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O velho no ônibus

Ao entrar no ônibus, pela porta da frente, o velho mostrou a carteira de identidade ao motorista. Este nem percebeu, e continuou entretido com seus pedais, marchas e volante.

Sentou-se quase no meio do coletivo.

Os fluxos da cidade ignoravam a cena.

O velho olhou para a pessoa do seu lado e disse meio de súbito:

— Tudo bom?

O outro passageiro se limitou a sorrir por um momentinho.

— Eu acredito que esse ano as mangueiras vão ficar carregadas.

Todos acabaram percebendo o velho, que pelo visto não havia percebido que ali não era um lugar para deixar de ser despercebido. Um dos passageiros, já adivinhando a tagarelice do velho sacudiu a cabeça com pesar e enfado.

— Ano passado meu quintal ficou tapado de manga. Eu até tentei catar algumas. Fiz suco. Gosto muito de suco de manga. Mas a minha mulher diz que aumenta minha glicomia. Sou diabétis, sabe. Minha velha não. Tem saúde de ferro. Veio de Minas. De Divinópolis. Conheci ela na igreja de lá. Aí roubei ela do pai dela, que...

E o velho deu uma gargalhada que assustou o ônibus inteiro. Até o motorista que nunca prestava atenção em nada olhou pelo retrovisor. O cobrador riu um pouco da risada do velho. Os passageiros ficaram meio inquietos. Do lado do velho o passageiro a quem se dirigia a história endureceu, arregalou os olhos. O velho completou a frase ainda em meio à gargalhada:

—...que era delegado. Veja lá! Delegado o velho Biscaia. Quis me dar um tiro. Mas eu fui mais sabido e piquei a mula. Morreu. Seu Biscaia. Parece que de alguma coisa da cabeça. E acho que vai mesmo ser uma boa época de manga. Pena que minha açúcar está alta no sangue. Dizem que abajerú é bom, né? A folha e a raiz. Minha mulher, chama-se Cotinha, ela gosta disso de mato. Volta e meia aparece com uma beberagem, um mato qualquer pra dor aqui, inchaço acolá... O pai dela morreu de tumor celebral, ela não! Tem saúde de ferro. E eu vou ser besta de não beber o abajerú?
E deu outra risada. Essa menos escandalosa, mas mais longa. Uma risada que tinha raízes profundas. Alguém mais atento a veria como a copa florida de uma árvore plantada há muito tempo. Terminada a risada o velho fitou o passageiro do lado. Perguntou:

— E o amigo? És casado?

— Divorciado.

— Uma vez quase me divorciei da Cotinha. Trabalhava puxando madeira naquela época. Estava sempre na estrada. Mal chegava já tocava de novo pro Pará. Já esteve no Pará? Terra bonita. Terra bonita mesmo...

Um grupo quase grande de estudantes uniformizados entrou pela porta da frente. Um foi barrado pelo motorista que cobrava a carteira. O garoto se atrapalhava com a mochila, um caderno todo cheio de desenhos e já bem usado, cheio de seu nome escrito deste e daquele jeito. O caderno não servia. A carteirinha. Por fim achou, mas faltava um carimbo. O velho observava. O estudante insistiu. O motorista precisava conduzir o ônibus. Por fim deixou o garoto entrar, os colegas o zoaram. Ele não deixou barato e respondeu cada zoação com algo à altura. O velho calou-se enquanto os garotos estiveram fazendo barulho. Aos poucos o silêncio foi voltando. Os garotos foram se dissolvendo no silêncio do coletivo. Logo somente o motor e o velho podiam ser ouvidos:

— Meu filho adorava uma manga. Eu tinha que dar uns cascudos nele pra não arrancar a fruta verde do pé. Era danado o sem-vergonha! A Cotinha mimava ele, e se eu não puxo a orelha... Mas cresceu garoto bom. Formou-se em Farmácia. Estudou mais que o pai. Eu fui caminhoneiro a vida toda. Antes fui servente. Mas isso era quando eu era garoto. Trabalho mesmo, só na estrada. Por isso desde cedinho disse pro meu filho: “Escute aqui meu filho! Estude, que nessa vida quem não tem estudo está lascado!” E o amigo acha que a peste estudava? Que nada! Era só brincadeira. A Cotinha arrancava os cabelos. Eu confesso que parte da culpa era minha. Estava sempre longe... Ou na Bahia, ou no Pará... Mas quando chegava em casa punha logo tudo em ordem. Ele tremia quando me via chegando. Sabia que ia receber uma coça pelas notas baixas. A minha velha ameaçava: “Seu pai vai chegar e aí você vai ver!” Ah, e o danado cresceu rápido. Quando me dei conta era formado...

O passageiro do seu lado levantou e puxou o sinal. O velho fez que ia se despedir. Aquele que saía se armou pra dizer um adeus. Mas o velho só interrompeu a fala o tempo que teve que deixar o passageiro do lado sair. Logo se voltou para o passageiro do outro lado do corredor e emendou:

— Agora ele trabalha em São Paulo. Casou com uma mulher muito doce. Pena não me darem netos. Mas não reclamo não. O senhor pensa que eu reclamo? Não, não... Deus sabe o que faz, né?

O passageiro do outro lado do corredor sorriu dizendo:

— Sabe sim, senhor...

O velho sorriu de volta. Ficou sério por uns instantes.

Os outros passageiros já ignoravam o velho. Nem mais deixavam que ele os incomodasse na sua impercepção diária. Eram apenas passageiros. A cidade a sua volta, suas linhas retas, suas cores fracas, a confusão de barulhos, tudo os lembrava daquelas coisas que temos que fazer. E eles as faziam todos os dias.

Era uma cidade.

Depois daquele silêncio o velho sorriu novamente e se voltou para o passageiro do outro lado do corredor:

— Já até sinto o aroma da manga. Esse ano os pés vão ficar carregados.

— Acho que sim...

E levantou o velho, com movimentos inseguros e cuidadosos que a velhice nos empresta. Puxou o sinal. Despediu-se do passageiro do outro lado do corredor e desceu numa rua pouco movimentada. O sol já vinha meio baixo.

Quando chegou em casa sua mulher, Cotinha, chorava muito. Adaíltom telefonara de São Paulo contando que sua mulher estava grávida. O velho abraçou sua mulher emocionado.

As mangueiras ficaram carregadas aquele ano.
Guilherme Drumond
Enviado por Guilherme Drumond em 07/10/2006
Reeditado em 07/10/2006
Código do texto: T258794
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Sobre o autor
Guilherme Drumond
Rio Bonito - Rio de Janeiro - Brasil, 37 anos
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Guilherme Drumond