02/08/2005
Código do texto: T25353
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Sobre o autor
Frei Antonio Silva
Areal - Rio de Janeiro - Brasil, 74 anos
11 textos (464 leituras)
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Frei Antonio Silva