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O Andarilho - Dia 04

— Eu preciso salvar o menino... Ele não fez nada. Ele não fez... Eu preciso salvar... — Foi tudo o que o andarilho conseguiu cuspir pela boca seca e cortada. E olha que à tarde já havia caído. Mas a tremedeira e a temperatura elevada do corpo lhe aprisionavam a consciência num lugar escuro. Bem longe dali.

A mulher o havia encontrado desmaiado sobre o acostamento. Treze, seu filho menor, encontrara a mochila vazia e com aquelas queimaduras pretas em formatos de garra. Ele sabia quem a havia esvaziado.

— Se havia uma bagagem cheia por aqui, havia um burro para carrega-la. — Disse o garoto caminhando mais à frente, encontrando o burro logo a seguir. Correu para casa e avisou sua mãe sobre o homem caído na estrada.

— Preferi trazer a bolsa, pois achei que era mais útil. E pelo que vi no rosto do coitado, mesmo que eu conseguisse arrasta-lo de lá de cima até aqui, não sei se resistiria mais do que ela. — Disse o garoto atirando a mochila sobre a cama sem perceber o peso extra que carregava num dos bolsos.

Tentou catar uma pitada de sal de um pote de barro sobre a mesa, quando levou um tapa na mão.

— Deixe isso para Eles à noite, ou quer acabar como seu pai?

— Ele não teve culpa, só não queria alimentar esses miseráveis como você faz. Ele fez aquilo para tentar salvar a gente...

— Cale a boca Treze, e me leva até onde encontrou o tal homem. Pode ser que ele carregue algum sal no bolso. Com o que já temos... Vamos poder dormir em paz por mais alguns dias. Não seria bom, não ser mais acordado por aquelas cutucadas nos ombros?

O garoto abaixou levemente a camisa e observou as grandes queimaduras em formatos circulares sobre o ombro. A palidez tomou conta de seu rosto. As lágrimas boiaram em sues olhos, e antes de deixar que sua mãe às vissem escorrer, ele tirou uma lasca da broa de palha e caminhou novamente até a saída.

— Ele está sobre o acostamento principal. Se quiser traze-lo pra cá, é melhor andar logo, pois a tarde não demorará a cair.

Depois de o haverem trazido e lhe empurrado goela abaixo, uns pedaços de broa e pequenos goles dágua, ele havia dito aquelas coisas estranhas, sem sentido. Ao menos para eles, não pareciam ter àquela hora. O cobriram com um pano de juta, e quando a noite começou a cair, levaram a vasilha de barro para fora do buraco onde passavam os dias e a viraram em frente à porta grossa de madeira, espalhando o sal por quase toda a entrada.

— Dou-lhes o pó que alimenta a alma, em troca do descanso de nossos corpos. Não nos acordem mais uma noite, pois amanhã nos encontraremos outra vez. — Ela riscou uma cruz sobre o sal e um círculo na entrada da porta. A trancou rapidamente e afastou-se a tempo de ouvir as batidas fortes e os arranhões contra a madeira, enquanto os vultos avermelhados dançavam por baixo da porta.

De repente, o silêncio. Ela sabia que Eles os deixariam dormir em paz pelo menos aquela noite. Então, abriu a porta rapidamente enquanto Treze lhe passava uma caneca de água fervendo. Jogou-a sobre onde antes havia espalhado o sal e agradeceu ao ver a fumaça amarelada subir do chão e empestear a casa com aquele cheiro de fósforo queimado. Naquele instante, o corpo do andarilho voltou a tremer. Uma força brutal empurrou a porta, atirando a mulher de encontro ao chão. Treze observava assustado uma grande sombra que atravessava a porta e queimava o chão.

— Não! Meu ombro... Senhor está queimando! — Gritou o andarilho ao ser despertado.

O fogo que fervia a água se apagou, e a noite implacável finalmente entrou.


Leia todos os dias do Andarilho e acompanhe esta saga surpreendente...
Frei Antonio Silva
Enviado por Frei Antonio Silva em 17/06/2005
Reeditado em 02/08/2005
Código do texto: T25359
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Sobre o autor
Frei Antonio Silva
Areal - Rio de Janeiro - Brasil, 74 anos
11 textos (464 leituras)
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Frei Antonio Silva