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O Andarilho - Dia 06

Primeiro o ranger sofrido das dobradiças. Depois, a batida oca da porta contra a parede. Novamente o ranger e um sopro quente, e lento, balançava os cabelos do menino. O gotejar intermitente da água que escapava da torneira, não fora suficiente o bastante para encher a bacia e fazer transborda-la. Dando para ouvir ao longe, mais um instrumento daquela estranha sinfonia. A dobradiça rangeu mais uma vez, sendo que a porta batera com mais força do que antes, sendo jogada por uma lufada mais forte de vento e poeira.

O corpo de Treze, caído sobre o andarilho, subia e descia sofrivelmente. A cabeça parecendo estar pendurada descansava estática sobre a ferida ainda aberta no ombro do homem.

Era dia. Caminhava para o início da tarde, mas ainda era dia.

A faca permanecia entre a carne. O sangue já havia secado. E se olhássemos com cuidado, veríamos a ponta enegrecida com o sangue seco, espetada para fora das costas.

A sinfonia continuava: As gotas dágua, o ranger das dobradiças e o barulho do vento, cada vez mais forte. Cada vez mais carregado de uma terra seca e amarelada.

Apesar da respiração continuar lenta e sofrida, o corpo do menino começava a tremer. Tremer de verdade. O veneno já não era mais, pois já havia cumprido o seu papel. De repente, como lixa riscando o asfalto, uma nuvem de poeira invadiu a entrada da casa, enchendo os olhos de Treze com uma grande quantidade de terra. Mas ele parecia não se importar.

Apenas tremeu com um pouco mais de vontade e então uma tosse foi ouvida. O andarilho abriu os olhos e viu o corpo de Treze caído sobre o seu. Entendeu por que não conseguia respirar direito e empurrou o corpo do menino para o lado. Sua mão doeu como nunca. O pulso tinha sido realmente quebrado. Sentiu um cheiro de podre no ar e viu uma nuvem de moscas cobrirem o rosto de uma mulher.

“Quem será essa pobre mulher?”.

Olhou para sua barriga e viu que estava encharcada de sangue. Olhou para o menino com as mãos apoiadas sobre o peito, agarradas a um cabo de madeira.

“E esse menino... Por quê fez uma desgraça dessas?”.

Ao ser abandonado pela sombra, no instante em que caia, Treze recobrou sua consciência e num segundo antes de esfaquear o andarilho, por puro reflexo, girou a lâmina ao contrário e acabou enfiando-a em seu próprio peito.

“E o que eu faço aqui... neste lugar? Porque vim parar aqui?”.

Com uma certa dificuldade, ele conseguiu levantar. Andou pala casa e descobriu que Eles haviam estado lá. Encontrou sua mochila, a encheu com tudo que pode levar, amarrou o pulso quebrado e saiu daquele buraco. Não adiantava muito se perguntar sobre o que teria acontecido, nem ao menos selar os corpos. Era melhor deixar pra lá. Depois de ter tido uma boa quantidade de sal, estava agora sem nada novamente e em falta com a sua jornada. Precisava encontrar o velho da caminhonete e tantos outros que vinha procurando.

Preferiu não caminhar aquele dia. Pois além de a noite já estar se aproximando, ele precisava ajeitar as coisa e orar pela alma daqueles que de certa forma aviam lhe acolhido e por obra e graça do destino, acabaram lhe protegendo com as próprias vidas. Pelo menos era o que sentia. Era o que achava que deveria fazer.

Ajoelhou-se sobre a entrada da toca, e orou fervorosamente por todo o fim daquela tarde. Quando a noite finalmente caiu, ele sentou sobre o acostamento e depois de ter comido um pedaço de broa, despediu-se de mais um dia.

“Com o corpo ainda de pé, me retiro da estrada. Não me leve contigo essa noite, pois longa é a minha jornada... Salmaré”.

Um trovão estourou ao longe, anunciando a chegada de mais uma tempestade. Ele fechou os olhos, e uma pequena cobra avermelhada atravessou a estrada.


Leia todos os dias do Andarilho e acompanhe esta saga surpreendente...
Frei Antonio Silva
Enviado por Frei Antonio Silva em 18/06/2005
Reeditado em 02/08/2005
Código do texto: T25562
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Sobre o autor
Frei Antonio Silva
Areal - Rio de Janeiro - Brasil, 74 anos
11 textos (464 leituras)
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Frei Antonio Silva