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Dia de Joana

Dia de Joana
Dia de Joana

As flores enfeitam o jardim.
Num colorido abstrato me perco em tamanha sutileza
Imagino a vida que poderia ter tido se tudo tivesse sido diferente, se nada houvesse acontecido.
Perco-me em meio a pensamentos de um passado persistente, de um presente deplorável, de um futuro inatingível.
Em mórbida esperança, me apego neste redemoinho, gigante redemoinho...
Mas estas flores hão de mudar minha vida.

Olhando o jardim pela janela Joana com os braços a amarrar as pernas, percebe que tudo pode ser perfeito ou um imenso vazio, os paradoxos estão bem ali a sua frente, enquanto um mendigo passa saltitante e feliz sabe-se lá com o que, uma jovem mulher bonita e toda enfeitada grita ao celular amaldiçoando pelo menos cinco gerações também se sabe lá o porquê. Mas enfim o contrário também poderia acontecer e seria até o mais cabível se fossemos racionalizar as realidades, um tem muito mais motivos para esbravejar do que o outro, ou não.
 Joana desviou o olhar, pois, não estava a fim de torrar seus neurônios em questões como estas que já haviam lhe consumido muitas noites de sua mesma vida.
Olhou os pássaros, tentou se concentrar nas cores do mundo, mas também não queria passar seu tempo desta forma, às questões do mundo são tão imensuráveis, que definitivamente não queria pensar sobre elas.
Desdobrou os joelhos que já estavam a ter câimbras e encostou os pés no chão amadeirado de seu quarto, levantou-se, tinha que superar tudo isso. Tinha que esquecer de alguma forma.
Em sua mente os flashes de uma noite que ansiava apagar.
_Já pra viela, anda, anda...
_Hã
_Eu não estou de brincadeira vai, vai.
Joana chacoalha a cabeça para espantar as lembranças:
_Que droga a psicóloga me disse que me livraria disso. Inferno!!! Odeio isso, odeio!
Já não agüentava mais ser perseguida por tais lembranças, tentava se ocupar de outras coisas, tentava mais de nada adiantavam, as malditas estavam ali sempre, sempre:
_Estou entrando.
Joana olha a porta, como quem tenta adivinhar o que sua mãe quer desta vez:
_Joana! Joana, não esta escutando menina, olha só quem veio lhe visitar.
Ela finge que não é com ela que sua mãe esta falando:
_Minha filha ainda esta de pijamas já é tarde e o dia esta lindo lá fora desça um pouco.
E se dirigindo a outra pessoa:
_Bom pelo menos hoje ela puxou as cortinas coisa que não fazia a muito.
A outra pessoa era Cici melhor amiga de Joana e ao ouvir o comentário sobre as cortinas tentou esboçar um sorriso.
_Oi Joana vim lhe visitar, conversar um pouco lhe contar das minhas coisas ando tão precisada dos seus conselhos.
Joana que já havia passado do seu estado quase que permanente de mau-humor estava mais tratável e ultimamente aceitava com mais freqüência às visitas de Cici numa boa sem agredi-la. (em palavras).
_Sente-se Cici e me diga o que se passa com você? E... mãe pode nos deixar a sós são segredos de amigas e você não faz parte do nosso ciclo de amizade.
A mãe de Joana não sabia onde esconder tanto contentamento afinal Joana se dirigiu a ela com uma aspereza quase imperceptível, comparada às outras vezes.
Será que finalmente teria sua filha de volta?
E então Cici resolve iniciar a conversa:
_ O dia esta muito bonito hoje não é mesmo Joana?
_ Pra mim esta como todos os outros nada muda nunca, os dias são sempre iguais.
_ É você pode ter razão, sempre nasce o dia e sempre cai a  noite, realmente há uma cansável rotina nisso tudo.
Joana estranha o comentário de Cici franzindo a testa, ainda mais por ser Cici a sempre tão otimista. O que será que havia acontecido com ela? Resolveu perguntar com um ar  desinteressado:
_ O que mesmo você queria falar comigo?
_Nossa Jô não sei nem por onde começar.
_Pelo começo é uma boa pedida.
Cici sorri retribuindo o humor sarcástico de Joana e percebia que aos poucos sua personalidade  retomava  seu devido espaço.
_ Acho que cheguei a comentar com você que estava visitando um lar de crianças órfãs, de inicio somente para conhecer, mas agora isso faz parte de minha vida e me tornei voluntária.
_Nossa como é isso voluntária?
_Passo praticamente todo meu tempo livre lá, gosto muito daquele lugar aquelas crianças são maravilhosas.
_Se fossem tão maravilhosas não teriam sido abandonadas. Quem sabe as mães não tiveram um bom motivo pra isso.
Joana pronuncia essas palavras querendo justificar-se, mas Cici já sabia o porquê e tenta entrar neste assunto, coisa que era muito difícil, afinal é este todo o trauma de Joana.
_ Sim eu sei tem pessoas que realmente tem um motivo muito forte, mas a maioria lá é órfã nem chegaram a conhecer os pais.
_Entendo, mas é melhor assim não dizem que cada um tem o que merece. Quem sou eu pra contestar a justiça divina, ainda mais tendo passado por tudo aquilo.
Joana perde o olhar no horizonte.
Cici percebe que talvez hoje consiga arrancar dela a versão daquela noite a psicóloga de Joana já havia dito que seria bom que ela falasse sobre, mas onze anos haviam se passado e nada, ela começava a sair de seu estado depressivo agora, era como se tivesse começando a despertar sem ter bem a noção de quanto tempo teria perdido. Cici tinha muito medo de com qualquer palavra colocar tudo isso a perder, queria muito sua amiga de volta por amá-la demais e por um outro motivo muito forte.
Joana continua a falar:
_Não consigo entender esse lance de “justiça divina”, comigo Deus não foi justo, nem um pouco.
_Também acho que não Jô, mas ele deve ter os motivos dele tem que ter. Não é mesmo?
_Não sei às vezes custo a acreditar em sua existência, é difícil acreditar em coisas que não me são reais sabe, e Deus na minha vida não é real e também não deve ser na vida destas crianças. E nem de maldita criança nenhuma. Joana agora tem um ódio estampado no rosto.
Cici tenta controlar a situação e não perder esta brecha que Joana havia aberto hoje:
_Posso lhe contar como é meu dia lá com as crianças?
Joana com expressão desconfiada somente balança a cabeça aceitando que a amiga fale sobre as tais crianças:
_ Me desculpe à insistência Jô, mas você se lembra de Flor? Aquela menina de quase 10 anos que conheceu aquele dia que a trouxe aqui, pois era dia das crianças?
_ Sim esta menina sim parece ser vitima do destino como eu, mas o que tem ela?
_É que mês que vem é aniversario dela e eu poderei tirá-la de lá pra levá-la pra passear e comemorar seu aniversário.
_ E o que eu tenho haver com isso?
_ Eu gostaria muito que nos acompanhasse. Flor gosta tanto de você ela realmente simpatizou com você. O que acha?
Joana sentiu-se ruborizar como uma criança poderia gostar de uma pessoa tão amarga quanto ela sentiu o calor deste sentimento no coração, e percebeu como estava carente de afeto.
_Não sei se me sinto pronta pra enfrentar o mundo lá fora ainda, sei que já estou bem melhor, mas ainda me sinto muito insegura entende?
_Sim entendo, mas podemos levá-la ao lugar que você escolher tenho certeza que lhe fará bem.
Cici tinha um brilho nos olhos inexplicável, Joana não conseguia entender toda aquela euforia só por causa de uma criança, encantadora sim, mas era apenas uma criança.
_Não sei Cici vou pensar e depois lhe dou uma resposta.
Cici sentiu um grande avanço tinha certeza que Joana iria aceitar. Flor também havia conquistado seu coração aquela menina realmente era uma enviada por Deus.
_Não claro como quiser, quando tiver a resposta me diga, Flor irá adorar sua companhia. Mas gostaria também de saber como anda se sentindo? Vejo que esta com o aspecto muito melhor.
_Sim tenho me animado mais apesar de tudo.
_Você vai superar tudo isso amiga pode ter certeza.
_O difícil pra mim são as lembranças que nunca me deixam em paz.
_Já tentou conversar sobre isso pode ser que alivie um pouco este peso. Tente Jô, tente irá lhe fazer bem você vai ver, eu estarei sempre ao seu lado.
Joana se cala perdendo o olhar novamente. Cici receosa fita a amiga que começa a chorar copiosamente, mas sem mudar a expressão do rosto como se as lagrimas caíssem de olhos que não viam nada e de um coração que já não sentia nada, tendo somente o vazio como incentivo a elas. Então Joana começa a falar movendo somente os músculos de seus lábios:
_ Naquela noite eu me preparava para sair com você lembra?
Cici só balança a cabeça em sinal de afirmação, não queria quebrar aquele momento com palavra alguma:
_Quando cheguei ao portão de casa...
Joana respira fecha os olhos e recobrando a voz que já lhe faltava:
_Quando cheguei ao portão de casa dois homens me abordaram como a querer me perguntar algo um deles carregava cadernos e o outro não tinha nada em suas mãos, deixei que se aproximassem então um deles me segurou pelo braço e disse:
_Já pra viela, anda, anda...
Eu sem entender nada:
_Hã
Então ele gritou:
_Eu não estou de brincadeira vai, vai.
Fiquei apavorada não estava entendendo nada e não sabia o que iria acontecer comigo, eles me levaram pra quela viela aqui perto de casa, e que inferno, minha rua é sempre tão movimentada, mas naquela noite não havia uma santa alma em lugar algum. Apontaram armas pra mim e me perguntaram se tinha algo de valor, eu respondi que poderiam levar o que quisessem desde que me deixasse viva, então o outro com um olhar frio e uma voz áspera disse que eu não estava em condições de exigir nada, pegaram minha bolsa vasculharam tudo, achei que estaria livre o pesadelo havia acabado, mas estava só começando.
Joana faz uma pausa acendendo um cigarro vicio adquirido depois do acontecido,e continua:
_Numa maldade inexplicável começaram a me bater levei chutes e socos, chegaram a me bater até com a arma e eles riam como se aquilo tudo fosse divertidíssimo, rasgaram minha roupa e me violentaram os dois de todas as formas que você possa imaginar.
Joana já se encontrava trêmula pelo nervosismo de lembrar tais fatos, mas prosseguiu:
_Chegou um momento que eu nem sentia mais tanta dor achei que não estava nem mais viva, pois estava com o corpo todo adormecido e não via mais nada perfeitamente somente os vultos apenas escutava os comentários entre eles que francamente não quero repetir.
Fiquei lá jogada ao chão não faço nem idéia de quanto tempo fiquei em poder deles, um vizinho me achou e chamou meu pai.
Cici já se encontrava em prantos tentava se controlar, mas não conseguia, passava a mão pelo rosto, mas não tinha mais como esconder:
_Esta parte foi horrível ver meu pai chorando, sentia tanto ódio, mas não conseguia falar nada, fomos ao médico fazer o tal de corpo delito e depois até a delegacia, você acredita que o delegado teve a capacidade de perguntar que roupa eu estava usando? Porque eu poderia ter através das roupas incentivado este ato. Oh! mundinho ridículo este que vivemos aquilo me revoltou de tal forma que se eu já não conseguia falar direito depois dessa magnifica atuação desse delegado travei de vez. Fiquei um bom tempo sem conseguir falar, mas disso você já sabe me tranquei num mundo onde tudo era um verdadeiro inferno não conseguia enxergar nada além da escuridão até que pra piorar a situação descobri que estava grávida, e não havia mais como abortar do resto você sabe.
Mas Joana continuou a falar parecia mesmo disposta a tirar tudo àquilo de dentro dela:
_Sabe que não quis nem saber o sexo daquela criança e que a dei pra quem quisesse tomar conta daquela vida, maldito fruto de um ato tão inescrupuloso, este ser jamais poderia ter sido amado por mim você sabe.
Joana em expressão enojada tenta finalizar esta conversa, quase a balbuciar:
_Nossa como é difícil, agora tenho noção de quanto tempo perdi de minha vida do quanto me entreguei a este fato.
_Mas isto tudo já passou amiga não tens porque carregar um fardo tão pesado sozinha divida-o conosco que a amamos de verdade.
Joana tenta sorrir:
_Muito obrigado Cici, sinceramente não sei o que seria de minha vida sem vocês que me aturaram este tempo todo em pura amargura. Eu quero recomeçar a minha vida, juro que quero, mas não me sinto pronta ainda, não quero perder mais tempo por conta disto. Estou cansada desta clausura em que vivi estes anos todos. E quer saber acho que vou sim acompanha-la ao aniversário de Flor acho que realmente irá me fazer bem.
Cici era pura alegria mediante estas palavras:
_Viu como falar sobre lhe deixou mais leve, é isso mesmo amiga vamos que a vida lhe espera.
No decorrer do mês Joana foi visitar o lar de crianças carentes com Cici e com cada visita se encantava ainda mais com Flor uma menina encantadora gostava muito das outras crianças, mas Flor era realmente especial.
Cici tinha um segredo com Flor que iria ser desvendado a Joana no dia do aniversario.
Joana falava de Flor com muito sentimento sentia amar aquela criança como jamais se julgaria capaz.
Chegando o grande dia:
_Olá Joana que bom que veio ao meu aniversário.
_Como poderia faltar você conseguiu me mostrar que a vida pode ser muito mais, você essa adorável criança que aprendi a amar.
Joana olha ao seu lado e avista seu pai e sua mãe caminhando em direção a elas, fica sem entender, mas continua olha pra Cici e diz:
_Como eu poderia amar aquela criança do jeito que amo Flor. Não teria como isso acontecer.
Cici com sua voz sempre serena diz:
_Vou deixá-las conversar acho que já chegou à hora, irei até seus pais.
Cici chega até seus também grandes amigos e os abraça se virando para as duas, para que pudessem observar a cena.
Flor com os olhos ternos de sempre e com a maturidade que Deus lhe deu como um dom, diz:
_Mamãe
Joana sem entender o porquê de aquela menina estar lhe chamando assim se cala permitindo que ela continuasse:
_Eu sou sua filha, fui criada por Cici estes anos todos com o auxilio da vovó e do vovô, que nunca me esconderam nada. Esperei estes anos todos compreensiva e pacientemente que se curasse e pudesse viver ao seu lado. Às vezes ia lhe visitar enquanto dormia eu segurava sua mão e rezava ao papai do céu pedindo que devolvesse logo a minha mãezinha que eu tanto amo. A história do lar das crianças carentes foi à maneira que achamos mais coerente de me introduzir na sua vida novamente.
Joana levou um choque, como aquilo poderia ser possível? Não conseguia acreditar ela amava aquela criança como mãe sim, mas jamais sonharia que ela havia saído de seu ventre, e que pudesse agora depois de todos esses anos, estar lhe dando essa lição de vida. Então ergueu as mãos aos céus ajoelhando-se agradeceu:
_Meu Deus me perdoe pela minha injustiça com Vós, com meus familiares e principalmente com minha filha. Abraçou Flor e as duas em pura emoção choravam copiosamente.
Os avós de Flor se abraçaram também em prantos, o dia de Joana havia chegado Flor a salvara do abismo para que recuperasse a fé, a auto-estima e o amor pela vida por sua filha e por todos ao seu redor.
Cici também agradeceu a Deus que realmente sempre tem os seus motivos.


Fim

Senhora Morrison
17/09/2006
Senhora Morrison
Enviado por Senhora Morrison em 02/10/2006
Reeditado em 02/05/2008
Código do texto: T254500
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Sobre a autora
Senhora Morrison
São Paulo - São Paulo - Brasil, 36 anos
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Senhora Morrison