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O Andarilho - Dia 05

Durante todo o dia que se seguiu, a escuridão permaneceu em cada canto daquela morada. Nem mesmo o brilho dos raios que rasgavam o céu durante a tempestade, arriscava a invadir aquele lugar profanado.

Escuridão...

O movimento lento e agonizante da Grande Sombra dava a impressão de já estar cansada. Porém algo lhe fazia continuar. Algo que de certa forma, lhe tirava as forças. Algo que por maior que fosse a sua força, estava lhe aprisionando.

Treze havia desmaiado logo depois que o andarilho começou a gritar. Sua mãe não conseguira resistir ao ataque impiedoso da criatura, e fora enviada para junto do marido.

O andarilho, com sua camisa queimada, e uma ferida aberta no ombro, tremia a cada passada da Sombra sobre o ferimento.

Ela rondou por todo o lugar atrás de seu carcereiro. Até que enfim, o encontrou. Um pequeno livro negro, espremido entre os dedos cansados do andarilho. Ameaçou pegá-lo por diversas vezes, porém, sua escuridão esmaecia antes mesmo de toca-lo. Aquilo lhe enlouquecia. Batia-se pelas paredes fazendo o chão vibrar como num grande tremor de terras. Atirava ao longe, tudo que encontrava pela frente. E assim permaneceu durante horas, até que então, parou. Ficou quieta, num dos cantos, como se ouvisse um sussurro distante. O brilho vermelho que trazia sob as patas, sumiu quase que por completo. Parecia pensativa. Parecia estar sendo direcionada. O som do cochicho parou.

Silêncio...

Depois de um longo tempo, um zumbido agudo e estridente surgiu na escuridão. Suas patas acenderam como brasas e riscaram o chão.

Tentou possuir o corpo da pobre mulher, mas ela estava morta. Tentou invadir o menino, mas ele estava vivo. Ela precisava de uma brecha entre a vida e a morte. Uma marionete que pudesse arrancar o pequeno carcereiro das mãos do andarilho. Para que pudesse se libertar.

Sua sombra arrastava-se nervosa pelo teto, quando enfim passou pela mochila, e se acalmou. Descobriu que até mesmo o destino podia ser traiçoeiro. Percebeu o que Treze não havia dado conta: que o peso extra que levara, que havia entrado na casa sorrateiramente, acabaria sendo o seu fim.

“Eu preciso salvar o menino... Ele não fez nada. Ele não fez... Eu preciso salvar...”.

Ela atirou a bolsa para perto do menino e deixou que o destino fizesse sua parte.

A cobra deslizou por entre as pernas magras de Treze e picou-lhe o calcanhar. Ele gritou e tossiu de repente. Era o veneno circulando lento pelo corpo.

Então, ela entrou. Não fora difícil. O veneno havia feito uma bela brecha. O suficiente para que pudesse erguer o menino e arrasta-lo até o corpo do andarilho. Mas apesar de estar lhe possuindo, não tinha total controle sobre o que estava fazendo. Posicionou a mão do andarilho sobre um tronco, e com a ajuda de uma pedra, acertou-lhe o pulso, quebrando os grilhões que lhe acorrentavam.

Fúria...

Ela agora estava solta. Forte novamente. E com total controle da situação, ergueu o menino pelos cabelos e o fez apanhar a faca que estava sobre a mesa. Ele tossiu novamente. Apesar do veneno estar se alastrando devagar, já não faltava muito para o fim.

Arrastou a marionete pelo canto da parede, a colocou com a faca apontada para o peito do andarilho e fugiu.

O fogo que esquentava a água voltou a acender. As luzes entraram. Os olhos do menino se abriram e se jogando contra o andarilho, com a faca em punho, ele encerrou o dia.

“Quando a escuridão se for, levará com ela o silêncio. E só a fúria permanecerá”.


Leia todos os dias do Andarilho e acompanhe esta saga surpreendente...
Frei Antonio Silva
Enviado por Frei Antonio Silva em 18/06/2005
Reeditado em 02/08/2005
Código do texto: T25483
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Sobre o autor
Frei Antonio Silva
Areal - Rio de Janeiro - Brasil, 74 anos
11 textos (464 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 03/12/16 22:00)
Frei Antonio Silva