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O bar do crente

Quando ia pra igreja dentro de seu terno, todos os dias da semana, ia carregando a bíblia com pose, e sempre sorridente.

Era evangélico, e era muito evangélico. Do tipo que considera pecado jogar videogame, usar biquíni, fazer sexo grupal e ouvir pagode ou forró.

Passava em frente ao bar e com fúria no olhar condenava todos que ali, ao som do profano pagode, se embebedavam. Havia ódio no seu olhar, e esse ódio refletia de longe nas garrafas escuras de cerveja. Faltava pouco esse olhar de ódio trincar uma daquelas garrafas ou fulminar um dos que seguravam os copos, bebendo e tagarelando bobagens.

Era mais que evangélico, era crente. E odiava aquele bar. Aquele lugar de vícios, de álcool. Aquele lugar que só servia para afastar as pessoas do caminho de Deus.

Acontece que um dia ganhou na Loto acumulada. Consta que ganhou três bilhões e trezentos e quarenta e cinco milhões de Reais, mais uns quebradinhos.

Parte da fortuna gastou com doações muito bem orientadas pelo Pastor Debrovildo de Carvalho, missionário que já esteve na África do Sul, no Haiti, em Guiné Bissau e em outros lugares com baixíssimos indicadores sociais.

Mas parte do dinheiro, segundo ele a mais bem gasta, usou para comprar aquela maldita birosca. E tão logo pegou as chaves da birosca lá entrou e fez uma grande reforma. Uma verdadeira revolução.

Não demorou muito para entrar o mais antigo freguês no bar agora sob nova direção. Era uma inauguração sem grande pompa. O velho freguês não reparou na ausência dos pôsteres do Mengo na parede, nem sentiu falta da mesa de sinuca agora substituída por um púlpito. Uma enorme cruz lisa pendurada na parede encardida tomou o espaço de algumas fotos de churrascos. A música que tocava era de uma cantora evangélica que insistia em versos fortes: “Fogo! Vai descer fogo! Agora é fogo! Jericó em fogo! Fogo! Fogo!”

— Ué, cadê o Zé do Bar?

— Não trabalha mais aqui.

Do outro lado do balcão estava ele, o crente. Queria vingança pelas vezes em que passou em frente aquele boteco profano, e este havia perturbado sua visão, tirando o seu sossego.

— Comprei o bar dele.

— Mesmo? Então meu amigo, me dá uma cerva bem gelada.

— Não tem mais cerveja aqui.

— Serve da mais barata mesmo. Quero é molhar a goela que tá brabo!

— Não tem mais cerveja não. Já disse. Acabei com essas bebidas do Diabo. Isso não é coisa de Deus.

— Mas vai demorar pra buscar a cerveja?

— Não tem ninguém buscando cerveja não.

— Você disse que não tem cerveja. Então se não tem alguém foi buscar.

— Ninguém foi buscar cerveja nenhuma. Aqui não tem cerveja...

— Quer que eu busque?

— Buscar o que? — entrou no bar outro freguês.

— Buscar cerveja, que acabou a cerveja do bar...

— Ninguém vai buscar nada aqui não. Não tem cerveja e pronto, tá acabado. Aqui agora vai ser uma casa de oração. Não uma birosca profana. A palavra de Deus vai libertar esse lugar. O pecado foi varrido daqui. Aleluia!

— Casa de oração? E vai custar quanto a cerveja nessa casa de oração?

— Que cerveja? A casa de oração é pra louvar a Deus. Não tem bebida alcoólica, não tem palavrão, não tem futebol, não tem sacanagem. Só o fogo do Espírito Santo libertando nossas almas. É pro fiel elevar sua voz...

— Karaokê não! — bradou um dos fregueses que havia chegado e observava de longe. — Ninguém merece Karaokê.

— Ei, enquanto não chega a cerveja, me arruma uma linguicinha frita.

— Eu quero um torresminho, mas com uma branquinha.

— Torresmo tem. Cachaça é bebida do cão. Aqui não se vende cachaça! Aqui agora é terreno santo. Já até mudei a placa lá na frente. Antes era “Bar Chega Junto”, troquei pra “Casa de Bênçãos Chega Junto”. Aqui é um lugar de oração, de louvor, e de graças. Aleluia!

— Mas o que a gente vai beber? — Era o quinto freguês que chegava, e da mesa perguntava aflito.

— Aqui só vendo refrigerante!

— Ah, então me dá uma garrafa. Por que não disse antes que tinha bebida.

— Toma aqui o refrigerante...

— Puta que me pariu! Isso é bebida de criança! Pensei que “refrigerante” fosse a marca da cerveja. Vai tomar...

— Ei, palavrão aqui não! Essa é uma casa de oração. Aqui só pode falar “aleluia”, “amém”, e quando muito um “queima, Senhor!”

Já havia muitos fregueses dentro do bar. Todos angustiados demoraram a entender as mudanças ocorridas. Só depois que o crente explicou varias vezes o que era uma casa de oração, e que abriu a bíblia é que o pessoal entendeu. No rádio a cantora se empolgava: “Fogo, cai do céu... Fogo, fogo!”

E desolados todos foram saindo. Triunfante o crente acenava pra todos gritando bem alto o horário do culto de quebra das maldições. E de cabeça baixa os antigos fregueses iam para as suas casas deprimidos.

Contam que até alguns ratos saíram daquele bar depois que um camundongo apareceu por lá de terno e com meia página da bíblia dos roedores na mão. O ratinho com muita empolgação guinchava: “Fogo! Queima ele Senhor, no fogo santo de Jericó! Aleluia!”

Paz do Senhor para todos!
Guilherme Drumond
Enviado por Guilherme Drumond em 06/10/2006
Código do texto: T257409
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Sobre o autor
Guilherme Drumond
Rio Bonito - Rio de Janeiro - Brasil, 37 anos
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Guilherme Drumond