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O DIA EM QUE MORREREI

A cada instante de nossas vidas, vemos o passar dos minutos sem nos preocuparmos absolutamente de nada importante ou relevante. Passamos o tempo pensando em pagar contas, em aumentar nossas economias, em ter o carro do último modelo e esquecemos das verdadeiras graças que o dia a dia nos entrega segundo a segundo. Hoje, no ano de meus 70, as preocupações seguem sendo as mesmas de outrora, mais já que o dia chegou cantando ao som de um canário, pensei em dar me um presente especial.

A rotina era a mesma dos últimos anos. Levantava-me as 6 da manha pela direita de minha cama, lado por onde os raios do sol invadiam o quarto, dando uma luminosidade aconchegante àquele ambiente de mobília conservadora; depois ao banheiro lavar o rosto com a água mais fria que existisse; um café feito com grãos mineiros e um pão francês tostado na velha e oxidada chapa, àquela esquecida há anos sobre o fogão, para depois de tudo, descer à rua, pegar o ônibus com destino ao centro da cidade e encontrar me com os amigos de toda vida.  O diferente desde dia, seria a conversa que colocaria sobre mesa entre uma cerveja e outra, entre uma partida de domino e outra. Neste dia queria que o assunto fosse não sobre as glórias do passado ou das mulheres que conquistamos, mais sim sobre o dia em cada um de nós e em especial eu, escolheria para morrer.

Depois de uma viagem eterna em ônibus, onde o que restava de minha coluna terminou por ser desintegrada pelos saltos e freadas bruscas do chofer, cheguei ao bar que sou cliente desde os anos que trabalhava na praça da República, 40 doces primaveras atrás. Seu Bartolomeu, um homem que ninguém tinha idéia de sua origem e para que falar de sua idade, administrava o local desde que me lembro e em todas estas décadas, conseguiu deixar aquele ambiente tal qual como o conheci. As lingüiças seguiam penduradas na parede com a poeira que as cobria desde centenas de anos, os azulejos, como sempre, todos engordurados e chapa, onde todos os lanches eram feitos, seguia sem ser limpa há anos. Dizia ele que ai estava o grande segredo de seu estabelecimento, pois ninguém terminaria naquele lugar devido à beleza de seu dono.

Eram apenas 11 da manha, mal havia entrado ao bar e meu copo já estava cheio e a minha espera. Aquela visão era um verdadeiro deleite para meus olhos, mais ainda quando há esta hora a temperatura já alcança os 36 graus Celsius. Fui o último em aparecer e todos já reclamavam, pois velho é assim, se dói reclama e se não, reclama também. Peguei meu copo, o suor da cerveja gelada escorregava pelo vidro refrescando minha mão, olhei para o teto, como se estivesse cumprimentando ao cara lá de cima, puxei minha cadeira e após um breve segundo de silencio, brindei à morte. Causei um espanto e quase um infarto nos amigos da mesa. Após o brinde, lancei a pergunta e de imediato minha resposta, condenando me a morrer com meu coração a salvo, minha consciência tranqüila dentro da agonia feliz de qualquer dia 21 de uma sexta feira querida.
Fabs
Enviado por Fabs em 07/10/2006
Reeditado em 07/10/2006
Código do texto: T258688
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Sobre o autor
Fabs
São Paulo - São Paulo - Brasil, 43 anos
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