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Imperialismus

Era um grupo pequeno, porém barulhento. Camisas politizadas, corações em fúria, gargantas dispostas a protestar seja lá contra o que fosse. Eram contra o imperialismo, eram contra o Mcdonalds, eram contra Bush... E não adiantava tentar convencê-los de que o Bush no fundo, lá no fundo era um cara legal. Não! Eram intransigentes...

— Pronto pessoal, todos aqui, bandeiras em punho... Cartazes ok?

— Cartazes ok!

— Já decoraram o grito?

— “1, 2, 3... 4, 5, 1000... Bigmac pra puta-que-o-pariu!”

— Beleza! Tá jóia! E aquele outro do Zeca?

— “Hu! Há! Bush, viadÔÔÔ!”

— Show! Muito bom! Tá legal. Então a gente chega lá e entra lascando fogo na bandeira. Quem tá com a tinta vermelha espera pra tacar quando as câmeras estiverem a postos. E mirem no logo. No logo, certo?

— Ei, por falar no Zeca... Cadê ele?

— É mesmo... Cadê o Zeca?

— Pois é galera. Eu fiquei de avisar a ele que íamos fazer o protesto em frente ao Mcdonalds hoje, mas não encontrei ele em casa, e o celular dele tava desligado.

— Ah, não tem mais como adiar. Já tá tudo armado. Sei que o Zeca é nosso militante que mais odeia o imperialista fastfood, mas...

— Concordo, vamos lá... Hu! Há! Bush...

— ViadÔÔÔ!!!

Partiram para o Mcdonalds. Era um protesto contra a decisão do Governo de São Paulo de colocar o Bigmac como merenda escolar da rede pública de ensino. Os defensores da medida alegavam que a carne de vaca trangênica melhorava o rendimento dos alunos em análise sintática. Os críticos diziam que a carne trangênica poderia fazer mal as crianças no longo prazo.

O grupo que partira para o protesto de bandeiras queimadas e tinta vermelha era intransigente: Bush, ViadÔÔÔ!!!

Antes que chegassem ao alvo selecionado, na fila do mesmo estabelecimento um anônimo escolhia seu pedido. O cheiro de gordura dava o clima de fastfood ao ambiente. Tantas opções!

— Quero o número 1. Com coca-cola, sem gelo.

— Pois não, senhor. Aqui está seu pedido. Seu troco... Bom apetite. — dizia a menina com voz artificial. Era a septuagésima quarta vez que dizia isso pra uma pessoa naquele dia. Chamava-se Rosa Maria, e era apaixonada por um marceneiro. Casariam um dia e teriam três filhas. Seria feliz. Sua mais nova seria médica na fronteira boliviana e faria o parto de uma líder indígena que ganharia o Nobel da Paz.

— Obrigado. — Ele respondeu mecanicamente.

Sentou-se numa das mesas, salivando. Como ele adorava aquilo! As cores hipnóticas, toda a organização rígida e os uniformes dos adolescentes. O aroma, aquele monte de embalagens. Ah, ele entrava no clima com tanta intensidade que não demorava muito, depois de uma demorada mordida no Bigmac, dizia quase que como orando:

— Amo muito tudo isso!

Tumulto! Seu macprazer fora interrompido pela gritaria de um grupo de radicais sem alma, sem moral. Gritavam palavras de ordem. Sacudiam cartazes, onde num deles se via o desenho de uma criança com cabeça de vaca. Noutro cartaz Bush estava coroado com uma galhada.

— Putz! O pessoal resolveu antecipar o protesto! Caramba! Se me veêm aqui...

Largou o Bigmac e se atirou em baixo da mesa. Estava cercado. Arriscou dar uma olhadela pra ver se havia algum ponto de fuga seguro. Neste momento um de seus companheiros o viu. Ficou encucado. Ele se escondeu de novo. Os funcionários já acionavam a polícia e alguns escondiam em compartimentos secretos os galões de molhos secretos, as estatuetas de ídolos sinistros e as armas de assalto foram colocadas à mão. Um gerente prometia aos mais novos colocar a foto deles na parede como recompensa pra quem acertasse um dos terroristas.

Era um inferno!

Porém um dos manifestantes jurava ter visto o Zeca lá dentro. Chamou com muito custo a atenção do pessoal e gritou:

— O Zeca tá lá dentro!

— Como? Como assim?

— Eu juro ter visto ele lá dentro...

E lá dentro ele dava uma última mordida, uma bem grande no Bigmac. Com muita dor por ter que fazer isso ele se levantou e atirou o saboroso hambúrguer contra a vidraça. Dois hambúrgueres, alface, queijo, molho especial, cebola e picles, num pão com gergelim se chocaram contra o vidro se espalhando, numa tentativa de defenestrar o sanduíche. O Bigmac se espatifou num som mudo, feito uma bomba de 1 bilhão sobre casebres a margem do Tigre. Os Macslave’s ficaram boquiabertos, chocados. Uma mais novinha chorou.
Lá fora os militantesterroristas não entenderam. Ficaram suspensos. Até que uma cadeira estourou a vidraça e a figura de seu velho companheiro de militância apareceu no meio do caos, e num grito heróico sacudiu no ar um dos braços arrancados do Ronald Mcdonald:

— 1, 2, 3... 4, 5, 1000... Mcdonald vá pra puta-que-o-pariu!

— Viva o Zeca! Viva o Zeca! — Todos aplaudiam e assoviavam.
Zeca respirou aliviado. Se juntou a sua trupe e depredaram completamente a sucursal imperialista. A polícia levou alguns presos, outros apanharam.

Ele nunca mais comeu naquele Mcdonalds.

Não naquele.
Guilherme Drumond
Enviado por Guilherme Drumond em 04/10/2006
Reeditado em 04/10/2006
Código do texto: T256182
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Sobre o autor
Guilherme Drumond
Rio Bonito - Rio de Janeiro - Brasil, 37 anos
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Guilherme Drumond