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Na fila do banco

Na fila do banco todos aguardavam sua vez.

Entrou um homem sem cabeça, que após examinar rapidamente o interior da agência, foi direto ao caixa, ignorando a fila.

– Ei, tem uma fila aqui, moço – reclamou um homem de bigode cheio de boletos e bloquetos a pagar.

– Desculpe – disse o homem sem cabeça – mas eu sou deficiente físico, tenho preferência.

– Não, deixa disso que não ter cabeça não é deficiência física – sacudia o dedo o homem de bigode, que estava nervoso por conta de uma briga com seu barbeiro pela manhã.

– Ora, se me falta a cabeça, é claro que sou deficiente físico.

– Não é! Pois isso não lhe faz falta. Não é uma carência, não lhe impede de trabalhar nem nada. E não te dificulta esperar cá na fila como todos nós.

Na fila todos sacudiam suas contas em apoio ao destemido bigode que enfrentava o homem sem cabeça. Este, porém, já havia passado para a caixa (uma mulher baixinha com seios fartos) todo o dinheiro a depositar. Para ganhar tempo o homem sem cabeça ia dizendo:

– É um absurdo os senhores me negarem um direito constituído. A sociedade precisa respeitar mais os deficientes. Ora, saibam que é dura a vida de um homem que perdeu a cabeça. Já imaginaram suas vidas sem suas cabeças? Não, né? Pois só sabe do martelo a bigorna.

– Não se faça de vítima! O senhor está se utilizando da falta da cabeça pra furar fila. Isso é feio. Por que não espera como todos nós? Estamos a cinco dias aqui nesta fila. Pagamos as contas das contas que ainda vamos pagar. E o senhor nos desrespeita com essa atitude de arrogância.

– Não abro mão de um direito garantido pela lei. Deficientes têm preferência no atendimento aqui no banco. Basta que respeitem a lei.

– Arrisco até dizer que o senhor tirou a cabeça só pra furar a fila...

– O que?! Repete isso, descarado! Agora o amigo está passando dos limites. Quer que lhe arranque o bigode? Perdi a cabeça na escola quando era criança. Um incidente terrível na terceira série. O senhor sabe o que é crescer sem nunca ter usado um boné?

– O senhor é muito esperto. Tá abusando...

A caixa deu ao homem sem cabeça o comprovante de alguma coisa. Este com a cara vermelha saiu apressado para o jornal.




– Vilma, trás a pá aqui!
– Que foi Narico?
– Um passarinho morto...
– Está sem cabeça? Foi o gato?
Na árvore alguém ronronava...
Guilherme Drumond
Enviado por Guilherme Drumond em 06/10/2006
Código do texto: T257408
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Sobre o autor
Guilherme Drumond
Rio Bonito - Rio de Janeiro - Brasil, 37 anos
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Guilherme Drumond