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Minas

Andava pela rua, meio distraído, meio concentrado, quando mirou a placa e leu em voz alta:

— “Trem de Minas: Comida Mineira. O verdadeiro sabor de MInas”.

No mesmo instante deu-lhe água na boca a lembrança das comidas que sua avó fazia, no fogão de lenha. Esfregando as mãos entrou no restaurante.

Escolheu uma mesa entre tantas que lá havia. A sua era boa mesa, num canto sossegado, especial para provar das mineiras delícias da sua infância. Logo veio o garçom, que com aquela feia educação, nada natural, típica dos que servem apenas por fora:

— Bom dia senhor. Aqui está... — passando o cardápio.
— Quero linguicinha frita com ovo. Obrigado — devolveu o cardápio sem nem mesmo dar uma olhadela.

— Sinto senhor, mas acho que não temos esse prato — o garçom insistiu com o cardápio. — porque o senhor não prova nosso feijão tropeiro com linguiça mista de capivara? É muito bom...

— Não! Quero linguicinha frita com ovo. Comia isso na minha mineira infância. Aqui se serve comida mineira, certo?

— Sim, mas...

— Então traga cá logo meu prato!

— Mas não prefere o senhor provar nosso tutu com torresmo de capivara?

— Que tutu de capivara o que?! Quero comer o que eu quero! Lá fora dizia assim: “Comida Mineira”. Então quero comer uma comida mineira. Eu comia isso na minha vida toda quando era criança em Minas. Então traga logo linguicinha frita com ovo, e arroz, feijão.

— Mas esse prato não temos no cardápio... — o garçom já estava irritado, e largou o cardápio na mesa — Escolha algo que temos aqui...

— Linguicinha frita, com ovo...

— Sinto muito senhor, mas não temos esse prato...

— Então tira a placa lá da frente. Me fazem sentir aqui na boca o gosto da comida da minha vó Zizinha, e me mandam comer capivara. Coma você a capivara!

— Senhor, não precisa se exaltar. Mantenha a calma. Gostaria de falar com o nosso gerente?

— Não! Quero comer linguicinha frita! E com ovo meio mole...

— Já volto. Um momento, por favor — ardendo de raiva levou de volta o cardápio. Era um garçom bem reacionário, e odiava que lhe pedissem excentricidades. Lá estava o cardápio, e bastava se manter fiel e patriótico.

Ele permaneceu na mesa do canto. Mão direita como concha sobre a esquerda, dedo indicador batendo rapidamente. Olhou os outros fregueses que entravam para o almoço daquela quarta perdida em algum lugar entre cá e aí.

— Bom dia amigo. Sou o gerente — sua camisa azul se diferenciava das dos garçons, bem alvas — Posso ajudar?

O garçom servia medalhões de frango e chuleta de capivara na mesa depois da mesa ao lado, e ouvia muito interessado.

— Sabe, minha vó Zizinha era uma velhinha bem doce. E adorava juntar os netos pra dormir no sítio. Havia tanta confusão naquela casa, e uma paz tão grande. Me lembro do óculos costurando uma roupa qualquer. Cara de roupa de antigamente. E tinha um sabor de jambo maduro, sabe? E a noite não havia muita cosia pra fazer, e a gente, todos, conversava sobre coisas qualquer. Minha vó punha minha prima no colo e alisava o cabelo dela, e alisava, alisava... Ah, como quis ser a minha prima. Ela alisava, alisava o cabelo dela... E hoje senti na boca aquele gosto da Minas desse tempo, da minha vó Zizinha — parou um instante. O gerente não fazia a menor idéia do que aquele homem dizia — aí então quis comer linguicinha frita com ovo.

— Bem, sei como é, mas não temos esse prato...

— Até das mariposas na luz me lembrei hoje. Da areiola onde jogávamos bola. Eu corria tanto naquele tempo, e sempre me ajogava no chão. Na tarde, eu não gostava, o sol avermelhava o céu, e tudo ficava tão triste, uma tristeza que a gente não explica. Só sente sem saber como, nem o que a gente perdeu. Sabe? Hoje eu penso que era tristeza pelo fim do dia, lembrando a gente do nosso ocaso. Todo homem sabe disso, e não sabe, apenas sente quando o céu fica vermelho por conta do pôr-do-sol.

— O senhor pode escolher outro prato se quiser. Não gostaríamos de perder um freguês amigo. Sinto não poder satisfazer seu desejo...

Ele sorriu olhando as mãos, uma sobre a outra. Levantou-se e bateu no ombro do gerente. O garçom nem mais lá estava.
Saiu pacato. Porém antes se virou e disse:

— Teu erro, que hoje foi meu também, é querer fingir que nessa vida a gente se satisfaz. O que me satisfaz é linguicinha com ovo. E vó Zizinha morreu faz trinta anos. E isso não tem... Fica com Deus!

E foi-se para casa. Lá outras lembranças iam pondo ele longe.



— Vô! Olha cá!
— Eia, que beleza! Põe aqui... cuidado pra não soltar...
— Regina! Regina! Peguei uma!
O avô ia segurando o vidro de maionese. Já tinham pego quatro vaga-lumes. Regina longe, pensando em alguém...
Guilherme Drumond
Enviado por Guilherme Drumond em 04/10/2006
Reeditado em 04/10/2006
Código do texto: T256187
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Sobre o autor
Guilherme Drumond
Rio Bonito - Rio de Janeiro - Brasil, 37 anos
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Guilherme Drumond