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O Andarilho - Dia 07

Encolhido sobre a entrada da toca, o andarilho abrigava-se da chuva. A manhã mal havia chegado e a tempestade já era implacável. Pela hora, já deveria estar caminhando. Mas como? Se ainda estava fraco e cansado. Sem contar o pulso que inchara muito desde a noite passada.

“O que houve com esse pulso?”.

E se o destino, ainda estava lhe mantendo próximo àquela toca. Aquela casa em forma de buraco é porque algo ainda estava para se resolver.

Observou a chuva por mais um bom tempo, ameaçou a caminhar algumas vezes, mas por fim decidiu ficar. Ajeitava sua ampulheta quebrada, quando no interior da toca, ouviu um barulho.

“A mulher tenho certeza que não é... Mas o menino, quem sabe?”.

Ele desceu os degraus de barro cuidadosamente. Havia pensado não entrar mais lá no dia anterior, mas algo parecia lhe chamar. Algo lhe convidava a voltar para aquele túmulo improvisado.

Adentrando no que eles deveriam usar como sala, ele teve que levar a gola da camisa até o nariz. Não era de ter frescuras, mas o cheiro lá dentro estava insuportável. Percebeu que o fogo que antes, esquentava a água, ainda estava aceso, e descobriu que alguma coisa que não pertencia mais àquele lugar, ainda estava por lá. Deu uma boa olhada na mulher e viu que as moscas já haviam levado uma boa parte do seu rosto. Ele cuspiu ao seu lado. Olhou para onde antes estava caído o corpo do menino e não o encontrou. Olhou mais no fundo e o viu encostado sobre uma cadeira. Ele parecia morto. Ele estava morto. Mas o andarilho sabia que isso não significava muita coisa por ali. Então, se aproximou de Treze e falou:

— O que você quer?

O menino abriu os olhos e sussurrou “A faca... Tire essa faca...”.

O andarilho esticou o braço e retirou a faca do peito do menino. Ele suspirou profundamente, mas seu peito não se mexeu. Agradeceu-lhe pelo que fez e disse que estava lhe chamando, pois precisava de um favor.

— Já lhe livrei da faca. O que mais quer?

— Meu cachorro... — Ele falava, mas não mexia os lábios.

— O que?

— Procure por ele... Coloque essa medalha em seu pescoço e verá o que eles juntos são capazes de fazer.

O andarilho olhou para o pescoço do menino e viu uma pequena medalha em formato de círculo pendurada sobre o buraco deixado pela faca.

— Prometi um dia lhe encontrar e devolver-lhe a medalha. Gostaria que fizesse isso por mim... Não porque poupei a sua vida. Pois o fiz sem saber. Mas simplesmente porque não posso mais sair daqui. Pelo menos até meu corpo sumir.

— E onde posso encontra-lo?

— Siga em frente na estrada. Terá que passar por lá de qualquer maneira.

— Passar por onde? Como vou saber?

A voz do menino parecia era frouxa, como se estivesse cheia de ar. Porém seu corpo não cedia um milímetro, em parte alguma.

— Você saberá onde está. Todos sabem. Sempre sabem.

O andarilho pegou a medalha, acenou para o corpo estático de Treze e saiu novamente da toca.

Já era noite, e a tempestade havia lavado o céu deixando as estrelas brilhando novamente. Uma pequena conversa que havia lhe tomado todo o dia. Uma pequena conversa que iria lhe trazer grandes conseqüências para o resto da vida.


Leia todos os dias do Andarilho e acompanhe esta saga surpreendente...
Frei Antonio Silva
Enviado por Frei Antonio Silva em 19/06/2005
Reeditado em 02/08/2005
Código do texto: T25841
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Sobre o autor
Frei Antonio Silva
Areal - Rio de Janeiro - Brasil, 74 anos
11 textos (464 leituras)
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Frei Antonio Silva